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Mostrando postagens de 2024

Em “Dias perfeitos”, Wenders é mais Wenders que nunca

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Por Ernesto Diezmartínez Durante a primavera de 1983, o cineasta alemão Wim Wenders visitou o Japão para realizar um documentário sobre Tóquio, ou melhor, sobre uma Tóquio inexistente, aquela retratada no cinema de Yasujiro Ozu (1903-1963), “um paraíso que outrora foi realidade”, como o próprio Wenders disse numa entrevista recente. O documentário que se chamou Tokyo-Ga , foi filmado em 1983, mas editado até 1984 — Wenders dirigia sua obra-prima, Paris, Texas (1984) — e estreou finalmente em 1985 em Um Certo Olhar, mostra paralela à seleção oficial do Festival de Cannes.   Wenders e seu então jovem fotógrafo, o futuro três vezes indicado ao Oscar Edward Lachman, chegaram ao Japão no 20º aniversário da morte de Ozu e vagaram por Tóquio por várias semanas, capturando momentos, ações e cenários completamente aleatórios: os barulhentos e lotados salões de pachinko , um “estádio” tranquilo onde os japoneses praticavam suas tacadas de golfe, o cuidadoso processo de fabricação dos pratos sin

Coelho maldito, de Bora Chung

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Por Sérgio Linard Bora Chung. Foto: Hye-young.   Talvez seja desnecessário reafirmar o fato de que grande parte do que se produz na literatura sul-coreana merece nossa detida atenção. Obviamente que como todos os materiais culturais que recebem farta ampliação de investimentos e de divulgações, a saturação, a produção de “enlatados” e a afirmação de ditames meramente declaratórios acabam sendo valas comuns em que os excessos acabam caindo. Este não é, sobremaneira, o caso de Coelho maldito . O livro de contos, publicado originalmente em 2017, chega ao Brasil trazendo, pela primeira vez, a autora para os leitores deste lado do Atlântico. Destaco, desde já, ser este um caso de leitura bastante recomendada, seja por sua qualidade de condução narrativa seja por sua abordagem de temáticas com primorosas ousadia e coragem já comuns — é verdade — em muitas produções literárias orientais.   Normalmente, a elaboração de contos exige, por parte do autor, um poder de concisão e de construção de

B. Traven: o homem que nunca esqueceu

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Por Barry Gifford Ilustração: Vasyl Savchenko   Realmente importa saber quem foi B. Traven? Foi alguma vez um serralheiro polonês chamado Feige? Um ator que virou jornalista radical em Munique chamado Ret Marut? Um emigrante alemão ou talvez norueguês chamado Traven Torvsan? Um estadunidense chegado da Europa que alguma vez trabalhou como marinheiro e desembarcou em Tampico em 1942 para nunca mais navegar? Ou era Hal Croves, que em 1947 se apresentou a John Huston como o agente do autor de O tesouro de Serra Madre , no Hotel Reforma, na Cidade do México? Era filho ilegítimo de um industrial judeu alemão chamado Emil Rathenau e de uma atriz chamada Josephine von Stenwarldt? Ou o filho ilegítimo do Kaiser Wilhelm e de uma atriz chamada Helen Mareck ou Helen Maret?  Por que Ret Marut — antissemita mas exaltado defensor do anarquista judeu Gustav Landauer na Baviera em 1919 —, que muitos pensam ter se tornado B. Traven, foi um contador de histórias e humanista que se isolou no México depo

Boletim Letras 360º #571

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DO EDITOR Olá, leitores! Como estão pós-Carnaval? Por aqui, em recuperação.   Passo para agradecer a todos que se inscreveram interessados em compor o quadro de colunistas do Letras e registrar que, até o final de fevereiro, receberão no e-mail o resultado.   Obrigado pela companhia! Leonard Cohen. Foto: Dominique Issermann   LANÇAMENTOS   Uma tragédia erótica clássica pela pena de Leonard Cohen.   Escrito às vésperas da guinada do autor rumo à música pop, em que se consagraria como um dos maiores compositores e intérpretes da segunda metade do século XX, este romance de Leonard Cohen (1934-2016) é uma das obras mais experimentais da década de 1960. Engraçado, angustiante e comovente, Belos fracassados é uma tragédia erótica clássica, incandescente em sua prosa e estimulante por sua arrojada união entre sexualidade, memória e fé. Com tradução de Daniel de Mesquita Benevides, o livro sai pela editora Todavia. Você pode comprar o livro aqui .   Três romances de Pío Baroja circunscritos

Escrever livros é o pior negócio do mundo

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Por Cristian Vázquez   1 Do ponto de vista capitalista, escrever livros é um dos piores negócios do mundo. Talvez o pior de tudo. Muitos desses artigos cheios de palavras como sucesso, coaching , liderança, atitude, empreendedores e outras do mesmo campo semântico explicam isso. Melhor representar graficamente com um tuíte do escritor Jorge Carrión: “O autor recebe 10% do preço do livro. Se custar 10 euros, 1; se vender 1.000 exemplares, 1.000; se você vender 10.000, 10.000. Se trabalhou três horas por dia durante um ano e vendeu 1.000, ganha 1 euro/hora; se 10.000, 10. Pense nisso na próxima vez que baixar um livro ou disser que ele é caro.”   Por isso, a maioria de nós que escrevemos (e também procuramos que o que escrevemos termine publicado em forma de livro) não ganhamos a vida com isso. Sabemos que temos que ganhar a vida de outra forma. O que tira nosso tempo e energia para escrever. Ou seja: escrevemos no momento que, em tese, deveria ser de descanso ou recreação. E não apenas

O som do rugido da onça, de Micheliny Verunschk

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Por Renildo Medeiros Micheliny Verunschk. Foto: Renato Parada   Aqui está um experimento diferente para você imaginar porque, em certo momento, a onça figura a história deste romance: tente visualizar um encontro face a face com esse animal. Ele te encara assustadoramente e de maneira misteriosa. Sem saber o que ocorrerá, você espera ser acertado como presa/ alvo. Feito o encontro, a onça na verdade está pronta para usar um modo contemporâneo e implacável de fala que percorra um conjunto de conhecimentos, mitos e experiências. Os vários capítulos que estruturam O som do rugido da onça capturam tal dinâmica a partir de perspectivas e visões indígenas, com uma voz narrativa — entre tantas outras — explorando as relações do brasileiro com a sua mitologia originária, e os crimes que se interpõem nesse percurso histórico. Esse é o rugido da onça. Exceto que o animal aqui não caça, mas narra o passado.   A premissa do romance é simples: recontar a história do rapto de duas crianças de tribo

Bastarden: um cinemão tal e qual

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  Por Toni Sánchez Bernal   A crítica ideal para este filme seria breve: “Vejam, não importa o que aconteça”. Nada mais. Para quê falar da portentosa narrativa, da excelência técnica com que é filmada ou das atuações maravilhosas que nos proporciona? O mais importante é que estamos perante duas horas imensas que qualquer um verdadeiramente apaixonado por cinema (não o espectador comum) saberá apreciar.   Que ninguém aqui entenda um possível pedantismo da minha parte, mas há algo que é óbvio: Bastarden (2023) é um filme maduro. Seu tom adulto e nada complacente com a sensibilidade que impera hoje pode incomodar o grande público (talvez daí a injustiça de não ter sido indicado ao Oscar). Na tela vemos uma história que se passa no século XVIII e nem é preciso dizer que recria fielmente o período. Claro que aqui haverá quem reclame, levante bandeira e grite aos céus porque o enredo não se adaptou aos sentimentos do século XXI.   Mas isso não terá nada a ver com o filme, infelizmente. Que

Kallocaína, de Karin Boye. Outra volta ao parafuso das relações Estado-indivíduo

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Por Francisco Martínez Hidalgo Karin Boye, 1940. Foto: Sven Torin. Arquivo Museu Alingsås.   Embora inúmeras obras tenham sido escritas com enfoque no tema das relações Estado-indivíduo, ainda existem algumas que, pela sua abordagem ou desenvolvimento, guardam uma originalidade capaz de surpreender até o leitor mais experiente. Com Kallocaína estamos diante de um desses poucos casos. E não porque lhe faltem elementos constantes em relação a todas as outras obras, algo até inevitável se olharmos para o contexto da sua produção (1938-39) ou da sua publicação (1940). A excepcionalidade deste romance reside na sua perspectiva original: a narradora observa um assunto, inúmeras vezes discutido, a partir de um prisma refrescante e com elementos inovadores, a partir do qual reflecte sobre aspectos frequentemente ignorados.   A chave desta originalidade vem da voz também inusitada de sua autora: Karin Boye (Suécia, 1900-1941). Ela foi uma poeta de extrema sensibilidade, politicamente comprome