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Mostrando postagens de Fevereiro, 2021

António Ramos Rosa. Quatro poemas de Delta (seguido de Pela Primeira Vez) (1996)

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Por    Pedro Belo Clara Estar na montanha na imóvel ondeação com uma lua delgada como uma navalha De narinas dilatadas com as veias e os ossos numa profunda paz Que as palavras venham através do basalto e das lâminas aceradas do xisto na sonolenta aspereza dos muros Somos parte da trama silenciosa nesta ascensão da vagarosa força fibra a fibra até à alta profundidade vegetal Estamos no cerne do presente respirando a densa vibração de um tranquilo silêncio e somos a expansão imóvel da montanha     ***     Quando o corpo é um sorriso aberto ao sol o alento dança e o coração estremece como um peixe livre Pertencemos a um corpo de claridade nua com a viva delicadeza vegetal com a transparência do desejo na languidez de um leito de lentidão aérea e voluptuosa inocência   Toda a terra se torna um país amoroso e a boca fascinada é concha e água no instante amado As fontes da palavra jorram de um ventre branco ou dos cabelos que navegam entre nuvens e veias Não precisamos procurar a raiz o ane

Boletim Letras 360º #416

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    DO EDITOR   1. Saudações, leitor! Antes de irmos para as notícias, quero compartilhar mais uma das novidades pensadas para este ano de 2021 aqui no blog.   2. Já existe a lista dos novos colunistas selecionados de uma chamada pública realizada no mês de janeiro. A partir de março o Letras conta com três novos autores: André Cupone Gatti; Fábio Roberto Ferreira Barreto; e Marcelo Moraes Caetano.   3. Aproveito a ocasião para reiterar os agradecimentos a todos que se inscreveram e a todos que divulgaram. Sempre saio com a esperança renovada quando entro em contato com o mesmo interesse que o meu quando, numa situação parecida, decidiu trabalhar em prol da atividade leitora nesta selva chamada Brasil.   4. E tenho outra novidade: o colunista e poeta Pedro Belo Clara inicia aqui neste domingo um projeto de divulgação sobre poetas e poesia. “De versos” é uma coluna que será apresentada a cada último domingo do mês e marca o retorno do blog com publicações do tipo.   5. É isso. Obrigado

Do imponderável em Haruki Murakami: algumas considerações sobre Crônica do pássaro de corda

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Por Paula Luersen Haruki Murakami. Foto: Richard Dumas   Começo por citar uma palavra que intermeia repetidas vezes o livro Crônica do pássaro de corda , demarcada sempre em itálico: algo . De início, algo que escapa ao leitor. Mas que, desconfio, seja o que o faça, ao mesmo tempo, altamente envolvido com a trama. Algo perturba. Embora as rotinas da vida sejam apresentadas na narrativa de maneira costumeira e até mesmo trivial, algo está em ação noutra ordem das coisas. Uma ordem bem menos aparente, por certo, mas que também habita o mundo e está em franco desenrolar. Trago aqui um exemplo de como essas perturbações são dadas a ver, em meio a um diálogo: “Sozinha na escuridão, senti que algo que havia dentro de mim passou a crescer. Tive a impressão de que esse algo cresceria cada vez mais dentro do meu corpo, até me partir, como a raiz de uma árvore que cresce demais até quebrar o vaso. O que não se manifestava dentro de mim durante a luz do dia começou a crescer em uma velocidade

Dom Casmurro, de Machado de Assis

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Por Pedro Fernandes Machado de Assis. Fototipia publicada em O Álbum , 1893. “Os instantes do Diabo intercalam-se nos minutos de Deus.”   A vasta, rica e instigante bibliografia sobre Dom Casmurro , bem como a naturalização popular de um romance que, inusitadamente, quase se imiscuiu no imaginário do leitor brasileiro ― é possível que muitos o tenham lido só de ouvir falar sobre o enigma amoroso proposto pelo narrador ― coloca qualquer novo texto sobre este romance em pelo menos um impasse: a fatalidade de nada acrescentar ao que já foi dito. Não é que a obra esteja esgotada passado mais de um século de existência, mas, nesse caso específico, as fronteiras de interpretação estão todas descobertas e algumas determinadas e, assim como a verdade segundo a qual a terra é redonda, inquestionáveis.   Machado de Assis foi um exímio criador. Explorou como ninguém as várias possibilidades de estabelecimento de um enigma, a força motriz de grande parte de seus textos mais conhecidos. Lidou nat

Escrever de ouvido: Clarice Lispector e os romances da escuta, de Marília Librandi

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Por Sérgio Bairon* Está aí... o mergulhar no labirinto de Clarice Lispector por meio do outro-mesmo labirinto, o do ouvido, que cria múltiplas e sinestésicas escutas. Inspirado pela própria Clarice, o livro de Marília Librandi poderia ter inúmeros títulos: de labirinto em labirinto: a escuta; topofilosofia da escuta; a escuta no entre a oralidade e a escrita; ruínas da linguagem como escuta; o caleidoscópio aural da escrita; a escuta dos objetos gritantes... e tantos outros, que revelam uma teoria criada pelo perpassar a literatura, jamais, estacionada nela!   A teoria da escuta desenvolvida por Marília Librandi, inaugura uma profunda interlocução entre crítica literária e filosofia, provocando uma dobra em qualquer sentido que se apresente como significado literal. Quando o que se busca compreender é o que a escuta desvela, o que podemos escrever a respeito desta movediça reticularidade polifônica, nunca poderá ser expresso como sentido estático.  O sentido que se desvela é a ressonân

Cada um em seu lugar

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Por Tiago D. Oliveira   A leitura de um livro de contos começa quase sempre para mim pelo tatear de sua forma. Certa vez alguém me disse que se passasse as páginas tão rapidamente encontraria uma mensagem desenhada nos rodapés a partir de letras e símbolos soltos. Desde então, mais do que um vício, tal prática tornou-se o ritual antes de qualquer livro. Sentir o objeto artístico em sua realização em minhas mãos, explorar as ranhuras, seus poros. O que me concebe também passadas sobre o chão do entendimento de nosso tempo: Não só os modos de questionamento da linguagem artística, mas também para nomear o local das práticas artísticas contemporâneas , como afirma Florencia Garramuño quando pensa a obra de Nuno Ramos.  Eis que faço esse trânsito até os contos de Marcelo F. Lotufo em seu novo livro, Cada um a seu modo , lançado pela Edições Jabuticaba, não somente para focar nas formas nem na linguagem, mas acima de tudo, para sentir o curso das águas, como consegue esculpir Vilma Arêas no

Gyula Krúdy

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  Gyula Krúdy, Ilha Margarida, s/d.   Escritor de excepcional fertilidade criativa, autor de mais de três mil folhetins e contos, sessenta romances e novelas, mais de mil artigos de jornal, quatro peças de teatro e aventuras para jovens publicadas em livros em periódicos e folhetos de Budapeste e arredores. O polígrafo era capaz de trabalhar um dia e uma noite inteiros, chegou a colaborar com até quinze revistas e jornais ao mesmo tempo.   Gourmet sábio, degustador de vinhos valiosos, a figura noturna mais icônica da Budapeste na virada do século, conhecedor de tabernas, amigo de atrizes e prostitutas, habitante de bordéis e hotéis, jogador de cartas e entusiasta das corridas de cavalos, temido adversário dos últimos hussardos e especialista em roupas femininas.   Escritor solitário, líder de uma geração literária à qual não pertencia, fundador da nova prosa húngara. Duas vezes casado, marido infiel com quatro filhos, doente do coração, pulmões e estômago, alcoólatra pobre e esquecid