O beabá das biografias*

 Por Pedro Fernandes 





Em briga de cachorro grande quem sou eu para meter minha língua? Enquanto a questão estava entre os reis da MPB acompanhei de camarote o disse me disse; quando a coisa descambou para o terreno da literatura (perdão pela divisória de áreas, como se a biografia não fosse um gênero textual e estivesse alheio à literatura, mas já me explico sobre), como dizia, quando a questão aqui chegou, dei algumas deixas na minha página no Facebook, principalmente no caso Paulo Leminski, e, enfim, quase um mês depois, é impossível não dizer nada sobre o caso. Ao menos posso ter uma opinião formada sobre, mesmo porque a briga é de cachorro grande, mas o que respinga, respinga diretamente no cidadão comum. E por isso mesmo me vejo um tanto quanto obrigado a dizer alguma coisa, a emitir um parecer sobre.

Permitam-me um esclarecimento: não é o caso de ser a biografia um gênero que me apetece ler. Não. Acho esse texto maçante, chato, e foram muito poucos autores que consegui ler falando da vida alheia. E o que li foi quando eu dispunha de certo tempo para ser queimado com qualquer coisa. Logo, minha visão sobre o gênero perde-se na restrição de alguns textos: alguns deles redigidos para uma coleção caprichada até da Editora Três – textos, aliás, que deve ter em qualquer biblioteca de escola, porque depois de saírem das bancas de revista foram parar aí, sendo talvez os primeiros lugares a que foram destinados. Cito de memória dessa coleção, Castro Alves, Gonçalves Dias, Machado de Assis, Euclides da Cunha – todos lidos na minha adolescência. No período de Faculdade ainda cheguei a ler a biografia extensa de Joachim Fest, Hitler, em dois volumes; do mesmo autor, No bunker de Hitler – os últimos dias do Terceiro Reich. Paulo Leminski – o bandido que sabia latim, de Toninho Vaz. Acresceria aqui a biografia de Caio Túlio Costa, Cale-se. No mestrado a breve biografia informativa Saramago, de João Marques Lopes, o que deve ter sido o último título. Atravessaram o meu caminho mais uma quantidade de textos do gênero, como a pretensa biografia de Fernando Pessoa redigida por José Paulo Cavalcanti Filho e a bem cuidada sobre Getúlio Vargas redigida por Lira Neto, de quem até acompanhei certa vez uma palestra num desses eventos literários.

Aliás, contam-se pelos dedos da mão e ficam dedos órfãos os nomes de biógrafos bem conceituados no Brasil. Parece-me mesmo que a biografia é, por aqui, um gênero dos mais marginais. E não quero é reduzi-lo ao esmo, do lugar nenhum, ao dissociá-lo do território da literatura, termo esse que tem, no lugar que aqui assumo, outra conotação: é literatura aquele texto que tem no trabalho com a linguagem a medida exata de sua existência. O texto biográfico, pelo caráter informativo, muito se aproxima do trabalho com a linguagem jornalística, cuja transparência do dito é, ainda que impossível de ser alcançada, o lugar ansiado pelo escrevedor. Um exemplo preciso é o trabalho biográfico redigido por Paulo Leminski nos quatro textos mais tarde reunidos num só título, Vida. Está aí mais que o preceito informativo da biografia, a voz do poeta rasurando a todo tempo a ordem morfológica, sintática e, consequentemente, a própria forma do gênero.

Mas a questão aqui é fora desses lugares textuais; diz respeito a validade do gênero e o modo como dele se apossa o biógrafo para a elaboração da suas personas históricas. Diz respeito ainda aos trânsitos e os limites entre o privado e o público, onde finda um e principia o outro, ou onde os dois se interseccionam. E todo o imbróglio da questão parece ter nascido aí, desde a ação jurídica interposta à biografia de Roberto Carlos – até então o caso mais sintomático nas discussões porque veio seguido da proibição de circulação de uma obra. Tudo o que foi dito sobre essa polêmica que aflora com depoimentos de outros tipos da classe musical como Chico Buarque, Caetano Veloso, Djavan, me parece que é produto de um mal entendido ou uma distorção levada ao extremo, primeiro, por uma mídia medíocre como a que temos, interessada muito mais em ver o circo pegar fogo que no debate profícuo sobre a questão, depois, por um grupo não menos despreparado nas leituras e interpretações dos ditos. No caso de Chico Buarque e os demais de seu grupo me parece que nunca houve uma censura prévia, como hoje são acusados, sobre o assunto; a legitimidade da defesa da vida privada parece ser, se não me engano, um pleno direito de qualquer cidadão, seja ele famoso ou não. E é em nome desse direito a tecla que tanto se bate na ideia de autorização ou não da biografia. Da mesma maneira que se entendeu isso errado, se entendeu também o depoimento recente do próprio Roberto Carlos que teria se pronunciado a favor das biografias não autorizadas. No meu parco entendimento, o cantor não cedeu à questão: a biografia permanece sendo-lhe um atentado se nela o biógrafo se beneficia de situações licenciosas. O que grupo contrário ao tema não terá percebido é a desconsideração que eles fazem da existência dos meios legais pelos quais o biografado ofendido pode recorrer.

O mero receio da difamação, medo que transparece no gesto de proibição das biografias não autorizadas passa, basicamente, por duas questões culturais: uma, a de que o verdadeiro herói é destituído da mácula, concepção tradicionalista e reduzida do sujeito, uma vez que o que nos constitui é nada mais do que nossas imperfeições, as verdadeiras idiossincrasias que nos coloca em lugar do diferente e não do próprio; outra, que essa imagem sem mácula foi construída sob uma farsa que uma vez exposta em sua real forma é capaz de tudo ruir e deixar o herói soterrado debaixo das ruínas do que eram glórias. Cabe nessa hora o dito popular de que quem não deve não teme.

Mas, vejamos, o dito tem suas limitações. A meu ver no jogo das perfeições e imperfeições aquilo que pode se constituir em mácula da personagem histórica só fará sentido se esta servir para esclarecer algum impasse na obra do artista, já que ao falar dele é sobre a obra o que estaremos buscando falar. Pode ser até que esta seja uma visão muito particular de quem primeiro vê a obra para só depois olhar o seu autor. Quando há seis anos me decidi em estudar a obra de José Saramago, por exemplo, não fiz porque tivesse uma afeição biográfica entre eu e o escritor português, embora mais tarde descobrisse isso, mas no primeiro instante o que me motivou foi o seu trabalho literário. Mais: a obra de todo artista é pública – não se produz literatura, música, pintura, dança, arquitetura, teatro etc. para si ou para um reduto familiar, se produz para um público e nesse caso, mesmo o núcleo familiar, se constitui já em esfera pública. Ao público só interessa o fato que sirva de esclarecimento sobre obra. Parece que é aqui em que as duas esferas, a privada e não privada, se interseccionam. As situações escusas a essa intersecção devem ser tratadas apenas como fofoca? Apelo gratuito do biógrafo para vender o escrito? O problema é que cada vez mais, o gesto escabroso é o que constitui, ao menos para o grande público, num definidor de personalidades. Em alguns casos, naqueles que não chega a ter a alcunha de difamatórios (eis um termo cujo conceito tem suas variantes de pessoa para pessoa), o consolo para a pessoa pública parece vir de outro dito corrente: se é para falar, que falem, ou bem ou mal, o importante é que falem. Talvez esteja em falta a necessidade de certo despudor sobre a imagem que outro faz de nós mesmos.

No limite a que as coisas chegaram é necessário apenas que seja feito alguns esclarecimentos: posicionar-se contra as biografias não autorizadas não constitui uma censura. Pode até ser uma apologia a contrariedade da liberdade de expressão, mas deve prevalecer o bom senso, principalmente do biógrafo, que cada um tem uma posição sobre si, e essa posição deve ser até o limite respeitada. O que apenas me intriga, mas isso é já tema para outra conversa, é o grande poder que os familiares usufruem sobre a obra artística do artista depois de morto; há casos estapafúrdios envolvendo pesquisadores e famílias de artistas quanto ao trato que aqueles mantêm com a produção artística estudada. Também no caso das biografias é preciso que haja uma compreensão acerca da autonomia do pesquisador e novamente tem valia seu limite de atuação e sua postura ética, duas características que me parecem ser as que melhor devem guiar quem se aventura redesenhar seres históricos que é o que todos nós somos em seres de tinta e papel.

Outro esclarecimento diz respeito ao debate; mesmo atrapalhado e atabalhoado, a questão vem recebendo os palpites de diversos setores da sociedade. E isto só enriquece na elaboração de uma proposta conveniente a ambas as partes. Proposta que, a meu ver, deve ser guiada pela liberação das biografias. Ainda que este esteja longe de ser um gênero que me apeteça ler, a história das ideias e a memória de um povo estarão mais bem enriquecidas se delas soubermos sobre o seu nascimento e sua gênese e sobre os seus produtores que são estes, ideias e povo, seus principais constituintes.


* Este texto foi publicado inicialmente no LiteraturaBr.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carolina Maria de Jesus, a escritora que catava papel numa favela

20 + 1 livros de contos da literatura brasileira indispensáveis

José Saramago e As intermitências da morte

José Saramago e Jorge Amado. A arte da amizade

Sor Juana Inés de la Cruz, expoente literário e educativo do Século de Ouro espanhol

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

Visões de Joseph Conrad

Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

A melhor maneira de conhecer o ser humano é viajar a Marte (com Ray Bradbury)

Os diários de Sylvia Plath