Alice no país das maravilhas, de Tim Burton

Por Pedro Fernandes



É bem verdade que fui ao cinema empapado de críticas para ver Alice, de Tim Burton. Ele me foi como o filme brasileiro Chico Xavier, de Daniel Filho, uma das estreias desse ano que mais aguardei. E, claro, com reações diversas: sobre o último, é claro, o que tive foi decepção. Já sobre este...

Bem sobre este, o que tenho a dizer é o eco das críticas das quais me empapei antes de vê-lo.

Há muito de Burton e sobretudo dos estúdios Disney e pouco (muito pouco!) da literatura de Lewis Carroll. Mas, aprovo a beleza imagética do filme, que, pela natureza do 3D, que depois de Avatar deve se tornar um filão para o cinema. Agora, sou muito consciente de que, onde a imagem se impõe, o conteúdo desce pelo ralo.

O sentido do exercício criativo que é peça do escritor inglês é substituído pelo entretimento fortuito; e a narrativa termina por atender ao gosto dos telespectador comum que é levado a estabelecer relações funcionais das mais básicas como sobre o porquê da personagem à beira de um casório se decide vagar pelos labirintos do sonho.

Perde-se, repito, com o conteúdo o encanto do livro de Lewis Carroll, já que a Alice "original" é um livro com excelentes personagens e situações erguidas sob os paradoxos, nos labirintos daquilo que convencionou-se inconsciente humano.

O que se perde na Alice de Burton é, já que falei em paradoxo, o paradoxo da linguagem, os jogos semânticos com as palavras que ora são o que não são, que ora se despem das significâncias comuns e se fazem intricados novelos. Já alguém disse que a palavra é o verdadeiro protagonista da obra de Carroll.

E o filme acaba por rodar uma simples historieta de luta do bem contra o mal cujo final já é previsível desde a chegada de Alice ao mundo subterrâneo. Salva-se a ideia; salvam-se as interpretações; salvam-se os efeitos especiais (que precisam do cinema para fazer sentido, duvido que num simples televisor consiga causar o mesmo impacto). É esperar para saber sobre a continuidade. A obra original tem ainda Alice através do espelho.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os segredos da Senhora Wilde

Os mistérios de "Impressão, nascer do sol", de Claude Monet

Os melhores de 2018: poesia

Andorinha, andorinha, de Manuel Bandeira

Treze obras da literatura que têm gatos como protagonistas

Em busca da adolescente que abriu caminho a Virginia Woolf e Sylvia Plath

Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela, de Ignácio de Loyola Brandão