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Macabéa: flor de mulungu, de Conceição Evaristo

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Por Guilherme de Paula Domingos Em 2012 a editora Oficina Raquel reuniu doze escritores de diferentes origens e idades para compor um livro em homenagem a Clarice Lispector, um dos maiores nomes da literatura brasileira. Cada autor reescreveu, em um conto, um personagem da escritora. Entre os integrantes da coletânea estão, entre outros, os brasileiros Conceição Evaristo e Silviano Santiago, a portuguesa Maria Teresa Horta e a cabo-verdiana Vera Duarte. O livro, intitulado Extratextos 1: personagens de Clarice Lispector reescritos , se encontra esgotado. Contudo, usando de boa vontade e paciência, é possível adquirir um volume usado.   Nessa antologia, Conceição Evaristo contribuiu com o conto “Macabéa: flor de mulungu”. A editora resolveu publicá-lo numa edição independente em 2023. Como o nome já indica, a personagem escolhida pela escritora foi a protagonista de A hora da estrela . A partir do episódio de desfecho da narrativa, uma Macabéa deitada na calçada em posição fetal de...

As cores de Haruki Murakami

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Por Guilherme de Paula Domingos Haruki Murakami. Foto: Alvaro Barrientos Haruki Murakami é um escritor japonês que atualmente mora nos Estados Unidos. Nascido em 1949, ele já ganhou mais de 15 prêmios literários e publicou mais de 25 livros, transitando entre gêneros como o romance, o conto e o ensaio. Até agora, a sua obra foi traduzida para 50 idiomas e várias de suas histórias possuem adaptação para o cinema, como o recente Drive My Car (Ryüsuke Hamaguchi, 2021), filme ganhador do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2022, baseado em um conto de mesmo título da sua autoria.   O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação é o décimo terceiro romance de Murakami e foi publicado no Japão em 2013. Os romances do autor são comumente descritos pelo uso do realismo mágico, mas esse em especial foge da característica porque exibe poucos dos traços usuais de seu estilo; seus romances geralmente mostram um vilão sem rosto, gatos que falam ou desaparecem, passagens secretas, mun...

Hilda Furacão, a Cinderela boêmia

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Por Guilherme de Paula Domingos Roberto Drummond. Foto: Nelson Aranha Roberto Drummond nasceu em Ferros, em 1933, e é um dos escritores mais importantes da literatura de Minas Gerais. Venceu o prêmio Jabuti como autor revelação em 1975 com a reedição do livro de contos A morte de D. J. em Paris .   Em 1991 publicou Hilda Furacão e sete anos depois a obra foi adaptada para uma minissérie da TV Globo escrita por Glória Perez e dirigida por Wolf Maia. Ele sempre soube que, apesar do livro de contos que rendeu o Jabuti, foi este romance que se destacou como sua obra-prima e inaugurou um novo patamar de exigência literária, a ponto de ele declarar: “Sou um eterno refém de Hilda Furacão ”.   A história se inicia e termina em um primeiro de abril. Esse detalhe já denuncia o projeto de Roberto Drummond, edificado por sua mente ficcionista com bastante cuidado. Uma série de personagens reais se misturam a personagens fictícios, assim como locais inventados convivem com locais que exis...

A oração do carrasco, de Itamar Vieira Junior

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Por Guilherme de Paula Domingos   Dois livros são escritos quando o autor publica. Um é o livro propriamente dito, assinado por quem o escreveu. O outro é o livro que vai se desenhando e fica por bastante tempo no imaginário do leitor, com as questões que traz à tona.    O talento de Itamar Vieira Júnior em A oração do carrasco está em desenvolver através de alegorias temas que nos são dolorosos. Aqui há referências a navios negreiros, carrascos, tribos indígenas, como também diálogos com Clarice Lispector, Hannah Arendt, Arthur Bispo do Rosário, entre outros. A vida se tornou banal, assim como a maldade na tese arendtiana. Um carrasco não sabe mais quantas pessoas já matou porque a crueldade do seu serviço, travestida de ação necessária para livrar o mundo de atos piores, está aliada a um cálculo que o poder faz sobre o valor de cada vida.   Itamar nos traz a figura do carrasco personificada em vários tipos que atravessam nossa história desde tempos antigos. O carr...

Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie

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Por Guilherme de Paula Domingos Chimamanda Ngozi Adichie. Foto: Stephen Voss   Hibisco roxo é um livro sobre como o poder se exerce do mais forte sobre o mais fraco. Dispondo de estruturas como a Igreja, a colonização e as famílias patriarcais, brancos dominam negros, homens dominam mulheres, pais dominam filhos e governos dominam cidadãos.   Racismo   Os nigerianos sofreram um apagamento de sua cultura pelos colonizadores britânicos. Kambili, nossa protagonista, aprende com o pai — um fanático religioso — que a cultura dos brancos é superior. Culpa da obra missionária, que trouxe a religião católica como a correta. O pai de Kambili assimila para si os preconceitos trazidos pelos missionários e os reproduz sem ter a noção de que seu discurso se volta contra si mesmo.   Em casa é permitido falar o idioma igbo, mas em público, apenas o inglês, que “é mais civilizado”. Não se pode cantar nas Igrejas, porque “não é algo que um branco faria”. Os cantos na igreja também ...