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A ficus e a ficção especulativa de “Floresta é o nome do mundo”

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Por Afonso Junior Mas, naquele tempo, enquanto esteve intacta, tinha montanhas altas e encristadas de terra, e, quanto às planícies a que agora chamamos solo rochoso, tinha-as cheias de terra fértil. Tinha também numerosas florestas nas montanhas, de que ainda hoje há evidências manifestas, pois é nestas montanhas que atualmente existe o único alimento para as abelhas, e não há muito tempo que se cortava árvores nesse local para construir os tetos das grandes edificações — coberturas essas que ainda estão conservadas... Ursula K. Le Guin. Foto: Benjamin Reed No seu diálogo Crítias (111c), Platão já relata um tempo passado (uma Era de Ouro) em que as florestas da Ática viviam livres. Esses dias, um condomínio cortou uma árvore de 70 anos, cuja copa (sem manutenção da prefeitura) atravessava a rua até o prédio da frente, porque todos pagaram indenização depois que uma pessoa foi atingida pela queda de um galho. Eu, no começo, acreditei que a ficus elástica era uma ameaça ao mundo civil...

O retorno d’O mameluco, de Amélia Rodrigues

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Por Renildo Rene Na vida, como na arte, as peripécias caminham às vezes indiscretas, silenciosas, até que se revelem profundamente desiguais para impedir o trajeto feliz. Mesmo após ter se destacado em vida, por suas contribuições à educação e à imprensa do recôncavo baiano, Amélia Rodrigues teve o seu primeiro romance publicado em livro apenas em 2022, quase um século após sua morte. Agora, O mameluco , que estava restrito à sua publicação periódica no jornal Echo Sant’Amarense (onde os capítulos foram publicados em 1882), consegue edição exclusiva — e o seu panorama cálido sobre a nação, remanescente de uma mente que pensa a identidade civil dentro de um projeto autoral, torna-se mais tangível ao leitor brasileiro.   Nesse livro que chega a nós sob esforços admiráveis da pesquisadora Milena Britto e do selo editorial paraLeLo13S, há um quadro de personagens que se inicia com o viúvo português Paulo de Avilez e a sua filha Ramira, educada nos princípios do evangelho de moça pura ...

As três faces de Nosferatu

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Por Emilio de Gorgot  A história do cinema está repleta de cadáveres, e não apenas daqueles com presas. Falo de antigos filmes cujas cópias originais se perderam ou se deterioraram ao longo dos anos a ponto de se tornarem irrecuperáveis. Entre os infelizes finados estão vários filmes de um verdadeiro gigante da cinematografia, o diretor alemão Friedrich Wilhelm Murnau. Sua obra-prima, Nosferatu , também esteve à beira da morte, mas, fiel ao seu tema, retornou do mundo dos mortos. A produção, o lançamento, o escândalo judicial e o quase desaparecimento de Nosferatu poderiam facilmente se tornar o enredo de seu próprio filme. O projeto foi idealizado por Albin Grau, um excêntrico arquiteto alemão obcecado por magia negra e ocultismo. Em seu tempo livre, gostava de usar túnicas cobertas de símbolos esotéricos e portar espadas cerimoniais. Ele se juntou, é claro, a uma sociedade secreta, a Fraternitas Saturni (Fraternidade de Saturno), onde era conhecido pelo evocativo nome de Mestre ...

O tradutor e o oculista

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Por Rafael Bonavina  Vladimir Lebedev Quando sai a nova tradução de alguma grande obra, todos os interessados se apressam para saber se foi bem traduzida. O ritmo acelerado do mercado — mesmo o editorial — exige uma resposta rápida e curta, de preferência que caiba em uma arte para as redes sociais: é bom, há melhores. Porém, e muitos teóricos da tradução concordam, avaliar uma tradução é tarefa extremamente complexa, por isso demanda muito tempo e reflexão para se poder fazer jus ao seu objeto. Em grande medida, essa demora se dá pela própria complexidade da ação de traduzir, esse ato desmedido, como diria o mestre Boris Schnaiderman. Não há muita novidade nisso, mas é importante às vezes contar piadas velhas para públicos novos: o trabalho do tradutor não se limita à sobreposição de uma palavra estrangeira por outra idêntica do vernáculo. Não precisamos ir muito longe para percebermos que em português há muitas palavras para se designar um lugar cheio de plantas (mato, matagal, f...

Depois do trovão, de Micheliny Verunschk

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Por Henrique Ruy S. Santos  Micheliny Verunschk. Foto: Renato Parada. De acordo com dicionários e outros resultados da internet, concentricidade é a qualidade daquilo que é concêntrico. O que, por sua vez, diz-se, em geometria, de figuras que possuem o mesmo centro, como um círculo menor dentro de um outro maior, que o abarca. Essa ideia de concentricidade espelha o que se pode chamar de esquema formal do novo romance da escritora pernambucana Micheliny Verunschk, Depois do trovão . O leitor, entretanto, deve proceder com cautela diante dessa proposição crítica: ainda que se trate de um romance experimental em seu trabalho com a linguagem, não se tem aqui um daqueles livros geométricos à Osman Lins ou Cortázar, muito menos aquelas estapafúrdias aventuras matemático-literárias dos franceses do Oulipo. Aqui a linguagem narrativa, ao misturar elementos do português com vocábulos e estruturas linguísticas do tupi antigo, do nheengatu e de outras línguas indígenas, infunde uma dose de e...

Boletim Letras 360º #661

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DO EDITOR Saiba que na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajudar a manter o  Letras , sem qualquer custo extra. O seu apoio continua essencial para que este projeto permaneça online. Georges Simenon. Foto: Philippe Le Tellier LANÇAMENTOS Depois de passar por diversas casas editoriais que nunca completaram a publicação da obra de Georges Simenon, uma nova promessa: a Coleção Georges Simenon da Editora Unesp reinicia esse trabalho. A tradução integral da obra do autor belga se publica organizada em ordem cronológica .   1. O primeiro volume da Série Comissário Maigret, formada pelas célebres histórias policiais do também célebre personagem, o imperturbável comissário Jules Maigret, traz muitas delas ainda inéditas no Brasil. Nos quatro romances que abrem a série, o leitor encontrará todos os traços que se tornariam marcas registradas de seu protagonista. Em Pietr, o letão Maigret espera prender o crim...