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Mostrando postagens de Maio, 2021

Lazarilho de Tormes ou a astúcia do anti-herói

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Por Joaquim Serra Lázaro de Tormes, um pícaro – palavra que remete a ajudante de cozinha –, é o astuto, o sagaz, o velhaco. Na novela espanhola, não há como desassociar o pícaro de suas características. Lazarilho de Tormes , o protótipo do gênero picaresco, é a novela que daria origem a várias outras que viriam depois como Guzmán de Alfarache , de Mateo Alemán e El Buscón , de Francisco de Quevedo. Mas Lazarilho de Tormes teria um reconhecimento além por conta de suas estruturas narrativas próprias; segundo Mario González, “sem dúvida, o que mais importa para a história da literatura com relação a Lazarillo de Tormes é a profunda inovação que a obra apresenta em termos de modalidade narrativa: o texto anônimo é uma das raízes do romance” (p. 194). Para Lázaro, anti-herói do protótipo da novela picaresca, escrever em uma carta sua biografia para “Vossa Mercê”, carta em que tenta justificar sua vida e suas ações, parece um ato tão descompromissado a ponto de contar ao leitor as diversa

Dez poemas e fragmentos de Safo

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Por Pedro Belo Clara   Afresco de uma jovem nomeada Safo. Pompeia, 55-79 d. C. Se passares por Creta 1 vem ao templo sagrado, onde mais grato é o pomar de macieiras e do altar sobe um perfume de incenso.   Aqui, onde a sombra é a das rosas, no meio dos ramos escorre a água, e no rumor das folhas vem o sono.   Aqui, no prado onde todas as flores da primavera abrem e os cavalos pastam, a brisa traz um aroma de mel. …   Vem, Cípris 2 , a fronte cingida, e nas taças de oiro voluptuosamente entorna o claro vinho e a alegria.     ***     E de súbito a madrugada de sandálias de oiro.     ***     No ramo alto, alta no ramo mais alto, a maçã vermelha ali ficou esquecida. Esquecida? Não, em vão tentaram colhê-la.     ***     Vésper 3 , tu juntas tudo quanto dispersa a luminosa aurora, trazes a ovelha, trazes a cabra, só à mãe não trazes a filha.     ***     Desejo e ardo.     ***     Com os braços cheios de rosas, vinde sagradas filhas de Zeus 4 !     ***     … mais doce ainda que o canto da li

Boletim Letras 360º #429

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DO EDITOR   1. Caro leitor, nesta edição do Boletim Letras 360.º estão as notícias que fizeram a semana que agora termina em nossa página no Facebook, sempre utilizada para trocar informações e divulgar o que nos alcança e mantém relação com as linhas de interesse do Letras in.verso e re.verso.   2. Reitero, em nome do blog, os agradecimentos pela companhia e pelos gestos de divulgação e de diálogo, tão importantes para trabalhos como este, realizados pelo gosto e algum sonho de renovação pela literatura. Obrigado e boas leituras! Vinicius de Moraes na sede da UNESCO. Paris, 1963. Imagem: Pedro de Moraes.   LANÇAMENTOS Aclamado romance de Taiye Selasi, uma das vozes da literatura contemporânea inglesa mais conhecidas, ganha tradução no Brasil .   Este é ao mesmo tempo o retrato de uma família marcada pela separação de seus caminhos e uma viagem pela importância que nossas origens têm na formação de nosso caráter Kweku Sai, renomado cirurgião formado nos Estados Unidos e autoexilado em

A cena viva da poeta Fiama Hasse Pais Brandão

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Por Márcio de Lima Dantas Fiama Hasse Pais Brandão. Arquivo Colóquio/Letras. A escritora Fiama Hasse Pais Brandão nasceu na cidade portuguesa de Carcavelos, numa chácara, no dia 15 de agosto do ano de 1938. Residiu em Lisboa até 1992, voltando a morar em um sítio. Faleceu em consequência de complicações advindas da doença de Parkinson, a 19 de janeiro de 2007, sendo sepultada no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa. Teve como primeiro esposo o poeta Gastão Cruz, pai dos seus dois filhos; viveu, em seguida, 12 anos com Veiga Ferreira. Trabalhou como bibliotecária-arquivista durante 20 anos no Centro de Estudos Linguísticos da Universidade de Lisboa. Sua gentileza e generosidade era conhecida entre poetas e tradutores, nunca se negando a colaborar com os espíritos que buscavam engrandecer a cultura e a arte. Contemplada com inúmeros prêmios literários, destaca-se por ter abrangido um grande leque de gêneros literários, tornando sua obra extensa e multifacetada, como se fora um caleidoscópi

Recordações do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto

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Por Pedro Fernandes Lima Barreto. Arquivo Biblioteca Nacional.   Lima Barreto publicou Recordações do escrivão Isaías Caminha primeiro em folhetim numa revista criada por ele próprio e que só teve quatro números conhecidos. O primeiro saiu num sábado, 25 de outubro de 1907; o autor de Floreal era um jovem de 26 anos e este empreendimento, subtitulado “Publicação bimensal de crítica e literatura”, foi para ele, certamente, a realização de um sonho. Havia pouco tempo que uma série de acontecimentos penosos se colocara no seu caminho, entre eles, a necessidade de abandonar os estudos na Escola Politécnica do Rio de Janeiro devido a necessidade de sustentar a família depois da loucura do pai. Nesse breve intervalo de tempo, que cobre os anos de 1903 e o de aparecimento do folhetim, o iniciante escritor trabalhou em várias frentes: como amanuense na Secretaria da Guerra, como colaborador no semanário O Diabo , como jornalista no jornal Correio da Manhã , na escrita de Clara dos Anjos ― r

Com o indicador no espiral

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Por Tiago D. Oliveira O pão do corvo , de Nuno Ramos, foi editado pela primeira vez em 2001 pela Editora 34. São dezessete narrativas curtas que caminham pelo estranho da percepção que em muitos momentos chega a causar certo incômodo quando as palavras começam a revirar os pensamentos transformados em carne. Pensar que palavras escritas se tornam no corpo um fim palpável, com certeza é uma reflexão sobre a materialidade dos sentidos provocados pela escrita do Nuno Ramos. Em 2017, a editora Iluminuras relançou O pão do corvo , dando um novo ar para uma escrita que ano após ano vem se configurando como uma das principais vozes da literatura nacional. Nuno transpassa o ato de grafar um tempo para pesquisar neste, em suas ranhuras marcadas, lugares que só um escritor sensível aos mistérios da natureza humana consegue captar e desenhar em períodos provocadores dentro de uma leitura atenta ou até desavisada. No conto “Lição de geologia”, a narrativa que abre o volume, o leitor vai sendo