Crise, crises (parte II)

Por Pedro Fernandes




Por esses dias saiu neste espaço uma fala minha sobre uma crise que anda a assolar o mundo inteiro, conhecidamente de todos, porque tem sido sobre que a maior parte dos jornais e telejornais tem falado ultimamente, a crise econômica. Haveremos de concordar que esta é uma das muitas crises que vem atormentando a tão frágil organização humana. Mas junto com ela vem ou já estavam várias outras crises. Há a crise financeira. Há a crise política, a crise religiosa, a crise energética, a crise ambiental, a crise... Há crise para todos os gostos. Devo ter enumerado parte significativa delas. Ou senão as mais faladas ao lado da econômica. Umas não tão recentes assim, outras tão velhas quanto à existência humana nesse planeta. Houve crises, há crises e crises ainda haverá. Crises. A história humana é, pelas crises, permeada. Mas, tenhamos calma, isso ainda não é o fim dos tempos, como muitos fanáticos religiosos querem – uns até mesmo pedem em suas orações pela volta do Salvador. Tenho receio de que é o Apocalipse now, mas crises brabas já passaram e ainda estamos de pé. Aos poucos percebo mesmo que começamos já a superar aquelas catástrofes – tão belas, bélicas e belicistas – do Apocalipse. Mas se aquelas profecias tão esperadas já estamos a superá-las, onde está o fim? O fim está só pode está noutra crise.

Depois de rever minha fala, “Crise, crises”, e com ela os fatos que têm sido postados na imprensa ultimamente, começo a perceber que há uma crise maior e mais antiga que todas as que enumerei e as que ainda estão fora por enumerar. Essa outra crise é talvez a responsável por todas as outras e pertence ao rol daquelas tão antigas quanto à própria história do homem. Talvez seja ela a que nos destruirá de vez, porque se trata de uma crise na qual estamos mergulhados, cegos, e não nos damos conta. Estamos sendo assolados por ela e enquanto dela não nos livrarmos não conseguiremos entender as causas das outras crises e tampouco resolvê-las. Trata-se de uma crise que os jornais e telejornais não divulgam, porque eles também estão nela submersos e aqueles que a vê fazem de conta que não a viu, porque acham que essa crise não é fato noticiável ou não apresenta perigo à raça humana.

Analisemos comigo alguns fatos aleatórios para ver se podemos enxergar neles a tal crise de que falo: (1) a crise política porque passam judeus e palestinos e que faz o governo israelita fechar os olhos para a crueldade a milhões de civis em Gaza; (2) a crise energética que faz os governos da Ucrânia e da Rússia deixar meio continente da Europa a padecer no frio; (3) a própria crise econômica que permite com que governos abram seus cofres e despejem toneladas de dinheiro aos banqueiros que foram até certo ponto irresponsáveis com o dinheiro alheio e agora somam esforços em engordar um discurso de que não conhecem, não sabem ou não previam os fatos que se desenrolam na corda bamba de um capitalismo delinquente; (4) a crise ética num Brasil incapaz de elaborar e por em ação uma justiça que puna os principais responsáveis pelos escândalos dentro e fora do governo e que tanto tem beneficiado aos corruptores; (5) a crise na Arábia Saudita que permite ao mufti, autoridade religiosa e máxima do país, impor o casamento de meninas na idade de dez anos, expondo ao mundo tanto melindre, escancarando debaixo da lei a pederastia legalizada; (6) a crise no Irã onde dois homens foram apedrejados por adultério, ou no Paquistão onde cinco mulheres foram enterradas vivas por quererem casar-se no civil com homens da sua escolha; (7) a crise que permite rios de gente ludibriada encher igrejas para serem assaltadas com compra de milagres e salvação; (8) a crise que permite a fome, enquanto outros se resvalam no luxo.

São apenas alguns exemplos, muitos outros ainda mereciam ser enumerados, mas deixo que faça o leitor cada qual sua própria listagem e todos os exemplos que citarem pode estar certo que esta crise a que me refiro estará por detrás ou por entre o enumerado. Os exemplos que enumerei, entretanto, já são capazes de mostrar ou entender a crise principal a que me refiro, a crise que sabiamente soube vê-la Saramago, escritor português Nobel de Literatura na sua obra-prima “Ensaio sobre a cegueira”, que recentemente foi posto às telas dos cinemas no Brasil inteiro. Refiro-me à crise moral. E falar de moral na época em que se diz que o mundo é dos mais espertos, para não dizer dos cínicos e dos oportunistas, é se passar por besta. Pois dou minha cara a bofete e cada leitor faça a reflexão que achar.

* Texto publicado no Jornal Correio da tarde em 15 de abril de 2009, p.2.

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