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Mostrando postagens de 2021

Como J. R. R. Tolkien impediu que W. H. Auden escrevesse um livro sobre ele

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Por Emily Temple   Como muitos de nós, W. H. Auden foi um grande fã de Tolkien em sua época. Em 1954,  o celebrado poeta glorificou   A Sociedade do Anel no The New York Times , dizendo que “Nenhuma ficção que li nos últimos cinco anos me deu prazer maior”. Depois disso, os dois passaram a se corresponder com frequência; Tolkien enviou a Auden cópias antecipadas das próximas duas partes e os dois discutiram a obra de Tolkien  com algum vagar. ( Auden pensava , por exemplo, que Tolkien deveria se livrar do romance entre Aragorn e Arwen, mas no final  o poeta não parecia muito incomodado com isso .) Dez anos mais tarde, no entanto, quando Auden se propôs a escrever um livro sobre Tolkien para a editora cristã Eerdmans, como parte da série “Autores contemporâneos em perspectiva cristã” (cujo escopo incluiria nomes como J.D. Salinger, John Updike, Saul Bellow e C.S. Lewis), Tolkien categoricamente recusou. Enquanto Auden é frequentemente apontado como uma das pessoas que legitimaram a obr

Boletim Letras 360º #427

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DO EDITOR   1. Caro leitor, esta foi uma semana atípica, das que acontecem uma ou duas vezes por ano no calendário de novidades literárias . Se acompanha nossa conta no Facebook, viu isso. 2. Com tanta coisa, ficou decidido dividir as informações entre duas edições do Boletim Letras 360º: o material total resultaria mais de vinte páginas em arquivo Word. Então, a seguir, está parte das notícias apresentadas durante a semana na página do blog no Facebook e o conteúdo das demais seções de leitura criadas em momento posterior à existência deste Boletim. 3. Se a curiosidade não permitir esperar o próximo sábado para o restante das notícias e se estiver na referida rede social, o convite é feito para acompanhar o Letras aqui . A garantia é certa: se gosta de livros, saber sobre livros, não se arrependerá. 4. Reitero os agradecimentos pela companhia do nosso trabalho. Boas leituras! Julio Cortázar. Foto: Ulf Andersen.   LANÇAMENTOS Pela primeira vez no Brasil, todos os contos do autor arge

José Donoso e o pássaro que devorou suas entranhas

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Por Aurora Villaseñor José Donoso. Foto: Miguel Sayago. Nem a vocação para a medicina do pai e dos irmãos, nem a aplicação à lei dos avós advogados conseguiram oferecer a José Donoso um interesse genuíno pelas pessoas. Em entrevista concedida em 1989, aos 65 anos, declarou: “Não de estar comprometido, confesso, mas não sou um homem político. A polis para mim é outra coisa, é um interesse. Sou muito mais egoísta do que tudo isso, muito mais individual, muito mais focado em mim mesmo. Estou muito mais interessado nas minhas doenças do que nas doenças da sociedade”, disse o escritor.   A intensidade com que parava de escrever era paralela a um sofrimento de úlceras que o faziam cair de cama, e que o tornaram um doente focado em seu próprio desconforto. Mas muitos anos antes de somatizar os contratempos da escrita, o chileno que fez parte do Boom latino-americano foi um inconformista que deixou sua cidade natal Santiago e fugiu para Magalhães, onde chegou resignado por não poder embarcar e

Apague a luz se for chorar, de Fabiane Guimarães

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Por Pedro Fernandes   “Nós te viciamos em cuidar e, quando pareceu que seu coração estava irremediavelmente partido, o melhor a fazer foi deixar que você descobrisse outra modalidade de carinho. O cuidado consigo mesma.” A passagem está numa carta de despedida escrita pelos pais de Cecília só descoberta tempos mais tarde depois de a filha se envolver num rol de situações em parte fabricado por uma consciência perturbada justamente porque se encontra, pela primeira vez, lançada à própria sorte para o mundo.   Fabiane Guimarães soma-se, assim, a uma extensa lista de escritores preocupados em discorrer os traumas de uma geração cujas estruturas individuais são extremamente frágeis porque educadas pela força da superproteção da família. Extensão de um drama burguês com marcas que se estendem para fora de suas redomas, afinal, estamos condenados, por mais que nos esforcemos negar, ao coletivo, porque somos animais sociais, diferentes em tudo, por exemplo, dos cães que entram e saem da narr

No coração do mar: a história por trás de “Moby Dick”

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Por María Teresa Hernández Ainda é dia e o primeiro oficial passeia pelo convés do navio: um jovem e bonito que mais do que um arpoador remete a um herói de ação. Que essas baleias temam agora que o ambicioso Owen Chase (Chris Hemsworth) as tem na mira, porque seu mergulho gracioso e cadenciado será transformado em barris de gordura e óleo para o comércio. No coração do mar descreve a história por trás de Moby Dick (1851), mas não é baseado no romance de Herman Melville. Ao contrário, o roteiro é uma adaptação de uma obra que o estadunidense Nathaniel Philbrick publicou em 2000 para divulgar os acontecimentos que resultaram num capitão obcecado pelo assassinato de uma baleia branca: no início do século XIX, um baleeiro de onde partiu Nantucket, Massachusetts, e foi atacado por um cachalote enorme alguns meses depois.   Este poderia ser o filme perfeito, não fosse pelo fato de que o mais desejável em um filme que retrata Moby Dick — uma personagem tão desgastada como Romeu e Julieta o

Escritoras do Sul selvagem

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Por Bárbara Ayuso © Jesse McCloskey Os pântanos. Os trailer parks . As mansões do algodão. Os banjos. As bocas podres. As sílabas rastejando como lama. O white trash , a escória racista. Crianças sujas amontoadas em pick-ups , peles de animais selvagens secando ao sol, macacões jeans e bonés engordurados. Rifles, sucata enferrujada, destilarias em celeiros. Bandeiras confederadas. Rednecks , senhoras do sul, suadas vendedoras de bíblias. Tudo imundo que enxameia do Atlântico ao Golfo do México: o Sul, o gêmeo do malvado dos Estados Unidos. Fascinante e repulsivo ao mesmo tempo. Que lindo o Sul quando fica feio, quanto dura da peste até a derrota. Não existe lei que o dobre, mas é assim: decadência, quanto mais furiosa, mais bela.   Com tudo isso vocês devem ter pensado em William Faulkner, é claro. Na calamidade de O som e a fúria , na obscuridade do Santuário . Ou talvez no velho Sul de Tennessee Williams, na aspereza do Truman Capote menos novaiorquino, no empoeirado Cormac McCarthy,