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Mostrando postagens de Outubro, 2019

O supermacho, de Alfred Jarry

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Por Pedro Fernandes


O título do romance de Alfred Jerry dificilmente não levará o leitor ao termo utilizado por Nietzsche para designar o que ele compreendia como um modelo ideal de homem capaz de com ele elevar toda a humanidade. O supermacho foi publicado em 1902 e o filósofo alemão havia morrido dois anos antes; logo, as relações não serão gratuitas, se considerarmos o impacto que foram as ideias do autor para o pensamento, além das evidências um tanto óbvias do romance. Para Nietzsche, o super-homem não poderia se unir a outro ser humano que não fosse igualmente superior; o amor é impedimento ao bom senso. Neste homem, de educação eugênica, no sentido de melhoria da condição humana, corpo e alma aprenderiam a obedecer; o super-homem seria, por fim, aquele capaz de se elevar além dos limites estabelecidos pela normalidade.
Quem tiver lido o romance do escritor francês, logo poderá recuperar a sentença de André Marcueil, o supermacho, segundo o qual “Fazer amor é um ato sem importâ…

Harold Bloom, guardião do cânone ocidental

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Por Pedro Fernandes


“A ideia de que beneficiamos os humilhados e ofendidos lendo alguém das origens em vez de ler Shakespeare, é uma das mais curiosas ilusões já promovidas por ou em nossas escolas.”
No início de 2019 revisitei O cânone ocidental — de onde é pinçada a frase acima. Este é talvez um dos textos de crítica literária mais lidos ao redor do mundo; até este ano aparece publicado em mais de quarenta idiomas. É também um dos mais contundentes da crítica literária, por mais controverso que pareça aos olhos de muitos aferrados à desconstrução ou de puros inimigos do conservadorismo. Mas denuncia que o seu autor era um homem de rigor.
Possivelmente, tão cedo não teremos outra figura capaz de construir enfrentamentos com perspicácia e grande fôlego. Sim, os ambientes intelectuais como os por onde circulou estão empestados de senhores vestidos de convicções, de opiniões, de alguma sagacidade, enquanto do que mais carecem é de rigor, perspicácia e fôlego.
Harold Bloom, o nome em que…

Moby Dick e a alegoria

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Por Javier Ozón Górriz


Entre as figuras da retórica, a alegoria, isto é, a arte de expressar algumas coisas em virtude de outras que são mais fáceis de entender, como quando o mistério do Espírito Santo é representado graficamente com a imagem de uma pomba, não é a menos frequente. Isso ocorre por uma razão universalmente reconhecida: a imaginação humana entende o concreto melhor que o abstrato. A alegoria serviria assim como uma representação simbólica de ideias abstratas por meio de figuras visíveis, de modo que, para esclarecer o conceito de “piedade”, nos voltamos para um conjunto escultural no qual uma mãe apoia o corpo de seu filho moribundo, por exemplo; ou expressamos a ideia de “amor nacional” – o abstrato – através da vida exemplar de um soldado – o concreto – sacrificado em nome de seu país e assim por diante. Ciprión, um dos podengos de A cidade e os cachorros, diz sobre o sentido alegórico de que “não significa o que a letra soa, mas outra coisa que, embora diferente, a t…

Olga Tokarczuk, a escritora questionadora do establishment polonês

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Por Tomasz Pindel

O Prêmio Nobel de Literatura para Olga Tokarczuk é, do ponto de vista polonês, uma surpresa, mas – o paradoxo vale a pena – uma surpresa esperada. Na Polônia, tínhamos consciência que ela não é apenas uma autora amplamente lida, apreciada e amada por muitos leitores, mas também que ela é simplesmente uma grande escritora com uma presença crescente no mundo.
Tokarczuk (1962) pertence à geração de escritores que apareceram nos anos 90 do século passado, e não é apenas um detalhe biográfico. Deve-se ter em mente que, em 1989, na Polônia, houve uma grande mudança no sistema político: o país deixa a era do “real socialismo real” e a dependência da União Soviética, inicia-se na democracia, no capitalismo e a cultura vive uma reviravolta enorme. O antigo establishment literário cai no esquecimento, mas os novos autores quase não interessam a ninguém. O público leitor compra maciçamente e devora literatura popular anglo-saxônica, todos esses thrillers, romances policiais, ro…

Boletim Letras 360º #344

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Como poderão acompanhar na leitura desta edição do Boletim Letras 360º, esta foi uma semana extremamente agitada. Alguém poderia dizer que o simples anúncio num só dia de dois galardoados com o Prêmio Nobel de Literatura já seria o diferente e atípico, mas não foi apenas isso o que se passou; deem uma olhada e poderão construir suas próprias conclusões.

Segunda-feira, 7 de outubro
Obra-prima do jornalismo literário ganha edição no Brasil
W. L. Tochman, um dos mais respeitados repórteres poloneses, nos conduz pelas cicatrizes de um país inteiro, pelos corpos, pela terra, para nos contar sobre o genocídio ruandês de 1994 e suas consequências. O que acontece com as vítimas, com os culpados e conosco que fomos testemunhas? Com um estilo que prende o leitor à página, Tochman consegue dar voz aos sobreviventes, aos carnífices e até mesmo aos lugares, semeando dúvidas e questionamentos dos quais não podemos nos furtar. Hoje vamos desenhar a morte é uma obra-prima de jornalismo literário. A tr…