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Mostrando postagens de Junho, 2021

Duplo Ford

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Por Guillermo Cabrera Infante Ford Madox Ford. Foto: E. O. Hoppé.   Talvez Ford Madox Ford não concordasse com seu pseudônimo. Não foi, como Mark Twain, a adoção de uma medida do rio Mississippi ou, como Joseph Conrad, uma cortesia ao leitor inglês. O nome de Ford sofreu variações significativas por ser neto de Ford Madox Brown, famoso pintor da época, e suas relações familiares incluíam outros pré-rafaelitas, como o sobrinho de William Rossetti, irmão de Dante Gabriel e Cristina, e seu nome verdadeiro era Ford Hermann Hueffer, até que durante a Primeira Guerra ele o mudou para o sonoro nome repetido de Ford Madox Ford. Ele também era um católico convertido que mantinha relações mais ou menos legais com várias vitorianas avançadas, como Violet Hunt. Tanto sua conversão ao catolicismo quanto sua mudança de nome foram tardias, entre outras coisas porque seu germanismo não lhe fez bem durante a guerra, à qual ingressou muito tarde.   Além disso, foi sua sorte — ou azar — ter colaborado co

As ruínas em movimento: As Naus e o espólio de uma utopia

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Por André Cupone Gatti António Lobo Antunes. Foto: Leonardo Cendamo.   I. O imperialismo português dos séculos XIX e XX foi alimentado por certa ideia ufanista de um Portugal áureo, por uma dimensão simbólica de um império central, herdeiro ininterrupto do tempo das grandes navegações. Os séculos XV e XVI marcaram a nação lusitana com a signo do esplendor e da riqueza; essa marca, perpetuada séculos afora, ao mesmo tempo mostrou-se maldição e benesse: benesse porque alçou o imaginário de um Portugal grandioso, maldição porque teimou em encobrir a realidade das subsequentes épocas com a máscara mitológica dos feitos quinhentistas. Salazar, em sua ditadura, soube aproveitar e reaproveitar essa coleção de lendas, valendo-se da utopia para afirmar “grandes certezas” da nação e tingir de glória os seus desmandos, dissuadindo as atenções da realidade e prolongando a imagem áurea do seu despotismo.   Não seria eterna a ilusão. A partir dos anos 1950, algumas contestações surgiriam por parte d

Guimarães Rosa aporta no Uruguai

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Por Guilherme Mazzafera João Guimarães Rosa discursa no Ministério das Relações Exteriores, 1959.   Não foi sem alguma surpresa que me deparei há alguns anos com um livrinho de Guimarães Rosa publicado no Uruguai. Intitulado Con el vaqueiro Mariano — relatos (Ediciones de la Banda Oriental, 1979), com tradução de Washington Benavides e Eduardo Milán, o livro reúne duas narrativas fundamentais de momentos de escrita distintos na obra de Rosa: o próprio “Com o vaqueiro Mariano” e “São Marcos”. Este, extraído de Sagarana (1946), funciona como uma espécie de núcleo linguístico da obra de estreia, delineando uma poética precisa que tanto valoriza o “ileso gume do vocábulo” como a tensão inelidível entre as instâncias letrada e popular de linguagem, imortalizada no duelo poético em gomos de bambu protagonizado pelo narrador em primeira pessoa e seu rival, “Quem-será”. A importância deste texto para a obra rosiana é indicada pelo próprio autor quando indagado sobre a gênese das narrativas

Cinco poemas de Adam Zagajewski

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Por Pedro Belo Clara Adam Zagajewski. Foto: Elżbieta Lempp. OS TRÊS ANJOS   De súbito, três anjos apareceram aqui ao pé da padaria na Rua de São Jorge; mais um inquérito sociológico, suspirou um homem enfadado. Não, começou por explicar, com paciência, o primeiro anjo, gostaríamos só de saber em que é que se tornaram as vossas vidas, que sabor têm os dias e porque é que as noites estão marcadas pelo desassossego e pelo medo.   É verdade, pelo medo, interveio uma adorável mulher de olhos de sonho; mas eu sei o porquê. As obras do pensamento humano soçobraram e precisam de ajuda e apoio, que não conseguem encontrar. Senhor, veja – chamou «senhor» ao anjo! – o exemplo do Wittgenstein¹. Os nossos sábios e líderes são tristes e loucos e sabem ainda menos do que nós, pessoas comuns (mas ela não era comum).                                  E também, disse um garoto que andava a aprender a tocar violino, as tardes são apenas uma maleta oca, uma caixa vazia de mistérios, enquanto de madrugada