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Mostrando postagens de fevereiro, 2024

150 anos do impressionismo

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Por Veka Duncan Claude Monet. Boulevard des Capucines , 1873.   Este é um ano de aniversários importantes para a história da arte, e um dos mais esperados é a comemoração dos 150 anos da primeira exposição impressionista. Lembremos, então, os acontecimentos daquele 1874, que revolucionou o mundo da arte.   Os artistas que hoje agrupamos na categoria de impressionistas atuaram desde a década de 1860, quando eram apenas estudantes de arte: Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir, Alfred Sisley, Frédéric Bazille. O grupo foi acompanhado por Camille Pissarro, Paul Cézanne, Édouard Manet; este último tornou-se uma espécie de líder, pois já começava a ganhar popularidade fora dos círculos oficiais. Eles ainda não se autodenominavam impressionistas, eram conhecidos como o Grupo Batignolles, em homenagem ao bairro onde se reuniam. Estavam unidos por um espírito rebelde, pois se opunham à continuação das imagens idealizadas de cenas mitológicas, históricas ou religiosas, que a conservadora Académi

Serguei Dovlátov

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Por Tania Mikhelson Serguei Donatovich Mechik nasceu, em Ufa, em 3 de setembro em 1941. Seus pais — a atriz Nora Dovlátova, de origem armênia, e o diretor teatral Donat Méchik, de família judia — foram expulsos de Leningrado no início da invasão alemã. Serguei é o nome favorito de Nora. Ela não apenas o escolhe para a criança, mas, por motivos de eufonia, muda o seu próprio patronímico. Assim, Nora Stepanovna foi renomeada como Nora Sergeyevna.   Segundo os arquivos do conflito, a família é evacuada novamente para um local mais ocidental: Novosibirsk. Dovlátov nunca menciona este fato na sua obra, enquanto a sua cidade natal e o seu lendário e fortuito encontro com Andrêi Platonov merecem várias menções.   Os Dovlátov regressam a Leningrado em 1944 para se instalarem nos dois andares concedidos a Nora Sergeyevna para o seu trabalho no Teatro Dramático Regional de Leningrado. Ela está acompanhada do marido, da sogra, o pequeno Seriozha e Anelia, uma das irmãs de Nora. O resto das habita

Seis poemas/canções do Shi Jing, ou Livro das Odes¹

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Por Pedro Belo Clara (Seleção, versões e notas)*     O BARCO DE CIPRESTE ( Canções dos Estados — guó feng )   Feito de madeira de cipreste Flutua e segue à deriva E tal como esse barco Sigo arremessada, volteada Náufraga duma secreta angústia Imune até Aos relaxados encantos do vinho   Nem meu coração um espelho é Para afastar esta mágoa Nem em meus irmãos Mais novo e mais velho Posso pôr minha confiança Falando das minhas aflições Somente provoco a sua ira   Meu coração uma pedra não é Que se possa pôr de parte Meu coração um tapete não é Que se possa enrolar e guardar Exilo-me com dignidade e firmeza Não ofereço motivos de censura Ou culpa   De coração triste, dorida e pesarosa Assediada sou por homens triviais As preocupações e as mágoas que conheço são variadas Os insultos ainda maiores Na quietude da noite deito-me e vou cismando Despertando, ergo-me e em meu peito bato   Porque têm sempre o sol e a lua De se apagar e morrer? O lamento pega-se ao coração Como uma capa suja Na qui

Boletim Letras 360º #572

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Virginia Woolf. Coleção Kirkpatrick, Universidade de St Andrews, St Andrews, Escócia.   LANÇAMENTOS   Uma completa seleção de ensaios de Virginia Woolf feito por Leonardo Fróes .   Umas das maiores ficcionistas do século XX, Virginia Woolf foi também ensaísta prolífica e inovadora, tendo escrito profissionalmente resenhas e artigos para periódicos, como o Times Literary Supplement , durante toda sua vida. Tal como na prosa de ficção, também nos ensaios ela ultrapassa os limites dos gêneros literários, propondo uma forma de pensar e de escrever mais aberta e menos categórica, que não se conformava aos padrões vigentes, de tradição fortemente masculina: “um livro de mulher não é escrito como seria se o autor fosse homem”. Os ensaios reunidos neste volume — com seleção, tradução, apresentação e notas de Leonardo Fróes — foram escritos entre 1905 a 1940 e cobrem os principais temas de sua vasta produção, com destaque para os ensaios literários e os biográficos, ambos majoritariamente dedic

A memória de Borges

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Por Alejandro Zambra Dois amigos incansáveis passam a última noite de 1970 traduzindo Shakespeare. Os amigos se chamam Borges e Bioy Casares. Não são exatamente mestre e discípulo, mas de alguma maneira o velho Borges inventou Bioy. Ou, melhor dizendo, é Bioy, com suma cortesia, que se deixou inventar, com a condição de manter alguns favoráveis sinais distintivos: ao lado de Borges será sempre jovem; ao lado de Borges será sempre longo, porque escreve romances, os romances que Borges aceitou não escrever para que Bioy os escrevesse.   Naquela noite, a de 31 de dezembro de 1970, após jantar peru com purê, os amigos incansáveis trancam-se a traduzir Shakespeare. “Com Borges dormimos um cadinho, versificando em espanhol as bruxas de Macbeth”, escreve Bioy em seu diário, e a imagem reaparece de forma invariável: em 10 de janeiro diz que trabalharam “cabeceando entre hendecassílabo e hendecassílabo”, e em 13, que traduziram “entre cabeceios”, e em 18 é Borges quem aceita que trabalhem “na