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“Entre o meu ser e o ser alheio”: metamorfoses contra o fascismo cultural

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Por Afonso Junior Ilustração: Daniel Arce Lopez (Reprodução)   Roberto Bolaño no seu livro Literatura nazista na América imagina uma galeria de mediocridades literárias reacionárias, algumas delas buscando referências em Philip K. Dick e Borges... Seria apenas uma piada artística genial, se a América não estivesse provando que o fascismo cultural não morreu e gerou novos produtos na era da internet. Porque é impossível não perceber que o neofascismo voltou a mobilizar as massas depois das “redes sociais”.   “Os alemães piraram de tanto ler, não foi?”, alguém me diz no contexto da caça às bruxas. Se imagina que em torno de 60 mil pessoas foram assassinadas por bruxaria, 25 mil delas no território da atual Alemanha. Lutero morrerá em 1546; em 1532, já temos o Constitutio Criminalis Carolina , código penal que legitima as perseguições. Depois da rebelião do Sola Scriptura, o país prendeu e raspou a cabeça de mulheres e as torturou por voarem, com a fé de que, se eram cris...

Cenas da vida na província, de J. M. Coetzee

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Por Henrique Ruy S. Santos     Deitei fora a máscara e dormi no vestiário Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo E vou escrever esta história para provar que sou sublime.   — Fernando Pessoa, “Tabacaria” J. M. Coetzee. Foto: Edwina Pickles Todo ato de leitura, especialmente a leitura atenta, aquela que se debruça sobre um texto para produzir algum tipo de interpretação materializada, é um ato carregado de tensões e embates. Embates suscitados por um jogo de forças entre o que o texto por si propõe e o que nós, como leitores de outros livros (sim), mas também (talvez ainda mais) recipientes atordoados de informação, ofertamos como nossa bagagem. A equação, a esta altura, já traz consigo um certo cheiro de coisa empoeirada: obra em si + experiências do leitor = leitura. Para além das infinitas problematizações que cada termo dessa equação pode levantar, é ao resultado da soma que minha atenção aqui se volta brevemente. Em que medida essa leitura que se dá com...

Slovo patsaná, a série

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Por Rafael Bonavina A dissolução da União Soviética não foi apenas um trauma para os que a vivenciaram e sentiram na pele os vários efeitos da dissolução de um país. É claro que isso não aconteceu da noite para o dia, foi um processo histórico que pouco a pouco minou as fundações dessa sociedade até que o edifício como um todo ruiu. Em outras palavras, a infraestrutura implodia e levava consigo a superestrutura. Não é à toa que a transição gerou — e ainda gera — muito debate a respeito das suas causas e consequências. Como não poderia deixar de ser, o polêmico tema também foi tratado na cultura, e vemos diversos poemas, romances, filmes e séries que o desenvolvem.   Um dos casos mais interessantes feitos nos últimos anos é a série de oito episódios Slóvo patsaná: krov na asfálte (2023), dirigida por Zhora Kryzhovnikov. Apesar do seu imenso sucesso na Rússia e em diversos países pós-soviéticos, a série não conseguiu atingir o Ocidente com a mesma potência, em muito por causa da gra...

O mundo é um moinho? — poetrices ao léu de Amadeu Logarezzi

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  Por Lucas Paolillo     as formas da música e sua elevação de espírito o branco e preto da palavra escrita os vários timbres da palavra dita o acordar passarinho e o dormir silêncio meio-dia, no meio, o somos, sendo inteiros sonhamos o real que não encaramos encaramos o sonho que não realizamos realizamos... uma espiral de coisas com a nossa cara a cara da liberdade que nos é cara em cuja busca tateamos um mundo cruel que não está em nosso peito nem no céu mas que nos pauta e nos põe no chão na busca de caminhos da vida viva cujo trilhar implica necessária leveza feito perfume de manacás que decorre do se levar e se elevar juntos dia a dia... corpo a corpo — Amadeu Logarezzi, “Perfume de manacás” (2025)     Não são raros aqueles que consideram, no Brasil, Cartola um exemplo de poeta. Nas criações dele, os limites entre literatura e música muitas vezes transbordam. Dentre as composições mais célebres do compositor temos “O mundo é um moinho”, gr...

Rubem Fonseca: a fascinação do abismo

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Por José Miguel Oviedo Rubem Fonseca, anos 1980. Foto: Arquivo do escritor.   Não deixa de ser um tanto paradoxal que tenha sido um escritor estadunidense tão famoso quanto Thomas Pynchon que tenha reconhecido no escritor brasileiro Rubem Fonseca o que poucos de nós conseguimos enxergar: um verdadeiro mestre.   “O melhor da obra de Rubem Fonseca é não saber aonde ela vai nos levar. Sempre que começo um livro dele, é como se o telefone tocasse no meio da noite: ‘Olá, sou eu. Não vai acreditar no que está acontecendo.’ A sua escrita faz milagres, é misteriosa. Cada livro seu não é só uma viagem que vale a pena, é uma viagem de algum modo necessária.”   Bom, há uma grande verdade nisso, porque a virtude fundamental de Fonseca é a de todo bom contador de histórias: fazer-nos acreditar no incrível, inventar um mundo que se assemelha ao nosso, mas que é, por alguma razão, inteiramente novo e fascinante.   Rubem Fonseca sabe, como poucos, contar algo tão envolvente que n...