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Mostrando postagens de julho, 2023

Konstantinos Kaváfis: “apenas por essas coisas me adivinharão”

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Por Hector Iván González Konstantinos Kaváfis. Foto: Arquivo Fundação Onassis.   Nos 160 anos do seu nascimento e 90 anos da sua morte, a figura do escritor Konstantinos Kaváfis (Alexandria, Egito, 1863-idem, 1933) vem ganhando relevância por uma obra que condensa individualidade, reflexão filosófica e o homoerotismo. Como Franz Kafka ou Fernando Pessoa, o alexandrino desenvolveu sua poesia quase anônimo e sem ser reconhecido em vida. Chegou a publicar em revistas como Nea Zoí e Grámmata , bem como em alguns zines. Seu primeiro livro apareceu quando ele já tinha mais de quarenta anos (1904) e consistia em apenas catorze poemas; a este sucedeu uma segunda edição à qual se acrescentaram mais sete peças, em 1910. 1   Membro de uma família economicamente desfavorecida, o caçula de seis filhos ganhava o pão com um modesto cargo no Departamento de Águas do Ministério de Obras Públicas. Apesar de ter tido uma educação privilegiada — falava italiano, francês e inglês perfeitamente —, não alca

Sete poemas de Mary Oliver em “Evidência” (2009)

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    Por Pedro Belo Clara (Seleção e versões)     Mary Oliver. Foto: Molly Malone Cook   COM UM AGRADECIMENTO AO TICO-TICO, CUJA VOZ É TÃO DELICADA E HUMILDE   Não vivo feliz ou confortável com a esperteza dos nossos tempos. As conversas giram em torno de computadores, as notícias são só sobre bombas e sangue. Esta manhã, nos campos frescos, vim a descobrir um ninho escondido. Continha quatro ovos malhados, quentes. Toquei-os. Então, fui-me embora, delicadamente, sentindo algo mais extraordinário que toda a electricidade de Nova Iorque.           UMA LIÇÃO DE JAMES WRIGHT ¹   Se James Wright pôde colocar no seu livro de poemas uma página em branco   dedicada “Ao Cavalo David Que Comeu Um Dos Meus Poemas”, estou pronta a segui-lo ao longo   do doce caminho que abriu através da aridez e sugerir que agora te sentes   sossegadamente em algum maravilhoso lugar selvagem, e escutes o silêncio.   Digo eu ser isto, também, um poema.       QUASE UMA CONVERSA     Ainda não conversei, de facto, co

Boletim Letras 360º #542

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DO EDITOR   1. Olá, leitores! Venho lembrá-los que estão abertas as inscrições desde o dia 27 de julho para o próximo sorteio a ocorrer em 12 de agosto entre os apoiadores do Letras.     2. Foi em 2022 que com dica e ajuda de vocês qu e fizemos um clube de apoios com a meta de arrecadar fundos para o custeio com as despesas de domínio e hospedagem online do blog.   3. Sortearemos um leitor em agosto para levar dois livros: a nova edição em capa dura de Memórias póstumas de Brás Cubas publicada pela editora Zahar e Passeio ao farol , a nova tradução de um dos principais romances de Virginia Woolf publicada pelo selo Penguin/ Companha das Letras.   4. Para participar é simples. Envia R$20 via PIX e depois o comprovante para blogletras@yahoo.com.br (a nossa chave do PIX é este mesmo e-mail). 5. É isso: fica o convite. Agradecemos a todos que, direta ou indiretamente, têm feito esse caminho conosco. Se quiser saber mais detalhes, podem entrar nesta página ou em contato conosco por quais

A bibliofilia e o gênero

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Por Yolanda Morató Ilustração: Edouard John Mentha Lesendes   Nos últimos anos surgiu interesse em publicar artigos, livros e entradas para blogs sobre bibliofilia e livrarias (alguns deles até premiados) e agora o leitor dispõe de várias propostas para se documentar sobre o tema sem sair do sofá. Certamente se falo de textos que reúnem informações de livrarias como a Strand em Nova York, a Shakespeare and Company em Paris, La Gran Pulpería na Venezuela, Faulkner House Books em Nova Orleans ou qualquer uma das que adornam ou adornaram Cecil Court em Londres, alguns já terão na cabeça este ou aquele volume sobre o lugar que as livrarias ocupam no imaginário coletivo. Mas provavelmente não estamos pensando nos mesmos referentes. No meu caso, é fundamental falar de Un mundo de libros , uma antologia de ensaios publicada pela Associação de Amigos do Livro Antigo de Sevilha e pela Secretaria de Publicações da Universidade de Sevilha em 2010. Talvez por ser um dos primeiros livros deste sécu

Samuel Beckett em duas novelas

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Por Renildo Rene Samuel Beckett. Foto:  Bruce Davidson   Figura incontornável da literatura do século XX, o dramaturgo desenvolveu uma série de trabalhos que proliferam um estilo refinado da sua linguagem, e muitos com um caráter experimental, solidificando seu nome no rol de autores em constante trânsito de gêneros.   Mesmo premiado com o Nobel de Literatura em 1969 — resultado da sua recepção crítica singular tanto no teatro como na prosa — e com uma popularização ainda maior de sua produção artística, permaneceu nele a sensibilidade de decifrar o homem moderno pelas entrelinhas das poucas palavras. Porém, diferentemente de como passou a se portar na mídia se distanciando das perguntas, boa parte de sua escrita requer o questionamento como parte da leitura.   Duas novelas reunidas pela editora Martins Fontes, sob organização de Vadim Nikitin e tradução de Eloisa Ribeiro, proporcionam esse apuramento para uma perspectiva de interpretação de personagens, espaços e temas que nunca parec