H. Dobal



H é abreviatura de Hindemburgo. Associado ao Dobal, assim é que se chama o poeta piauiense: Hindemburgo Dobal, conhecido H. Dobal. Quer dizer, quase conhecido. Poucos leitores terão ouvido falar seu nome ou lido sua obra. O que não é surpresa. Há centenas de milhares deles Brasil afora. Mundo afora. E neles, ao meu ver, é onde reside o valor da poesia brasileira contemporânea. Não há dúvidas que somos o país onde mais existe poetas. Bons e ruins. Talvez na língua portuguesa - melódica, como bem descrevem os falantes de outras línguas - esteja o fator para tanto. Mas o público leitor de poesia foi e ainda é minguado. Muito por isso, talvez, esteja aí explicações para haver tanto poeta não conhecido. Aqui, ficam algumas notas que não tem ambição nenhuma se não a de dizer quem é Dobal e algumas de suas obras.

Dobal foi bacharel em Direito. Funcionário público, tradutor - além de poeta. É de Teresina, Piauí. Nasceu em 17 de outubro de 1927 e morreu no início de 2008. Contribui e muito para o com o terreno da poesia, deixando-nos em torno de oito obras, dentre elas, O tempo conseqüente, 1966; O dia sem presságios, 1970; A província deserta, 1974; A serra das confusões, 1978; A cidade substituída, 1978; Os signos e as siglas, 1986; Ephemera, 1995. Em prosa, destaque para o livro de contos Um homem particular, 1987 e os de crônicas Roteiro sentimental e pitoresco de Teresina, 1992, e Grandeza e glória nos letreiros de Teresina, 1997; do tipo,  publicou ainda A viagem imperfeita, em 1973, em que reúne notas de viagem.

O poeta Ivan Junqueira falou do escritor comparando-o a Carlos Drummond de Andrade e a João Cabral de Melo Neto, mas o valor da obra de Dobal, é imanente ao que escreveu. Numa leitura, à primeira vista, do seu livro de estréia, O tempo conseqüente o leitor notará no poeta uma grandeza única e particular no enforme dos temas, no exercício do verso. Cite-se o poema "Os amantes", com a ressalva de que não é um texto do livro de 1966.

Eis-me de novo adolescente. Triste
Vivo outra vez amor e solidão
Canto em segredo palpitar macio
De pétala ou de asa abandonada
Outro amor em silêncio e na incerteza
Oprime o coração desalentado.

Ó lentidão dos dias brancos quando
A angústia os deseja breves como um sonho.

Insidioso amor em minha vida
Reverte o tempo para o desespero,
A inquietação da adolescência
E o pensamento me tortura, prende
Como se nunca houvesse outro consolo
Que não é mais de amor. Porém de morte.

Edmilson Cunha em o Jornal de Poesia assim se pronuncia sobre fazer poético do autor piauiense:

"Na consciência da morte e no apelo do amor, o piauiense encontra matéria para a boa poesia — mas consciência sem angústia, apelo sem aflição. (...) Se, em “Os Amantes”, o poeta volta à mocidade para se fazer ouvir (...), é a voz madura que entoa a “Oração para Invocar as que não Vieram”: Venham a mim todas as que não me quiseram, / todas as que deixaram de conhecer, no sentido bíblico, / um homem competente não só na palavra amor / mas também nos carinhos mais fundos.

Nada, porém, que exceda a criação dobaliana de fundo épico, a exemplo do primoroso “Leonardo”: No campo raso vai galopando / Leonardo de Nossa Senhora / das Dores Castello Branco. “El Matador” denuncia a bárbarie de João do Rego Castello Branco, piauiense feroz: Matador de índios. / A fama de seu nome / a fúria de seu nome. / Sua memória em sangue / se repete. “Memorial do Jenipapo” lembra a famosa batalha que se travou nos domínios piauienses de Campo Maior: Este monumento / se levanta agora / na paisagem nobre: / que as éguas da noite / jamais perturbem / o sono anônimo / dos enterrados / nesta terra pobre.

Se há poetas que viram personalidades públicas, H. Dobal é um homem particular — como o compreende o cineasta Marden Machado no filme que lhe dedicou. Segundo já disseram, sua obra deu dimensão universal à poesia piauiense. Pela força e pela grandeza com que nos emocionam, os versos de H. Dobal são daqueles que, sozinhos, valem por uma literatura."

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