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Mostrando postagens de 2019

O sujeito preso no absurdo do cotidiano: “A velha” e uma tradução do conto “Sonho”, de Daniil Kharms

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Por Joaquim Serra



Daniil Kharms (1905 – 1942) foi um escritor soviético da primeira metade do século XX, sendo o responsável por introduzir novas facetas do absurdo na literatura russa. Fez parte do grupo de poetas que se autodenominavam Oberiúty (de OBERIUT: Obediniénie Reálnovo Iskústva — Sociedade da Arte Real). Mais tarde a crítica o compararia com Franz Kafka e Eugène Ionesco. Poucos anos depois de escrever A velha, de 1939, foi preso e acabou morrendo de fome na prisão em 1942.
A epígrafe da novela A velha traz uma lacuna que acompanhará o texto todo. As palavras retirada do romance Mistérios, de 1892, escrito por Knut Hamsun – norueguês conhecido por seu Fome (1890) –, dizem: “... e entre eles trava-se o seguinte diálogo” (p. 19). A citação é o chamariz para a primeira cena de A velha e a entrada também do primeiro elemento que servirá de base para toda a narrativa. Ao pedir informação sobre as horas para uma velha, o narrador percebe que seu relógio não tem ponteiros, mas, ao…

A fascinante vida da família Mann: homossexualidade, drogas, exílio e gênio literário

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Por Paula Corroto







A imprensa estadunidense deu a eles o nome da “família incrível”: a família incrível ou impressionante. Liderado pelo patriarca, o escritor Thomas Mann, os Mann deram um ar fresco no país que nos anos 1930 enfrentou a saída da grande crise de 1929 graças às políticas do New Deal de Franklin Roosevelt. No exílio, o pai tornou-se um oponente feroz de Adolf Hitler e do Nacional Socialismo, com várias conferências por todo os Estados Unidos; a filha mais velha, Erika, era uma estrela com seu jogo político de ideias progressistas; o filho mais velho, Klaus, foi reconhecido como o escritor mais talentoso de sua geração e suas provocações libertinas chamavam atenção; a filha mais nova, Elisabeth, seria anos depois uma grande defensora dos oceanos e do meio ambiente. Vestidos por Agnes Ernst Meyer, esposa de Eugene Meyer, proprietário do Washington Post, eles eram considerados a família alemã mais legal da época, quando apenas más notícias vinham da Alemanha. E os Mann, cujo…

Boletim Letras 360º #348

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Amigos leitores do Letras in.verso e re.verso, estas são as notícias que fizeram parte da semana em nossa página no Facebook. Na proximidade do fim de ano, rareiam novidades no mercado editorial brasileiro, o universo para o qual melhor dedicamos interesse de noticiar nos últimos anos. Mas, ainda assim, encontramos excelentes chegadas ou previsões para o ano vindoura. Não deixaremos de atentar.

Segunda-feira, 4 de novembro
Nova edição de um dos textos mais conhecidos de Charles Dickens.
Scrooge é um homem avarento, muquirana, miserável e mão de vaca. Para ele, até mesmo o Natal parece um enorme desperdício de tempo e de dinheiro. Em mais uma lastimável noite natalina, o fantasma de seu sócio Marley aparece para assombrá-lo e lhe fazer um alerta: Scrooge será assombrado por três espíritos, que lhe mostrarão seus erros (e as consequências deles) no Natal passado, presente e futuro. Publicado originalmente em 1843, Um conto de Natal é o clássico com o qual Charles Dickens se tornou o inve…

George Orwell e o apodrecimento dos livros

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Por Javier Borràs


Um livro antigo tem o mau-cheiro de moscas mortas, poeira que raspa a garganta e deixa a língua pastosa. Durante o inverno gelado de Londres, no Booklover's Corner, é preciso carregar quilos de romances protegido com um casaco, cachecol e sem aquecimento, porque senão as janelas embaçam e os clientes não conseguem ver a vitrine. Quando um potencial comprador entra pela porta, Eric Blair deve mostrar um sorriso e, na maioria das vezes, mentir. Ele odeia os clientes comuns, especialmente as irritantes senhoras que procuram presentes para seus netos ou pedantes compradores de edições especiais, aquelas que acariciam a parte de trás do livro que acabaram de comprar e o deixam para sempre em uma estante de livros, onde ele acumula esse espesso purê de pó e cadáveres de insetos que diariamente enfrenta esse livreiro. Durante seu longo turno de trabalho, ele deve encomendar raros ensaios que ninguém virá comprar, rejeitar quilos de romances que um homem com um cheiro ob…

O caminho da cidade, de Natalia Ginzburg

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Por Pedro Fernandes


Este é o primeiro romance de Natalia Ginzburg. La strada che va in città foi publicado em 1942 e depois dele, a escritora italiana só apresentará outro título cinco anos à frente. A distância entre este livro e o próximo não é de um todo significativa, mas, além da informação a título de curiosidade, resulta ao menos pensar em certo rigor da escrita, algo que se confirma com os intervalos sempre maiores no correr da formação de sua bibliografia. Sua obra quando vista do alto e em comparação com outros escritores é breve, embora não guarde uma coesão formal e estrutural. Isso permite ao leitor, a cada novo título, redescobrir uma senda desse universo literário que é, e aqui reside um dos poucos traços que constitui uma unidade estrutural de seu projeto de escrita, fortemente marcado pela cor local, pelas movências da história pessoal e social e italiana ou ainda um interesse pela universalização dos dramas familiares com epicentro muitas vezes em figuras femininas s…

Inventadas conversas: Guimarães Rosa, Manoel de Barros e o folclore

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Por Guilherme Mazzafera


Ao retornar ao Brasil após a experiência alemã (1938-1942) e o período em Bogotá (1942-1944), João Guimarães Rosa dá início às viagens pelo interior do país, passando pelo sertão mineiro em 1945, na chamada “Grande excursão a Minas”, pelo Pantanal em 1947, e, novamente, pelo sertão mineiro (maio) e baiano (junho) em 1952. Destas últimas resultarão dois textos, “Uma estória de amor”, novela de Corpo de baile que tem como personagem central o vaqueiro Manuelzão, e “Pé-duro, chapéu-de-couro”, espécie de ensaio poético sobre um encontro de vaqueiros ocorrido em Caldas do Cipó (BA). A viagem ao Pantanal, no entanto, parece ser a que mais rendeu textos: “Sanga Puytã”, “Com o vaqueiro Mariano”, “Cipango”, “Ao Pantanal”, “Os índios – sua fala” e, possivelmente, teve alguma influência na composição de “Meu tio o Iauaretê”.
Ao contrário da mais que famosa viagem ao sertão realizada em maio de 1952, que contou com a cobertura da imprensa carioca por meio de repórteres d’O…