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Mostrando postagens de 2022

Um homem só, de Christopher Isherwood

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Por Pedro Fernandes Christopher Isherwood. Foto: Michael Childers   Depois das experiências romanescas de Virginia Woolf e de James Joyce, multiplicaram-se os romances que se utilizam de uma narração cujo tratamento de dilatamento do tempo se mostra propícia ao testemunho sobre as experiências comuns de uma circunstância ou um dia corriqueiro na vida de uma personagem trivial à maneira de evidenciar simbolicamente toda uma existência. De alguma maneira, Um homem só , de Christopher Isherwood dialoga, chamemos assim, com essa tradição, uma vez acompanharmos um dia na vida de George, tempos depois de quando recebe a notícia sobre a morte trágica de Jim, com quem estabeleceu longos anos de convívio.   Como nos outros casos reconhecidos na literatura, por entre o itinerário que se inicia com o despertar de George e finda com a hora de dormir, passa-se a rotina recorrente na vida dessa personagem, seu trabalho como professor, as trivialidades exercidas por qualquer pessoa e os encontros des

A herança de Rilke

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Por José Filadelfo García Gutiérrez Rainer Maria Rilke, em seu escritório, por volta de 1905. Fine Art Images/ Heritage Images   Rainer Maria Rilke começou a escrever as Elegias de Duíno em 21 de janeiro de 1912 e as concluiu dez anos depois, às 18h de 11 de fevereiro de 1922. Imediatamente após terminar a décima elegia, ele escreveu uma carta à amiga e sua protetora, a princesa Maria von Thurn und Taxis: “minha mão ainda está tremendo”. Ao longo dessa década, houve um silêncio poético, que durou de 1916 a 1921, que nada mais foi do que um longo processo de reflexão entre a inquietação pela aridez criativa e a espera pela descoberta que unisse, poeticamente, o que já havia sido resolvido dentro do poeta. Para Eustaquio Barjau, Rilke “já sabia há muito tempo em que consistiria sua decalogia”. Para o futuro das Elegias , são utilizadas as notas e rascunhos de cartas que o poeta de Praga, peregrino de mansões e castelos, escreveu no início de 1921, e que intitulou de O testamento .   A o

Labirintos entre idiotas: Hans Magnus Enzensberger

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Por Hugo Alfredo Hinojosa Hans Magnus Enzensberger. Foto: Barbara Klemm   No início do século XXI, Hans Magnus Enzensberger, o poeta e filósofo alemão, galardoado com o Prêmio Príncipe das Astúrias em 2002, era uma figura ativa nos meios sociais do seu país e da Europa, uma celebridade pensante vilipendiada pelos intelectuais puritanos, para quem o reconhecimento público é degradante. Alguns de meus professores se referiam ao escritor com desdém: “um vendido ao capitalismo”, “traidor dos ideais socialistas aprendidos em Cuba”, “falhou no projeto de reunificação da Alemanha em 68”, declaravam, “sua teoria do novo homem (livre) foi um fiasco.” Nunca compreendi a falha moral do filósofo e reflito, sem medo de mal-entendidos, que o problema cardinal do ensino da filosofia (as humanidades e as ciências sociais) reside na transmissão dos ressentimentos de classe dos professores aos alunos; a filosofia é tomada como instrumento para toda doutrina grosseira, um grande equívoco devido às limita

My beloved Sterne: a sabedoria do Tristram Shandy

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Por Pablo Sol Mora Staircase Group (Portrait of Raphaelle Peale and Titian Ramsay Peale I) 1795 Charles Willson Peale.   Em minha biografia de leitor de romances, a descoberta do Tristram Shandy foi um marco tão importante quanto a do Quixote ou A consciência de Zeno (de fato, um mesmo espírito cômico une os três romances). Por vezes ocorre que, ainda que não tenhamos lido um determinado autor, pelo que ouvimos falar dele e o que aprendemos aqui e ali, pressentimos a partilha de certas afinidades, e, quando enfim o lemos, felizmente confirmamos nossas expectativas. Foi isso que se passou comigo com relação a Sterne. Eu sabia o que era o Tristram e tinha noção de sua natureza lúdica e humorística, sabia que certamente gostaria dele quando o lesse (já havia lido a Viagem sentimental , na tradução de Alfonso Reyes); ainda assim, não podia antecipar por completo o assombro e o prazer que sua leitura me causaria.   Meu Tristram é o traduzido por Javier Marías, reeditado pela Alfaguara

Boletim Letras 360º #508

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DO EDITOR   1. Caro leitor, continuam abertas as inscrições para o clube de apoios ao Letras no mês de dezembro. Esperamos realizar o sorteio no dia 17. Disponibilizamos quatro livros e queremos sortear quatro leitores: a edição de luxo da Ed.ufpa com os poemas inéditos de Max Martins  Say it (over and over again) ;  Mobiliário para uma fuga em massa , de Marana Borges (Dublinense); a edição especial de  Ensaio sobre a cegueira , de José Saramago (Companhia das Letras); e Sátántangó , de László Krasznahorkai (Companhia das Letras).   2. Para participar é simples: colabora com R$20 e depois entrega o comprovante via blogletras@yahoo.com.br — este e-mail é também a chave do PIX. Para mais detalhes visite aqui ou escreva para o Letras .   3. Outra forma permanente de ajudar ao Letras  com o pagamento das despesas anuais de domínio e hospedagem na web  é na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste Boletim: você pode garantir um bom desconto sem pagar nada mais po

Os jogadores de cartas

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    Por Gabriel Bernal Granados   Talvez a sensação de irrealidade, de desconexão, venha simplesmente do hábito diário, transformado em crônica, do chá de menta e tília.   — Peter Handke, O peso do mundo     Paul Cézanne. Les joueurs de cartes (Os jogadores de cartas). Museu de Orsay.   Catorze anos depois de Thomas Eakins terminar de pintar seu quadro sobre dois jogadores de xadrez, Cézanne começa uma série de pinturas, de tema afim, sobre jogadores de cartas.   Na tela do Museu d’Orsay, a mais emblemática das cinco pintadas por Cézanne, dois homens sentados, vistos de perfil, jogam cartas. Entre o xadrez e as cartas, no entanto, existem diferenças substantivas: o xadrez responde às exigências do cálculo e da estratégia; em vez disso, o jogo de cartas abrange os imperativos do acaso e da malícia.   A pintura de Cézanne envolve uma sublimação do espaço que na pintura de Eakins se torna enunciado e história. Na visão de Cézanne, o importante é a escolha das cores e sua disposição harmo

Encruzilhadas de caminhos: o novo romance de Jonathan Franzen

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Por José Homero Jonathan Franzen. Foto: Ian Allen   “Todas as famílias felizes se parecem...”, diz um incipit tão famoso quanto aquele do lugar cujo autor não consigo me lembrar. Desde seu segundo romance, Tremor (1992), a concepção romanesca de Jonathan Franzen (1962) está enraizada, principalmente, na configuração de famílias cujos infortúnios se tornam socialmente emblemáticos. Se tal interesse poderia sugerir intimismo, a verdade é que o desmesurado nativo de Chicago persegue essa obsessão que angustia todo romancista estadunidense: escrever “o grande romance americano”, figura de uma época e espelho de seu tempo, refletindo sobre o microcosmo familiar. Atualmente considerado o melhor romancista estadunidense — Wallace e Roth morreram — conseguiu isso em As correções (2001) e, em menor medida, Liberdade (2010).   A Encruzilhadas (em tradução portuguesa), o primeiro de uma trilogia que cobrirá os últimos 50 anos, enfoca os Hildebrandt que durante o Natal e a Páscoa de 1971 e 19