A ignorância é um passo do conflito

Por Pedro Fernandes




É verdade que um país como o Brasil - que viveu tão recentemente um período áureo da censura - faz uso, não muitas vezes exagerado e principalmente em se tratando da mídia, do conceito de censura ou mesmo dos atos praticados nos Anos de Chumbo para classificar todo e qualquer ato que obedeça traços de semelhança não apenas com o conceito mas também com o ato em si de censurar. Isso é fato.

Mas, dois recentes momentos que tenho presenciado, não podem entrar para o rol das possibilidades de aproximação com o conceito e ato de censurar. E digo isso porque - na minha curta ignorância - entendo, sim, tais atos como censura. E tenho tanto convicção disso porque acompanho que a grande mídia não se preocupa em colocar esses atos à roda das discussões. A mídia - e restrinjo a grande mídia - só divulga aquilo que lhe é de interesse; aquilo que lhe fere a sua suposta moral. Aquilo que é da moral alheia parece que ela incorpora uma cegueira que está para além de fingir que não ver, porque em grande parte ela adota o triste comportamento de velar a situação. E entendam. Velar quer dizer por um véu sobre a questão a fim de que, quem lhe vê, veja "isso" ao invés "daquilo".

Passo, pois, aos dois momentos que tenho presenciado. O primeiro tive notícia ontem. O diretor da novela da rede Globo Insensato coração teria sido chamado ao cabresto por está dando muita corda às cenas com o casal gay da novela. A coisa se torna pública porque um dos atores comentou no seu Twitter que algumas das cenas gravadas entre ele e seu parceiro foram cortadas da novela. O fato é que, diz-se, o casal terá um fim antes do esperado e a questão ficará maquiada com a caricata personagem do Leonardo Miggiorin.

Hoje foi quando tive notícia do segundo momento. E esse, me parece, é o mais grave dos dois. Primeiro porque não se deu numa instância privada e corriqueiro é a Globo tomar esse tipo de atitude. Segundo porque a questão vem pelas mãos de um partido político e de uma decisão judicial. Falo, evidentemente, da censura operada pelo Partido Democratas (DEM) - e irônico está aí: um partido que diz democrático - dada, através de decisão judicial, para o filme A Serbian Film, de Srdan Spasojevic. 

O filme teve proibida a sua exibição no Cine Odeon, na Cinelândia, Rio de Janeiro. A juíza Jatahy Nygaard, da 1ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso do Rio de Janeiro, quem assinou a proibição, diz ser este um filme de apologia à pedofilia. O fato é que a película já fora exibida em vários festivais aqui mesmo no país e não recebeu, seja por parte do público, seja por parte da crítica, nenhum comentário do tipo. Mesmo não tendo visto o filme, confio na opinião dos que viram. Sabe-se, entretanto, que nem os do DEM e nem a juíza pediram cópia do filme para tomada dessa decisão. O que funciona como um ato também de pré-julgamento. E tenho dito: a ignorância é um passo do conflito.


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