A um passo da eternidade, de Fred Zinnemann



O beijo acalorado entre Burt Lancaster e Deborah Kerr, rolando na areia da praia, é uma das cenas mais românticas da história do cinema

No começo da década de 1950, os Estados Unidos já começavam a se recompor dos traumas da Segunda Guerra Mundial, mas algumas feridas ainda não estavam cicatrizadas. Entre elas, o ataque sofrido em Pearl Harbor, um assunto dolorido para os americanos e exorcizado em A um passo da eternidade, filme baseado no best-seller de mesmo nome de James Jones e uma das maiores bilheterias da época. A direção é de Fred Zinnemann, que já havia cutucado a caça às bruxas do senador Joseph MacCarthy em Matar ou morrer (1952). Em seu outro grande trabalho, o cineasta de origem austríaca filmou o cotidiano de uma base militar americana no Haví, alguns dias antes do ataque japonês.

Montgomery Clift vive Robert Prewitt, um soldado que acaba de ser transferido. Boxeador talentoso, Prewitt largou o esporte após um acidente e recusa-se a voltar a lutar. Acaba hostilizado pelos oficiais superiores e por seu colegas. Os únicos que o vêem com outros olhos são o sargento Milton Warden (Burt Lancaster) e Maggio, soldado italiano e explosivo, interpretado por Frank Sinatra. O ator-cantor estava com a popularidade em baixa e Zinnemann não queria de modo algum que o astro ganhasse o papel. Sinatra teria, então, recorrido a suas conexões de amizade com a máfia para convencer o diretor. O episódio foi revisitado mais tarde em O poderoso chefão, quando Don Corleone faz uma proposta irrecusável a um produtor de cinema aceitar seu afilhado como ator.

Ao mesmo tempo em que lutam contra a burocracia e a manipulação militar, Prewitt e Warden vivem histórias de amor: o soldado, com uma prostituta (Donna Reed), o sargento, com a esposa de um capitão (Deborah Kerr). A passagem do beijo apaixonado de Lancaster e Kerr na praia é considerada uma das grandes cenas de amor do cinema, constantemente lembrada, como no seriado americano de Tv Gilmore Girls.

A um passo da eternidade fez uma verdadeira limpa no Oscar de 1954, levando oito das principais estatuetas da Academia: Melhor Filme, Direção, Roteiro, Montagem, Trilha Sonora, Fotografia em Preto-e-Branco, Ator (Sinatra, reerguendo sua carreira) e Atriz (Reed) Coadjuvantes. Sinatra e Zinnemann também ganharam prêmios no Globo de Ouro.


* Revista Bravo!, 2007, p.69

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carolina Maria de Jesus, a escritora que catava papel numa favela

20 + 1 livros de contos da literatura brasileira indispensáveis

José Saramago e As intermitências da morte

José Saramago e Jorge Amado. A arte da amizade

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

Sor Juana Inés de la Cruz, expoente literário e educativo do Século de Ouro espanhol

Visões de Joseph Conrad

Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

A melhor maneira de conhecer o ser humano é viajar a Marte (com Ray Bradbury)

Os diários de Sylvia Plath