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Mostrando postagens de Setembro, 2019

Boletim Letras 360º #331

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Este boletim devia iniciar dizendo sobre a realização do sorteio no nosso Instagram no último dia 20 de setembro, mas, três dias antes, as duas páginas (a desta rede social e do Facebook) estiveram com problemas: não se deixavam atualizar e quando isso acontecia não carregava nenhum tipo de imagem. As coisas só normalizaram no fim da tarde de ontem, mas já havíamos adiado o fim da promoção. Bom, até a publicação deste boletim, os leitores do Letras no IG saberão que realizaremos o sorteio no fim do domingo, 22. Se até lá, você encontrou esse BO e ainda não participa da promoção, tem chance de  se inscrever. Sorteamos um exemplar de O quarto de Jacob, a belíssima edição com tradução nova proposta pela parceira Autêntica Editora. Recado dado, abaixo encontra as notícias que passaram durante a semana em nossa página no Facebook. Boas leituras!


Segunda-feira, 16 de setembro
Duas vezes Fernando Pessoa,  o inesgotável.
1. Em Portugal, coleção editada pela Editora Tinta-da-China publica O mis…

Do porquê sou professor e não “ensino” gramática

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Por Rafael Kafka


Uma das coisas mais curiosas com que me deparo em meu cotidiano de professor há dez anos são as pessoas as quais pensam poder me dizerem como devo fazer meu trabalho. Não há mal algum em opinar sobre qualquer assunto e a carreira de educador deve ser a mais aberta possível para debates sobre metodologia e currículo. Todavia, fico impressionado com a quantidade de pessoas que se sentem no direito de proferir este ou aquele juízo sem ao menos se prontificarem a criar um arcabouço teórico mínimo, o qual garantiria um debate ético, limpo e com objetivo construtivo. Dentro desse mal maior há outros menores.
Percebo que pessoas ligadas às áreas de ciências humanas e de linguagem sofrem mais com isso. Professores de ciências exatas e naturais ainda contam com o estatuto de “científico” a seu lado e sofrem, ao que me parece, menos questionamentos no tocante ao que ensinam e como ensinam. Humanidades e linguagens parecem o tempo todo serem confundidas com meras opiniões e pala…

Serotonina, de Michel Houellebecq

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Por Pedro Fernandes


Michel Houellebecq é, sem dúvidas, um dos romancistas contemporâneos com melhor faro para dizer sobre o longo período de intermitência para o fim dessa civilização. Não são poucos os escritores que ocupam esse lugar, mas o francês tem uma vantagem própria: está entre os mais originais pela precisão com que consegue capturar no interior da volubilidade ou da multiplicidade das questões o ponto fundamental capaz de nos colocar frente a frente com a versão mais amarga e cruel de nós mesmos. Por essa razão, sua obra é sempre de inquietação e marcada por uma leitura que coloca todo o projeto civilizatório, sobretudo o estágio vigente cujas provas estão por toda a parte, em suspeição. Ou melhor, o compreende como o maior dos nossos fracassos e a pior das nossas covardias. Fracasso porque nem mesmo toda beleza do que criamos é capaz de vencer o mal e a barbárie que praticamos; covardia, porque, apesar de sabermos as soluções para o mal e a barbárie, continuamos repetindo …

A hora de Julio Ramón Ribeyro

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Por Antonio Muñoz Molina


De vez em quando, ao longo das muitas páginas e muitos anos de seus diários, Julio Ramón Ribeyro reflete com certa melancolia sua incapacidade de escrever aqueles grandes romances que quase todos os membros de sua geração latino-americana iam escrevendo. Em algum momento, observa que os leitores e críticos europeus preferem romancistas de ambição épica: ele, Ribeyro, que carece completamente dela, que tende à literatura breve e às histórias de figuras sem importância, percebe que para ser celebrado na Europa seria necessário expor um exotismo e um excesso como os que cultivavam com tanto sucesso os mais célebres de seus contemporâneos: Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, Alejo Carpentier, o José Donoso de O obsceno pássaro da noite, ou seu compatriota e amigo intermitente Mario Vargas Llosa.
Ribeyro chega a dizer que tem inveja desses romances que os críticos qualificam como “afrescos”: grandes panoramas sobre épocas ou países. “Eu nunca serei capaz de co…

Joseph Conrad no coração das trevas (Parte 2)

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Por Rafael Narbona




O coração das trevas foi publicado em 1899 numa revista de Londres, a Blackwood's Magazine. Três anos depois, aparece como uma das três histórias do livro Youth; A Narrative; and Two Other Stories. Joseph Conrad recriou suas aventuras no rio Congo, mudando nomes e detalhes geográficos, mas sem esconder sua repulsa pela colonização belga. A narração começa na foz Tâmisa. Um grupo de homens a bordo do Nellie, um pequeno navio de cruzeiro, aguarda a descida da maré para partir. Marlow torna a espera mais leve, recontando sua viagem ao Congo. Entre seus interlocutores está um advogado, um contador e o capitão. Todos são viajantes experientes, “tolerantes para com as histórias e até com as convicções de cada um”, uma vez que estão ligados pelo “vínculo do mar”, o que implica longas separações de seus entes queridos, sem outro horizonte que as águas oceânicas, mares e rios. Esses cenários são uma excelente metáfora para a existência humana, onde o acaso e a imprevisibi…

Heinrinch Böll: o escritor, o homem

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Por Fernando Aramburu



Um escritor, sim. Um contador de histórias, também. Heinrich Böll concordou com essas definições; mas acontece que seus contemporâneos insistiram em lhe atribuir características que ele rejeitava repetidamente.
Ele não gostava de ser qualificado como escritor cristão, por mais que durante toda sua vida professasse constantemente sua fé com convicção. Maior irritação lhe causava ser chamado de moralista. Foi, sim, um homem de seu tempo, atento às questões sociais. Um homem que muitas vezes levantou a voz, participou de movimentos de protesto e apresentou suas opiniões políticas em inúmeras entrevistas, artigos, conferências. Um entrevistador certa vez perguntou a ele como se explicava que, para um grande número de cidadãos alemães, ele representava algo como a consciência moral da Alemanha. Ao que respondeu sem hesitar: “Porque pouquíssima consciência”. Böll percebia que tais atribuições à política e à moral simplificavam seu trabalho, se não o anulavam, tornando-…