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Mostrando postagens de 2022

Seis poemas de Konstantinos Kaváfis

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Por Pedro Belo Clara     Konstantinos Kaváfis. Foto: Cavafy Archive Onassis Foundation       A CIDADE (1910)¹   Disseste: “Vou pra outra terra, vou pra outro mar. Haverá por aí melhor cidade certamente. Será malogro, está escrito, tudo o que aqui tente e o meu coração — como morto — enterrado aqui jaz. Por quanto tempo há-de ficar minh’alma em podre paz? Pra todo o lado olhei, em todo o lado vi ruínas negras dessa vida que vivi, que tanto tempo aqui desperdicei a dissipar.”   Novo lugar não vais achar, nem achar novos mares. A cidade vai-te seguir. Ruas vais percorrer, serão as mesmas, e nos mesmos bairros hás-de viver, nas mesmas casas ficará de neve o teu cabelo. Hás-de ir ter sempre ao mesmo sítio, sem qualquer apelo. Para outro lugar não há navio ou caminho e estragares a vida tu neste caminho é pois igual a nesse largo mundo a dissipares.     ÍTACA (1911)   Quando abalares, de ida para Ítaca, Faz votos por que seja longa a viagem, Cheia de aventuras, cheia de experiências. E

Boletim Letras 360º #485

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DO EDITOR   1. Leitores e apoiadores do Letras, já sabem que disponibilizamos um exemplar da edição especial do Ensaio sobre a cegueira , de José Saramago (Companhia das Letras, 2022) para sorteio entre vocês?   2. Então. É possível ajudar ao Letras com valores a partir de R$10 através do PIX blogletras@yahoo.com.br . Mas essa é apenas uma das formas. Você pode saber mais sobre por aqui . 3. Cabe não esquecer que na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você ganha desconto e ajuda ao Letras sem pagar nada mais por isso .   4. Fiquem bem. E tenham um fim de semana de descanso. Lídia Jorge, Dulce Maria Cardoso e Matilde Campilho. Três gerações de escritoras portuguesas chegam em simultâneo aos leitores brasileiros.   LANÇAMENTOS O retorno de Lídia Jorge ao Brasil?   Um memorável é alguém que merece ser lembrado, ou guardado na memória, pelo que fez. Não é necessariamente um herói, já que a vida e os seres humanos são bem mais complexos do que podemo

A arte agonizante do ensino na sala de aula digital

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Por Tim Parks É possível perder uma pedra fundamental de uma cultura sem identificá-la como tal? Este ano será meu último lecionando na universidade; decidi jogar a toalha três anos antes da idade de aposentadoria. Há um certo número de razões por trás dessa decisão, mas a alteração das circunstâncias na sala de aula é certamente uma delas. Mesmo em nível de pós-graduação, está se tornando cada vez mais difícil sentir que se tem a atenção dos alunos ou que algo de realmente útil acontece durante as aulas.   É claro, professores tem reportado perda de controle na sala de aula por décadas. No início da década de 1970, lembro-me de uma professora de colegial, trabalhando em uma área pobre de Boston, me dizer que ela poderia simplesmente ligar o rádio o mais alto possível e passar suas aulas ouvindo música. Amigos em Milão, hoje, lecionando nas chamadas scuole professionali , relatam experiências similares: a impossibilidade quase completa de se fazer ouvir, a necessidade de lançar mão de