H. Dobal

Por Pedro Fernandes



H. é a abreviatura de Hindemburgo. Associado ao Dobal, assim é que se chama o poeta piauiense: Hindemburgo Dobal, reconhecido H. Dobal. Poucos leitores terão ouvido falar seu nome ou lido sua obra. O que não é surpresa. Há centenas deles Brasil afora. E neles, ao meu ver, está o valor da poesia brasileira contemporânea. Aqui, ficam algumas anotações colhidas do encontro da obra deste poeta numa das muitas idas à biblioteca; o pequeno texto informativo não tem ambição nenhuma se não registrar ou trazer aos olhos de outros leitores quem é H. Dobal e algumas de suas obras.

H. Dobal nasceu no dia 17 de outubro de 1927 em Teresina. Formou-se em Direito e trabalhou como funcionário público, passando nesse período por Brasília e Rio de Janeiro. Sua presença na literatura começa como participante do Grupo Meridiano. O movimento que ajudou a fundar se fez conhecer pela publicação de uma revista de mesmo nome. Foi um espaço que deu a conhecer as influências do modernismo no âmbito da literatura produzida no Piauí. 

Ainda nos anos 1960 chegou a integrar a famosa Antologia dos Poetas Bissextos Contemporâneos organizada por Manual Bandeira. Foi nessa década que H. Dobal publicou o seu primeiro livro, O Tempo Conseqüente. A obra abre uma sequência de outros importantes e premiados títulos, contradizendo assim o adjetivo do poeta de Pasárgada. 

Seguiram-se O Dia sem Presságios (1970), com o qual recebeu o Prêmio Jorge de Lima, do Instituto Nacional do Livro, A Província Deserta (1974), A Serra das Confusões e A Cidade Substituída (1978), Os Signos e as Siglas (1986), Cantiga de Folhas (1989) e Ephemera (1995). Toda a obra poética é organizada em Poesia Reunida (2005).

Além da poesia, escreveu prosa, destacando-se o livro de contos Um Homem Particular (1987) e os de crônicas Roteiro Sentimental e Pitoresco de Teresina (1992) e Grandeza e Glória nos Letreiros de Teresina (1997). Publicou ainda A Viagem Imperfeita (1973), em que reúne notas de viagem.

O poeta Ivan Junqueira falou do escritor comparando-o a Carlos Drummond de Andrade e a João Cabral de Melo Neto. Acrescente-se que o valor da obra de Dobal é imanente ao que escreveu. Numa leitura, à primeira vista, do seu livro de estréia, O Tempo Conseqüente o leitor notará no poeta uma grandeza única e particular no enforme dos temas, no exercício do verso.

Cite-se o poema “Os Amantes”:

Eis-me de novo adolescente. Triste
Vivo outra vez amor e solidão
Canto em segredo palpitar macio
De pétala ou de asa abandonada

Outro amor em silêncio e na incerteza
Oprime o coração desalentado.
Ó lentidão dos dias brancos quando
A angústia os deseja breves como um sonho.

Insidioso amor em minha vida
Reverte o tempo para o desespero,
A inquietação da adolescência

E o pensamento me tortura, prende
Como se nunca houvesse outro consolo
Que não é mais de amor. Porém de morte.

Edmilson Cunha, no referido portal, assim se pronuncia sobre fazer poético do autor piauiense:

Na consciência da morte e no apelo do amor, o piauiense encontra matéria para a boa poesia — mas consciência sem angústia, apelo sem aflição. (...) Se, em 'Os Amantes', o poeta volta à mocidade para se fazer ouvir (...), é a voz madura que entoa a 'Oração para Invocar as que não Vieram': 'Venham a mim todas as que não me quiseram, / todas as que deixaram de conhecer, no sentido bíblico, / um homem competente não só na palavra amor / mas também nos carinhos mais fundos.'

Nada, porém, que exceda a criação dobaliana de fundo épico, a exemplo do primoroso “Leonardo”: 'No campo raso vai galopando / Leonardo de Nossa Senhora / das Dores Castello Branco.' 'El Matador' denuncia a barbárie de João do Rego Castello Branco, piauiense feroz: 'Matador de índios. / A fama de seu nome / a fúria de seu nome. / Sua memória em sangue / se repete.' 'Memorial do Jenipapo' lembra a famosa batalha que se travou nos domínios piauienses de Campo Maior: Este monumento / se levanta agora / na paisagem nobre: / que as éguas da noite / jamais perturbem / o sono anônimo / dos enterrados / nesta terra pobre.'

Se há poetas que viram personalidades públicas, H. Dobal é um homem particular — como o compreende o cineasta Marden Machado no filme que lhe dedicou. Segundo já disseram, sua obra deu dimensão universal à poesia piauiense. Pela força e pela grandeza com que nos emocionam, os versos de H. Dobal são daqueles que, sozinhos, valem por uma literatura.

Fique, assim, registrada a presença do poeta nesta lista de perfis que será sempre incompleta e interminável chamada “Os escritores” com o convite para conhecermos melhor a obra de H. Dobal.

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