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Mostrando postagens de Junho, 2021

Boletim Letras 360º #431

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DO EDITOR   Caro leitor, se você encontrou esta publicação pela primeira vez, sinta-se em casa. Esta é uma coluna fixa, editada a cada sábado e até quando for possível, com o interesse de reunir informações copiadas na página do Letras no Facebook — ou não. Isso começou há 431 semanas, é novinha em relação a um blog que se encaminha para o baile de quinze anos. À medida que passa o tempo se criou outras seções — com recomendações variadas, de livros a leituras aos arredores dos interesses do blog. Obrigado pela companhia! José Saramago.  LANÇAMENTOS Os percursos de Alberto Manguel por sua própria biblioteca .   Grande declaração de amor aos livros e à leitura, Encaixotando minha biblioteca fala sobre a importância dos livros em nossa vida e como são fundamentais para o desenvolvimento da sociedade. No verão de 2015, Alberto Manguel se preparou para mais uma mudança: ele sairia de sua casa medieval no Loire, na França, e passaria a morar em um apartamento em Nova York. Sua biblioteca

Os encontros como desertos férteis

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Por Marcelo Moraes Caetano Roberto Crema. Foto: Arquivo do escritor. Contam os sábios orientais que é possível sentir o gosto do mel no interior de uma garrafa, mesmo que ela esteja vedada com uma rolha ou algo semelhante. Para isto, basta vê-la, senti-la, tocá-la... eu ousaria dizer: escutá-la. A primeira característica notável de O poder do encontro: origem do cuidado  (São Paulo: Tumiak Produções, 2017), do psicólogo e antropólogo Roberto Crema, é exatamente a que os sábios orientais indicam. Ao percebermos o objeto livro que contém os sinceríssimos relatos de viagem do velho ao novo paradigma, já se instila em nosso interior um mel que, mais do que simplesmente doce, é também capaz de nos retirar do estado de estagnantes para o ponto de mutação de mutantes... e daí para além. A obra tem, por assim dizer, um poder semiótico que se doa generosamente, como o mestre que aparece quando o discípulo está pronto, e como o discípulo que aparece quando o mestre está pronto. Traz um poder ca

Ninguém precisa acreditar em mim, de Juan Pablo Villalobos

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Por Pedro Fernandes Juan Pablo Villalobos. Foto: Metal Magazine .   Muito se repetiu sobre o romance enquanto enquanto um rico repositório das mais variadas expressões da linguagem. Uma parte dessa complexificação do romanesco se amplia com acentuado vigor a partir do século XX, muito embora, os resultados nem sempre sejam satisfatórios. Depois do sopro modernista, o que mais encontramos são tentativas fracassadas, pouco convincentes ou insatisfatórias dos usos da forma. É válido repetir que não é suficiente ao escritor o bom exercício da técnica; é tão ou mais importante certo talento para oferecer naturalidade ao andamento da narrativa, processo que inclui, o trato da verossimilhança e o manejo da linguagem. Essas qualidades sempre raras se encontram na literatura de Juan Pablo Villalobos.   Este Ninguém precisa acreditar em mim se organiza por dois fios narrativos principais — um deles com transição entre o registro despretensioso de eventos e circunstâncias ao seu tratamento roma

Entre o homem e o pensamento, o verso

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Por Tiago D. Oliveira Nos poemas de Laura Riding há um exercício contínuo do pensamento, a reflexão como versos na tentativa de entendimento da natureza humana. Em seu trabalho / linguagem sua obra resgata em cada poema uma ideia de alcance ou dimensão traduzida pela vida. Em Mindscapes , primeira compilação de poemas da autora no Brasil, editada pela Iluminuras, percebe-se uma investigação dos sentidos indizíveis que são capturados pela poesia e colocados em ressignificação pela invasão que acomete na leitura, são versos que desenham um mapa, só que de dentro para fora. É como se a partir da linguagem a poesia apresentasse maturações e definisse uma certa incomplexidade para as horas. Uma palavra importante para o entendimento dos versos de Riding é “verdade”, esse composto de infinitudes. A poeta modernista americana investiu sua fé em tatear o verso que representasse a verdade e acabou chegando em uma direção que marcou um tempo, dizia que “a verdade começa onde a poesia termina”, j

Tudo sobre o golem

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Por Juan Pablo Bertazza O golem. Ilustração de Hugo Steiner-Prag para o livro de Gustav Meyrink.   Pensemos numa criatura feita de palavras — graças aos poderes místicos da Cabala Judaica e, principalmente, do Sêfer Yetzirá ou Livro da Criação — incapaz de falar, feita com o objetivo de proteger o gueto judeu, mas que acaba se tornando uma ameaça real.   Diferente de alguns parentes um pouco mais midiáticos como Frankenstein ou Drácula, o golem mantém na indústria e na história cultural um certo halo não tanto de mistério, mas de escabrosa raridade, inexpugnável e hermética. Antes do monstro de Mary Shelley, o golem estava à frente da ideia moderna do autômato; sua grande monstruosidade radica no mesmo princípio: ser um homem criado pelo homem.   A palavra golem , que vem do hebraico, aparece apenas uma vez na Bíblia, no versículo 16 do Salmo 139, e significa algo “inacabado” ou “em formação”. De acordo com uma tradição oral, o primeiro golem da história foi criado por ninguém menos qu