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Mostrando postagens de Outubro, 2020

Retrato do escritor bipolar

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Por Rafael Narbona


Embora a etiologia da doença seja desconhecida, há um relativo consenso de quando se trata de um distúrbio bioquímico, de origem genética e hereditária, mas com influências externos. A angústia, a ansiedade ou uma experiência traumática podem desencadear um surto e levar ao suicídio. Uma parcela de 20% dos doentes tira a própria vida e pelo menos 50% tentam. A lista de escritores, músicos e pintores que se despediram do mundo com um trágico estampido ou um gesto silencioso ultrapassa qualquer estimativa superficial. Ernest Hemingway é um dos casos mais conhecidos. Filho de pai suicida, herdou a pistola que o deixou órfão por toda a vida. Com um humor oscilante, que o fez passar da euforia e imprudência a uma certa misantropia, no dia 2 de julho de 1961 explodiu a cabeça com uma espingarda de cano duplo. A ferida de Sylvia Plath Sua neta Margaux preferia o fenobarbital e escolheu uma data simbólica: o 1º de julho de 1996. Como o avô, ela sofria de depressão e se refugiav…

Vontade de ferro, de Nikolai Leskov

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Por Joaquim Serra



Nikolai Leskov (1831 - 1895) foi um escritor russo do século de ouro. O autor também ganhou espaço na Coleção Leste da editora 34 com a publicação do seu fabuloso Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk. Não menos importantes são as duas coletâneas de contos, A fraude e outras histórias e Homens interessantes e outras histórias. Leskov, que é “o mais original dos escritores russos”, segundo Górki, também é reconhecido por Thomas Mann como alguém igualável a Dostoiévski, mas não teve o mesmo destino deste escritor. Como ressalta Elena Vássina no ensaio presente no primeiro livro de contos citado aqui, Leskov, entre todos os escritores clássicos, “talvez seja o único que, durante sua vida, não tenha ganhado o devido reconhecimento nem dos leitores, nem dos críticos” (2012, p.203). O que nos leva a supor, talvez, que o famigerado texto de Benjamin, O narrador, seja mais lido que o próprio autor que ele considera um narrador distante dos outros pela experiência vivida e ouvid…

Boletim Letras 360º #397

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DO EDITOR 1. Saudações, caro leitor! Os boletins, na aproximação com o fim do ano ― e ainda mais num ano atípico em relação aos outros ― começam a emagrecer. Esta é uma post semanal criada desde quando os algoritmos do Facebook passaram a trair nós todos. Reúnem-se aqui todas as notícias compiladas ao longo da semana naquela rede social. Obrigado pela companhia por aqui e noutros canais do blog. Boas leituras!




LANÇAMENTOS
Coletânea reúne contos de fadas da literatura russa.
Os contos de fadas começaram a ser coletados com mais intensidade em diversos países na época do Romantismo, como uma maneira de resgatar as histórias contadas pelo povo ao longo de séculos. Os originários da Rússia, no entanto, são menos conhecidos no Ocidente e têm características próprias, como a forte ligação com a natureza, na qual o inverno, por exemplo, é personificado num ser que pode ser bom ou mau, dependendo da forma como se lida com ele. Nos contos russos as mulheres também são muito menos passivas, e delas…

As sílabas de Amália, de Manuel Alegre

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Por Maria Vaz


Escrever sobre Amália Rodrigues é sempre um risco, na medida em que acaba por ser semelhante a quando entramos no mar e vemos e sentimos as ondas mas, do nada, ficamos sem pé ante a profundidade que a intensidade que os sentidos lhe faziam ressoar pela voz e encantar multidões. Um risco superado com distinção, como outra coisa não seria esperar, pelo poeta Manuel Alegre a quem, dentre outras distinções literárias, foi atribuído o Prémio Camões, em 2017. As sílabas de Amália foram melodias que arrebataram aplausos em palcos de todos os cantos do mundo, num tempo muito menos globalizado do que aquilo que é nos dias de hoje.
Compreender o que Amália representou para o fado e para a cultura portuguesa, em geral, é complexo. E é complexo porque foi um fenómeno com muitas peculiaridades capazes de superar a humildade das suas origens e a sua timidez natural, que se desvanecia completamente quando entrava em palco. Tinha a voz, a presença, a elegância e, sobretudo, a capacidade de …

A trégua, de Mario Benedetti

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Por Pedro Fernandes                                                                         



Numa das entradas para o breve diário cultivado às vésperas de sua aposentadoria, Martín Santomé, ao refletir sobre a vida e sua descontinuidade, tece uma leitura sobre uma dessas frases que pela força do hábito são tornadas em expressão de efeito e esta é quase-sempre utilizada no interstício entre a vida ativa, baseada na rotina do trabalho contínuo, e a vida posterior a esse tempo: “Mas o senhor é ainda um homem jovem!” O narrador se concentra no termo em destaque, se questiona sobre a quantidade de anos que lhe restam e sobre a angustiosa sensação de que a vida lhe corre agora agressiva e rapidamente para o fim. “Porque a vida são muitas coisas (trabalho, dinheiro, sorte, amizade, saúde, complicações), mas ninguém vai me negar que quando pensamos nessa palavra, Vida, quando dizemos, por exemplo, que ‘nos agarramos à vida’, estamos assimilando-a a outra palavra mais concreta, mais atraente, …

Os pilares da quadra, a poesia de Renan Peres

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Por Wagner Silva Gomes


Dividido em duas partes, a primeira girando em torno da liberdade, a segunda tomando como base o amor, sintomas (Pedregulho, 2020), livro de estreia de Renan Peres (Vitória – ES, 1997), tem como ponto de partida o horizonte, espaço. Mas esse não é nada sem o amor, construção. É sobre até onde vai o amor, se: xiii. no seu mundo jamais serei pedestre  suas ruas me foram interditadas está proibido nos cruzarmos.  (p. 93). Com versos livres, ora com rimas sólidas toantes, como as paredes em /S/, da interdição de cruzar com o outro – últimos dois versos – o eu lírico quer ir além do limite imposto. Peres, por isso, faz uso da heterometria (as duas paredes de decassílabos com uma de nove sílabas que poderia ser de dez, contando com o indivíduo, mas se trata de um terceto, não de uma quadra – espanto, as quadras, como são chamados os quarteirões de ruas, bairros, não são quadras, pois têm dois lados, lados que dividem sujeitos, subjetividades, etnias, classes sociais). A únic…

Tema ou técnica? III – Graciliano Ramos e a matéria romanceável

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Por Guilherme Mazzafera



“Com certeza nossos autores dirão que não desejam ser fotógrafos, não têm o intuito de reproduzir com fidelidade o que se passa na vida. Mas então por que põem nomes de gente nas suas ideias, por que as vestem, fazem com que elas andem e falem, tenham alegrias e dores?”  Graciliano Ramos, “O fator econômico no romance brasileiro” Em “Decadência do romance brasileiro” (1941), um de seus textos críticos mais certeiros, Graciliano Ramos principia por confrontar duas ideias então em voga: a falta de “material romanceável” no Brasil, que explicaria a baixa qualidade da prosa de ficção vigente à época (ideia veiculada por Prudente de Morais Neto por volta de 1930), e, em resposta a esta, a existência de ótimos romances, mas não de romancistas. Para o autor, a revolução de outubro e o modernismo atuaram como fatores essenciais na mudança de um estado de estagnação artística, e, se por si mesmos não produziram matéria romanceável, permitiram um olhar mais livre e atento, …

Louise Glück, a poesia de um mundo em declínio

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Por Federico Díaz-Granados


A poesia está em festa. Não é apenas um motivo recorrente para celebrar, mas nestes dias está em festa porque uma das mais destacadas expoentes ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Louise Glück, poeta novaiorquina e herdeira da mais genuína tradição da poesia estadunidense, abandonou a discrição e sobriedade de seus dias para se converter no centro das atenções mundo afora. Uma vez mais a poesia é protagonista dos primeiros planos dos jornais e é o tema principal de muitas das conversas entre leitores. A Academia Sueca disse que Louise Glück recebe o galardão “por sua inconfundível voz poética que, com beleza austera, torna universal a existência individual”. Uma frase objetiva que define com exatidão uma vocação e uma carreira literária. Não aparecia nas listas das casas de apostas que todo ano prognosticam os ganhadores, nem no favoritismo das possibilidades vendidas pela mídia, tampouco surpreendeu os leitores de poesia que reconheciam o nome da poeta e o se…