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Mostrando postagens de 2021

O feiticeiro, de Xavier Marques

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Por Pedro Fernandes   É recorrente entre os leitores um argumento que, talvez por se repetir com alguma frequência, adquiriu um estatuto de verdade inquestionável e todos nós, alguma vez, teremos nos utilizado dele: é o de que tempo é sempre o melhor indicativo sobre a permanência de uma grande obra literária. Sim, todos os livros que lemos como clássicos da literatura resistiram às forças de Cronos. Mas não existem quaisquer garantias, mesmo se continuarmos a existir por tempo posterior igual ao que alcançamos, que estas obras permaneçam lembradas e lidas com o fervor notável na nossa contemporaneidade.   Da mesma maneira que a permanência de um livro não se deve exclusivamente ao tempo, parece limitado entender os esquecimentos como um acontecimento proposital, motivado em exclusivo pelas artimanhas das ideologias dominantes. Nesse caso, a tendência tem demonstrado o seguinte: as obras filiadas estreitamente aos motivos ideológicos correntes estão entre as primeiras fadadas ao esque

8 ½, O sonho de Bartleby

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Por Miguel Faus   Não tenho nada a dizer… mas mesmo assim tenho que dizer. (Guido Anselmo, 8 ½ )   Robert Walser sabia escrever que não se pode escrever também é escrever. (Enrique Vila-Matas, Bartleby e companhia ) Frame de 8 1/2 , de Frederico Fellini.   Em 1962, após o sucesso esmagador de La dolce vita , Fellini estava prestes a se calar para sempre e se juntar a Bartleby e companhia. Sabe, aqueles artistas que um dia param de criar e abraçam o modo de vida do escriturário do conto de Melville que sempre, ao se deparar com qualquer proposta, prefere não a fazer. Convertido já num diretor aclamado em todo o mundo, e com um cheque em branco para filmar o que quisesse, o cineasta de Rimini passou por uma terrível crise criativa e se viu, da noite para o dia, sem nada para dizer. A pressão do público, dos jornalistas, dos produtores e, acima de tudo, a pressão sobre si mesmo não parava de aumentar… e Fellini estava à beira do colapso. Mas, quando estava para desistir, aconteceu uma daq

Dante nas artes plásticas

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    Por Felipe Jiménez   A Biblioteca Apostólica Vaticana de Roma e o Museu de Impressões e Desenhos de Berlim guardam um verdadeiro tesouro do Renascimento. Foi necessária a intervenção de três gigantes de seu tempo para que esta obra-prima viesse à luz: Dante Alighieri (Florença, 1265-Ravena, 1321), autor de A divina comédia , obra fundacional da literatura em língua italiana; Lorenzo di Pierfrancesco de Médici (Florença, 1463-1503), mecenas e grande protetor dos artistas; e Sandro Botticelli (Florença, 1445-1503), pintor de algumas das obras mais emblemáticas do Renascimento e um dos criadores que mais contribuíram para o esplendor de Florença. Para a concepção desta obra, Dante contribuiu com a inspiração temática; Lorenzo de Médici, com o convencimento sobre a necessidade de representar o poema e os meios para isso; e Botticelli que colocou todo seu gênio criador a serviço de um projeto que era um verdadeiro desafio.   O artista imortalizaria a beleza em criações como O nascimento

Por que somos dantescos?

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Por José María Mico Dante e Virgílio caminham entre os sepulcros abertos que findam o dia do juízo final. Ilustração de Sandro Botticelli para  A divina comédia , 1480-1495. Canto X, do “Inferno”.   Há pouco mais de um ano, as imagens dos caixões chegando em grande quantidade ao Palácio de Gelo de Madrid tornaram inevitável a memória de uma das ilustrações que Sandro Botticelli preparou para o seu inacabado mas impressionante projeto iconográfico da Comédia . O que Dante e Virgílio veem ao cruzar as muralhas da capital do inferno e entrar no sexto círculo é uma grande extensão de tumbas, e o autor a compara as das necrópoles de Arles e de Pula, famosa e relativamente próxima de seus primeiros leitores.   Em tempos de incerteza, as fotos de Madrid pareciam uma performance pós-moderna do juízo final e eram, à sua maneira, uma citação de Dante. Porque a Comédia é uma obra medieval carregada de futuro. Nos sete séculos que nos separam da morte de seu autor, foi copiada, comentada, impress

Boletim Letras 360º #445

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    DO EDITOR   1. Caro leitor, em nome do Letras reitero os agradecimentos pelas ajudas enviadas durante todo o período de nossa campanha de arrecadação dos custos de pagamento do domínio e hospedagem. Graças ao empenho de todos — de uma simples partilha das chamadas de divulgação nas redes ao menor valor doado, de uma aquisição no nosso bazar à doação de livros — conseguimos a maior parte do que precisávamos.   2. Para os próximos dias, sairá a divulgação do prometido sorteio entre os nossos apoiadores. As possibilidades de ajudas ficarão permanentes; em breve, também saberão melhor sobre. Por enquanto, para saber mais sobre como ajudar pode ir  aqui no Facebook   ou   aqui no  Instagram .  3. Eis as notícias que passaram pela página do blog no Facebook durante a semana e as demais dicas nas outras seções deste Boletim — com especial interesse aos sete séculos sobre a morte de Dante Alighieri marcados no último dia 14 de setembro. Muito obrigado pela companhia. Boas leituras! Dante A