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As ruínas em movimento: As Naus e o espólio de uma utopia

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Por André Cupone Gatti António Lobo Antunes. Foto: Leonardo Cendamo.   I. O imperialismo português dos séculos XIX e XX foi alimentado por certa ideia ufanista de um Portugal áureo, por uma dimensão simbólica de um império central, herdeiro ininterrupto do tempo das grandes navegações. Os séculos XV e XVI marcaram a nação lusitana com a signo do esplendor e da riqueza; essa marca, perpetuada séculos afora, ao mesmo tempo mostrou-se maldição e benesse: benesse porque alçou o imaginário de um Portugal grandioso, maldição porque teimou em encobrir a realidade das subsequentes épocas com a máscara mitológica dos feitos quinhentistas. Salazar, em sua ditadura, soube aproveitar e reaproveitar essa coleção de lendas, valendo-se da utopia para afirmar “grandes certezas” da nação e tingir de glória os seus desmandos, dissuadindo as atenções da realidade e prolongando a imagem áurea do seu despotismo.   Não seria eterna a ilusão. A partir dos anos 1950, algumas contestações surgiriam por parte d