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Da plenitude ao colapso: o sublime em Caspar David Friedrich e em Werner Herzog

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    Por André Cupone Gatti   Considerações iniciais   I   O sublime, pensado conceitualmente desde o começo do primeiro milênio pelo filósofo Longino, provável autor de “Do Sublime”, talvez jamais servira tão bem a uma época de renovação cultural quanto ao período do romantismo. Repensado por muitos filósofos dos séculos XVIII e XIX, dentre os quais destacam-se Edmund Burke, Immanuel Kant e Friedrich Schiller, a ideia de sublime se mostrou peça importante nas investigações acerca da natureza das emoções humanas e dos mecanismos da arte.   Longino diz que “o sublime é a violência que desequilibra”, um choque que nos tira de nós mesmos e nos leva ao êxtase; ele ainda enumera cinco origens do sublime, sendo duas naturais, inatas, e três construídas, relacionadas à arte. Séculos depois, para os filósofos dos séculos XVIII e XIX, ainda serviriam os pensamentos de Longino como base para conceituar o sublime, agora sob a luz da Estética. Edmund Burke defende que o...

As pontes possíveis. Identidades à deriva em “De amor e trevas”, de Amós Oz

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Por André Cupone Gatti Amós Oz. Foto: Leemage   I.   Quando o escritor israelense Amós Oz publicou, em 2002, o seu romance De amor e trevas , já era um autor de renome, premiado e com uma obra sólida. A dimensão testemunhal desse livro, no entanto, bem como a sua trama multívoca e bem tecida entre passado e presente, memória e invenção, História e subjetividade, fez dele uma espécie de súmula ou síntese do universo que permeia toda a obra de Oz. Romance que se vai desfolhando em temas variados e complementares, De amor e trevas trança, propositadamente, os traumas de um menino aos traumas de uma nação recém-nascida, as frustrações e alegrias de ambos, e, acima de tudo, as suas profundas contradições. O romancista nos mostra quão imensuráveis são as esferas internas e externas da existência, e como elas se continuam e se confundem.   Não só os anos 1940 e 1950 em Eretz-Israel, mas toda uma sorte de paisagens do leste europeu dos séculos XIX e XX são reconstruídas no roman...

“Destino”, de Ryunosuke Akutagawa

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Por André Cupone Gatti e Guilherme de Almeida Gesso   Nenhuma frase resume tão expressivamente a persona artística de Ryunosuke Akutagawa quanto aquela de sua própria pena, escrita alguns meses antes de se suicidar, em janeiro de 1927: “Não tenho consciência de qualquer espécie, nem mesmo artística. Sensibilidade é tudo o que tenho.” Inegavelmente, a prosa de Akutagawa nasce do sensível e jamais o perde de vista. Esse contista japonês, considerado o maior de seu país no século XX, no entanto, acabou por construir narrativas com possibilidades interpretativas tais, que nos soa estranho aceitar unicamente a sensibilidade como fonte da sua criação ficcional.   Retórica à parte, Akutagawa, para além da sua maneira “à flor da pele” de criar, narrando o pasmo das superfícies, desenvolveu, em grande parte dos seus contos históricos, uma curiosa e discreta tensão entre as cores absolutas da tradição fabular e a coloração gradiente da modernidade. Foi o conto “Rashomon”, publicado em ...

Um chá bem forte e três xícaras, de Lygia Fagundes Telles

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Por André Cupone Gatti e Guilherme de Almeida Gesso Antes do baile verde é talvez o livro de contos mais conhecido e aplaudido de Lygia Fagundes Telles, e desde o seu surgimento em 1970 vem se firmando como um dos pontos altos da contística em língua portuguesa da segunda metade do século XX. Verdade seja dita, porém, há irregularidades, no livro, de um conto para outro, e apesar da escrita ser sempre limpa e bem urdida, nem sempre a narração, às vezes explícita demais, alcança a excelência literária; por outro lado, quando Lygia constrói tramas laterais, discretas e quase nulas, e impregna algumas poucas palavras aparentemente despretensiosas de significações decisivas, alcança-se a primazia no gênero. Exemplos de contos dessa espécie, e que são obras-primas não só do século XX, mas da literatura em língua portuguesa desde sempre: “O menino”, “Meia-noite em ponto em Xangai”, o machadiano “Antes do baile verde”, e o discretíssimo, enganador e de trama quase inexistente “Um chá bem fo...

Inferno, de Dante Alighieri

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Por André Cupone Gatti   Saiu pela Companhia das Letras, no segundo semestre do ano passado, uma nova e muito aguardada tradução para o Inferno , primeira parte da Comédia , de Dante Alighieri. Muito aguardada porque, além de apresentar ao público brasileiro mais uma dentre algumas traduções para o português de um dos textos mais notáveis da literatura ocidental, foi empreendida por três tradutores, a seis mãos (fato, até onde sei, inédito por aqui no que diz respeito às traduções dantescas), e não quaisquer três tradutores: Emanuel França de Brito, Pedro Falleiros Heise (ambos pesquisadores da obra de Dante no mestrado e doutorado) e Maurício Santana Dias, um dos mais prolíficos e talentosos tradutores do italiano ao português, premiado no Brasil e na Itália por sua atividade como tradutor.   Qualquer nova tradução de um texto tão geometricamente conjecturado e tão rico de inventividade verbal como é a Comédia já causaria alguma curiosidade nos amantes da boa literatura; ess...

Prazeres febris: dois poemas de Ada Negri

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Por André Cupone Gatti   Ada Negri (1870-1945), escritora nascida em Lodi, na Lombardia, é um daqueles nomes muitas vezes negligenciados quando se fala da literatura italiana do século XX. No que diz respeito à poesia, especialmente, lembra-se de Ungaretti, Montale, talvez Pasolini e Saba, mas raramente discute-se a obra de Ada Negri. Mesmo na Itália, ela parece ter sido eclipsada pela ideia de uma poeta retrógrada, de inclinação patética, demasiado emotiva; somente nos últimos dez anos sua obra vem sendo revista, reinterpretada e republicada no seu país natal com interesse renovado (ponto alto desse movimento é a edição das obras completas de Negri, publicada pela Mondadori em 2020).   Influenciada pelas principais vertentes literárias da Itália do final do século XIX, ou seja, o verismo e o decadentismo, Ada Negri forjou sua poética sob os signos da melancolia, do fatalismo e da solidão feminina, não obstante a denúncia social e o patriotismo estarem presentes em significati...

O amor e o mundo: tensões entre a permanência e o efêmero em Emily L., de Marguerite Duras

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Por André Cupone Gatti Marguerite Duras (1914 - 1996), seja em seus filmes, seja em seus livros de ficção, tematizou o amor como uma dolorosa resistência ao mundo. Escrevendo quase sempre a partir do universo sentimental feminino, a autora soube construir uma obra ficcional fortemente influenciada por sua biografia e pelas ideias do nouveau roman ; soube, porém, acima de tudo, valendo-se de voz particular, imergir no limbo dos relacionamentos amorosos e representá-lo em relação à sua contraparte caótica, o mundo, a História. Inquieta quanto à busca das possibilidades representativas, formalizou tanto no cinema quanto na literatura os signos da passagem, da memória e da melancolia. Certa vez me disseram que o cinema de Duras é muito literário, e a sua literatura é muito cinematográfica. Apesar de ser uma visão superficial e generalista, há nisso alguma verdade: o formalismo extremo dos seus filmes carrega como contrapeso a fluidez das narrações em off ou das contínuas conversações; por ...

As ruínas em movimento: As Naus e o espólio de uma utopia

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Por André Cupone Gatti António Lobo Antunes. Foto: Leonardo Cendamo.   I. O imperialismo português dos séculos XIX e XX foi alimentado por certa ideia ufanista de um Portugal áureo, por uma dimensão simbólica de um império central, herdeiro ininterrupto do tempo das grandes navegações. Os séculos XV e XVI marcaram a nação lusitana com a signo do esplendor e da riqueza; essa marca, perpetuada séculos afora, ao mesmo tempo mostrou-se maldição e benesse: benesse porque alçou o imaginário de um Portugal grandioso, maldição porque teimou em encobrir a realidade das subsequentes épocas com a máscara mitológica dos feitos quinhentistas. Salazar, em sua ditadura, soube aproveitar e reaproveitar essa coleção de lendas, valendo-se da utopia para afirmar “grandes certezas” da nação e tingir de glória os seus desmandos, dissuadindo as atenções da realidade e prolongando a imagem áurea do seu despotismo.   Não seria eterna a ilusão. A partir dos anos 1950, algumas contestações surgiri...