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Mostrando postagens de junho, 2012

Recriar o “Eu”, de Augusto dos Anjos

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Por Pedro Fernandes Fac-símile com opinião de Carlos Drummond de Andrade acerca do livro Eu , de Augusto dos Anjos. A imagem está disponível no tumblr do professor Moreno Barros, aqui . “ Li o  Eu  na adolescência e foi como se levasse um soco na cara. Jamais eu vira antes, engastadas em decassílabos, palavras estranhas como simbiose, mônada, metafisicismo, fenomênica, quimiotaxia, zooplasma, intracefálica... E elas funcionavam bem nos versos! Ao espanto sucedeu intensa curiosidade. Quis ler mais esse poeta diferente dos clássicos, dos românticos, dos parnasianos, dos simbolistas, de todos os poetas que eu conhecia. A leitura do Eu foi para mim uma aventura milionária. Enriqueceu minha noção de poesia. Vi como se pode fazer lirismo com dramaticidade permanente, que se grava para sempre na memória do leitor. Augusto de Anjos continua sendo o grande caso singular da poesia brasileira. ” O depoimento é de Carlos Drummond de Andrade para o livro de Augusto dos Anjos. Eu é uma obra s

Da arte da escrita para a da pintura

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José Saramago tem um romance intitulado Manual de pintura e caligrafia . Ao redor desse texto já se contaram algumas anedotas, uma até pelo próprio escritor português, quando disse ter tomado conhecimento de um professor de artes plásticas da África que não hesitou em comprar uma leva significativa de livros para trabalhar junto com sua turma de pintura por se deixar levar de primeira pelo o que o título dizia. O mesmo já aconteceu, por exemplo, com O Evangelho segundo Jesus Cristo . Alguém terá comprado o livro por acreditar que ali estivesse mais um evangelho perdido que fora só agora encontrado ou mesmo que ali estivesse um livro de autoajuda. Mas, minha ideia de recuperar esse texto primeiro do Prêmio Nobel de Literatura é para recuperar o enredo ali presente: um pintor de quadros, um dos últimos da sua espécie decide se aventurar pelo trajeto da escrita. E, agora, quando acontece o contrário? Quando escritores famosos decidem trocar o lápis pelo pincel? Que resultado terá? O blog

Mais um evento sobre Jorge Amado

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Jorge Amado e Zélia Gattai. Sabemos todos os da literatura que Jorge Amado está sendo discutido numa rede de eventos acadêmicos ao redor do mundo. Divulguei por aqui ainda no ano passado um colóquio que se realizaria em Paris; depois fiquei sabendo de eventos na Espanha, Portugal e na Inglaterra. E agora dei com essa iniciativa d o Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e o Centro de I nvestigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em parceria com o Museu do Neo-Realismo (Vila Franca de Xira),   a Universidade Estadual de Santa Cruz (Ilhéus-Brasil) e a Academia Brasileira de Letras.  Trata-se do Colóquio Internacional 100 anos de Jorge Amado.  O evento ocorrerá em duas sessões, a primeira terá como tema: História, Literatura e Cultura, será realizada nas dependências

Bruno Schulz

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Bruno Schulz em registro fotográfico de 1935. Pela primeira vez a obra completa de Bruno Schulz é traduzida e publicada no Brasil pelo professor Henryk Siewierski e pela Cosac Naify. Nos anos 1990, a Editora Imago já havia traduzido e publicado alguns contos, “Lojas de canela”, de 1934, e “Sanatório sob o signo de clepsidra”, de 1937. A edição de agora inclui mais quatro contos inéditos. O livro vem com ilustrações do próprio escritor, que é autor também de uma considerável obra do tipo, além de uma apresentação escrita pelo poeta e ensaísta Czeslaw Milosz (Prêmio Nobel de Literatura de 1980), um posfácio do tradutor com sugestões de leitura e trechos dos diários de Witold Gombrowicz, amigo de Bruno Schulz e que junto com ele e Stanislaw Witkiewicz, constituíram o grupo que ficou conhecido como “os três mosqueteiros” da prosa polonesa de vanguarda. A obra que ora sai publicada não constitui nem metade daquilo que Schulz produziu em vida. Por exemplo, além dos desenhos divididos e

Casa Lena Gal

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Por Pedro Fernandes © Lena Gal. A artista ganha um espaço que primará pela preservação do seu trabalho. O ato não poderia passar despercebido. Recebi a notificação em minha caixa de e-mails e divulgo por aqui com grande satisfação. A artista plástica Lena Gal, de Fenais da Ajuda, concelho Ribeira Grande, Açores, Portugal, é, como se diz por esses lados, uma artista de mão cheia; ela foi quem gentilmente cedeu um de seus trabalhos para a ilustração da capa de Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago , meu livro que deve sair em breve. E só deixo aguçada a curiosidade: a arte desenvolvida pelo capista que preserva em sua integridade o trabalho de Lena ficou muito bacana, mas só devo postar por aqui numa ocasião, mais oportuna. A notificação que recebi de Lena é que agora, dia 30 de junho de 2012, pelas 19h30, ela abre uma exposição que inaugura a Casa Lena Gal , em Ribeira Grande. A casa, que abrirá junto ao Museu da Emigração abrigará um conjunto d

Os 60 anos de 10 dias de uma viagem que deu novos rumos à Literatura Brasileira

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Por Pedro Fernandes Já até ensaiei por aqui  os passos de curta leitura sobre literatura e viagem. Ambas têm uma proximidade bastante significativa. Não apenas se entendermos que todo livro é, por natureza, uma viagem, mas se dermos conta de que muitos livros nasceram da experiência de uma.  O caso mais expressivo, lembrarão uns, é do escritor Jack Kerouac, quem, enquanto viajava pelo seu país, os Estados Unidos, ia dando forma à produção de seu romance mais famoso, On the road .  Eu lembrarei aqui sobre José Saramago, que contratado para escrever um guia sobre o seu país, escreve Viagem a Portugal . E não será exagero dizer que tenha sido o livro e a viagem empreendida para sua composição o roteiro para elaboração de suas primeiras obras: Levantado do chão , o livro publicado no ano do Viagem é resultado da sua estadia entre os camponeses do Alentejo, Memorial do convento de uma de suas idas a Mafra, passagens de O ano da morte de Ricardo Reis de sua ida a Fátima, e os exemplo

Uma nova adaptação para Anna Kariênina, de Tolstói

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Por Pedro Fernandes Uma das primeira cenas da nova adaptação para o cinema de Anna Kariênina , de Tolstói. Foto: Omelete.com Fora Lukács que leu Tolstói como o símbolo maior na arte de narrar, talvez tenhamos nos sentido intrigantemente seduzidos pelo movimento das personagens no romance russo. Eu mesmo quando me pus a ler Crime e castigo , do Dostoiévski, senti-me compartilhar de uma intimidade tão profunda com Raskolnikov que o momento da leitura dissipou-se ao ponto de me confundir entre os movimentos e obliterações psicológicas da personagem.  A pergunta é: quem não terá assim se sentido um dia lendo um clássico russo? Qual outra literatura terá conseguido capturar melhor o feitiço de realizar plenamente o estatuto  da verossimilhança? Quem já se debruçou sobre Anna Kariênina , de Tolstói, também se sentiu assim; tenho comigo depoimentos fidedignos de uma professora de literatura. De modo que, não será demais afirmar que, enquanto você não ler os russos não terá lido gr

Nelson Rodrigues

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"Não sou pornográfico. Pelo contrário, me chamo de moralista. O único lugar onde o homem sofre e paga pelos pecados é em minhas peças." Assim se pronunciou Nelson Rodrigues. Mas, o epíteto de anjo pornográfico não se desfez e chegou mesmo a intitular uma biografia escrita em 1992 por Ruy Castro. Hoje, o escritor integra a galeria de um dos mais importantes dramaturgos que a literatura brasileira já produziu, se não for engano e exagero, o único. O drama da existência humana enxergado pelo prisma da morbidez foi o que mais explorou, o que mais o destaca nesse cenário e, talvez por isso, aquele que melhor viu a sociedade por aquilo que ela é: um bem moldado arcabouço que esconde atrás de si aquilo que realmente seus habitantes são. No mês de agosto deste 2012 marca o primeiro centenário de Nelson que nasceu no Recife; ocupa ainda o lugar de um escritor por ser descoberto, uma vez que, muito tardiamente foi que se gestou um público que vê no seu trabalho uma riqueza

Ulisses, de James Joyce ilustrado por Henri Matisse

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Já que o assunto por aqui hoje é ilustração, anote mais essa: o Bloomsday, ou Dia de Bloom, o até então feriado literário mais importante do mundo, já passou, mas continua rendendo. Insuperável esse James Joyce. Agora, vem a lume um conjunto dos desenhos feitos por Henri Matisse em nos anos 1930.  Por esse época, George Macy, fundador do clube Limited Editons, ofereceu a encomenda sob a quantia de cinco mil dólares para que o artista plástico francês criasse gravuras para uma edição especial do clássico de Joyce. Ulisses aparece em várias publicações esparsas, já motivos de censura nos Estados Unidos por isso, entre 1918 e 1920; o romance, como se sabe, só ganha a primeira edição em 1922 pela francesa Shakespeare & Co. Enquanto isso, na terra do Tio Sam, o livro permanecerá proibido até 1934. Sabe-se que Matisse não chegou a ler o livro e os temas que compôs foram com base no poema épico de Homero, a Odisseia , poema, aliás, admitido pelo próprio Joyce como matéria para composiç

O rico trabalho de Matt Kish

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Por Pedro Fernandes Não é tarefa das mais fáceis. Gustave Doré, por exemplo, que começou a desenhar ainda aos treze anos e aos catorze publicou uma edição para Os trabalhos de Hércules , levou pelo menos sete anos para compor o primeiro conjunto de  ilustrações para A divina comédia , de Dante. Deverá ter levado tempo maior ou igual para fazer o mesmo com a Bíblia ou com Dom Quixote , de Cervantes, dois outros livros tão portentosos quando o de Dante. Ilustrar todo o Moby Dick , de Herman Meville, eis o primeiro desafio autoimposto por Matt Kish. Já muito distante de Doré em tempo e técnicas - o francês usava o desenho a lápis e viveu entre 1832 e 1883 - Matt Kish, um sujeito que não é artista plástico e é de 1969, deu-se ao desafio de ilustrar página a página do Moby Dick . E tudo por paixão pelo romance de Herman Melville. O trabalho levou aproximadamente dois anos e foi publicado em livro impresso.  Mas quem não tem acesso a este material pode ir ao blog de Matt que e

Eu nasci assim, eu cresci assim

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Jorge Amado trabalhando no romance  Gabriela, cravo e canela  enquanto Carlos Scliar faz seu retrato. Fonte: Cia das Letras Não foi o primeiro romance de Jorge Amado, mas é talvez o mais conhecido entre os leitores. Na verdade, nem sempre os primeiros livros são os que fazem sucesso. Foi sim o primeiro livro escrito depois que o romancista deixou o Partido Comunista e é tido pela crítica como um texto que inaugura  uma nova fase na sua obra.  Não é mais o conteúdo abertamente político que se lê nos primeiros romances o que se encontra agora, mas temas voltados à formação racial brasileira, o universo dos jagunços, coronéis, prostitutas e trambiqueiros, todos ansiando progressos numa região que oferece a eles esse sentido. Está no centro a sensualidade e o erotismo das personagens femininas, a folia, o sexo fácil. O espaço privilegiado para a trama não é mais o urbano de Salvador, mas a região de Ilhéus, que com o auge do cacau, tem uma intensa vida noturna entre bares e

As Novas cartas portuguesas 40 anos depois

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As três Marias. Juntas elas revolucionaram o estatuto do texto literário e do ser-mulher. Nos finais da década de 1960, Eugénio de Andrade publicou em edição bilingue sob o título de Cartas portuguesas , versão para Lettres Portugaises , publicado anonimamente por Claude Barbin, em 1669, e apresentado também como uma tradução, cinco cartas de amor de Mariana Alcoforado a um oficial francês. A jovem era freira e estava enclausurada no convento de Beja. Lisboa, 1971, Maria Isabel Barreno, já autora de Os outros legítimos superiores , Maria Teresa Horta , Minha senhora de mim , e Maria Velho Costa, Maina Mendes , decidiram escrever um livro a seis mãos. Como "espelho" as autoras tomaram a tradução de Eugénio de Andrade e escrevem Novas cartas portuguesas . As assinaturas das cartas nunca foram reveladas publicamente e a figura de Mariana tinha uma longa representação simbólica para o novo livro. Mulher abandonada, submissa, tomada por um discurso de paixão avassa

Pelos cem anos da poesia de Augusto dos Anjos

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Por Pedro Fernandes Capa da 1ª edição de  Eu , de Augusto dos Anjos. Em 2012, a obra fecha um século de existência. A palavra para o poeta é material a ser instrumentalizado para a fundação de universos próprios – universos que correm ao lado do mundo comum, o enformam, conformam e deformam. Por isso, a palavra é sempre móvel e viva, ainda que pareça matéria inerte; inesgotável, ainda que pareça ter seu sentido cerrado num conceito em estado de dicionário; sempre livre, ainda que pareça matéria presa no papel. No caso de Augusto dos Anjos, a palavra adquire mobilidade, vivacidade, inesgotabilidade e liberdade da condição de oralidade e obtém a encenação e um tom vocal muito próprio. Não há como ler Eu – livro-enigma que fecha um século neste 2012 – sem que tenhamos na nossa frente uma boca deslocada do corpo que enuncia e encena a beleza verborrágica da palavra, toda ela pulsante e refigurada nos seus versos. Apropriar-se da leitura da poesia do paraibano é primeiro um exercício

Memória de elefante, de António Lobo Antunes

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Por Pedro Fernandes Memória de elefante é o primeiro romance escrito por António Lobo Antunes ; foi publicado em 1979, depois de voltar de uma permanência na Guerra Colonial na África, experiência que irá perpassar como material temático boa parte da sua obra. É o primeiro romance de uma trilogia que continua com Os cus de Judas e Conhecimento do inferno ; os três, talvez se configurem como os mais importantes da carreira, não por razões estéticas, certamente, porque Lobo Antunes possui outros mais bem acabados romances (entre nós, é um autor ainda por se conhecer), mas esses três livros dizem a que veio o médico meter-se com a escrita. Os três são sucessos de crítica e inauguram em Portugal uma visão nada romântica da desenhada entre os daquele país sobre o que foram os anos de ocupação portuguesa nos territórios africanos. Não que estejam esses romances reduzidos a esse propósito, mas é o tema um dos mais caros à ficção contemporânea que se forma no pós-74.  O romance d

Branca de Neve e o caçador, de Rupert Sanders

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Por Pedro Fernandes Charlize Theron em cena como a rainha má. Seu papel convence e é responsável pelos melhores momentos de Branca de neve e o caçador . É lógico que nunca haveria de passar pela cabeça dos irmãos Grimm, os que primeiro registraram o conto da tradição oral europeia do século XIX, que a história pudesse se manter tão atual e capaz ainda de duas ressignificações como as que recebeu neste ano. A de agora, infinitamente superior à anterior, que trouxe a rainha má sob a bela interpretação de Julia Roberts e que comentei aqui . Também é a versão superior às que foram feitas por exemplo pelo Walt Disney, que, méritos à parte, saiu adocicando tudo quanto foi narrativa vista pelos olhos inocentes da cultura pop. E que não nos esqueçamos que as narrativas coletadas pelos Grimm nunca tiveram esse tom desenhado depois. O filme de Rupert Sanders parece não ter esquecido disso e conseguiu colocar na tela uma Branca de Neve com um tom muito próximo da violência psic