A qualidade da programação da TV brasileira

Por Pedro Fernandes




Nota: Deste texto que posto hoje não tenho a data de quando foi escrito; suspeito que tenha sido produzido no início de 2004. Ele também faz parte daquele feixe de textos que encontrei em alguns arquivos adormecidos e que agora trago para este espaço, cujo interesse está para além de vê-los reunidos num só lugar, o de encontrar com minhas reminiscências de leitura e de escrita.

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A adoração pela TV não tem limites sociais, raça ou credo. Tornou-se instrumento presente na maioria das casas brasileiras. Provas vão desde uma antena “espinha de peixe” mal colocada no telhado de um barraco até às potentes antenas parabólicas na cobertura de um prédio de luxo.

Claro, ninguém é de ferro! Quem não gosta de relaxar vendo um filminho na TV? Ou até mesmo algum programinha interessante? – Opa! Pere aí! Cuidado com o adjetivo! – Mulher xinga o marido por causa de traição. De certa vez, homem invade programa ao vivo com arma em punho. Cenas eróticas do mocinho com a protagonista alcançam o ápice de audiência das telenovelas. Isso tudo são cenas do cotidiano? Sim, mas são, sobretudo, artimanhas da TV exibidas em horário nobre ou em fins de semana, servidos de bandeja ou empurrados goela abaixo toda vez que, por vício, ligamos a televisor.

A briga entre programas pela audiência tem feito com estas cenas sejam mais comuns que normal. Tentam de tudo para conquistar espaço e quase sempre apelam à baixaria ou ao lado sexual, o que não é bom para o telespectador analisando pelo lado moral do ser humano. E num país como o Brasil, onde o acesso à cultura e a educação estão na escala dos níveis alarmantes, faz com que esse tipo de programação caia no gosto popular, até porque conforme já foi dito, essa programação é mais comum no dito horário nobre ou em fins de semana, períodos em que mais se vê TV. Já os programas educativos, tidos como chatos, são escondidos na madrugada, e apresentados por apresentadores à beira da morte.

Essa idolatria que a geração da qual faço parte desenvolveu em torno da TV tem sido nociva aos arranjos familiares. Pôs a família de lado nas discussões diárias. A qualidade dos programas nela exibidos tem contribuído significativamente para dilatar o fosso entre pais e filhos, maridos e mulheres. Pesquisas apontam que são as crianças as principais vítimas da má qualidade do que veem. Isso porque os programas vistos por elas hoje apresentam altas doses de estímulos eróticos visuais, culto ao corpo, atitudes sugestivas ao sexo, entre outros e tudo isto tem grande influência para elas, uma vez que a TV é um meio de comunicação que se utiliza de sons e imagens em movimento. O som e o movimento da imagem foram sem dúvida responsável por alterações em todas as conjunturas sociais. Eles têm força demais para um público fragilizado demais. E dizem os especialistas que isso é uma das causas para o amadurecimento precoce em crianças.

O que fazer, então? Na Inglaterra, por exemplo, TV é serviço público, assim como água, luz ou telefone. E há um ministério responsável pelo seu funcionamento. O controle da qualidade, principalmente a infantil, é rígido. A fiscalização é feita por órgãos independentes, responsáveis pelo acompanhamento da programação e pelo encaminhamento das reclamações do público. Mas isso seria possível no Brasil, onde uma pequena intervenção do Governo nos meios televisivos traz de volta o fantasma da censura nos tempos da Ditadura Militar? Creio que este fantasma dos Anos de Chumbo só tem servido para alimentar o já enorme poder que os órgãos televisivos carregam desde os anos pós-censura.

Devido este atrito entre Governo e TV, restamos nós. Nós é que temos que controlar o que as nossas crianças devem assistir. O problema, entretanto, é que a grande maioria não tem entendimento ou não está nem aí para isto, embora as restrições apareçam a cada intervalo de programa sob três formas de linguagem. Prova disso são os índices de audiência que aqueles tais programas que falei no início deste texto citei. Prova disso são as antenas que se multiplicam sejam nos telhados de barracos ou no teto de casas luxuosas, sempre no interesse de captar melhor as imagens entregues de bandeja ou goela abaixo. Convivemos com um problema que não sabemos e não temos como resolver sozinhos. Para isto existe o Estado. Mas, cadê o Estado?

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