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Lápis nas veias, de Clauder Arcanjo

Por Pedro Fernandes



Os atropelos do tempo não me permitiram ainda que eu chegasse ao fim das mais de 197 páginas desse livro de Clauder Arcanjo, o segundo da safra de escritor; o primeiro foi Licânia. Entretanto, é um título que já me inquieta a escrever sobre e diria que desde quando o tive em mãos. Publicado pela Sarau das Letras, mesma editora que pôs a lume Incerto caminhar, de David Leite, Lápis nas veias atende a essa minha falta de tempo. É um livro breve com textos breves. Isto é, pequeno nas dimensões e na extensão dos textos, na extensão do volume (assemelhado a um livro daqueles de bolso). Mas como roga a epígrafe recortada de um ditado popular: "Tamanho não é documento".

E ele próprio se faz grandioso, sobretudo porque une uma beleza estética fabulosa: o imagético à palavra. Para cada texto uma fotografia do premiado Pacífico de Medeiros. Verbo e imagem costuram-se constroem uma sinfonia perfeita entre a palavra e a fotografia. É, portanto, um livro para nos momentos de indisposição pela leitura, deixar-se extasiar pelo movimento preto e branco da imagem.

Já quanto aos primeiros gravetos verbais que pude apreciar desse feixe de minicontos, noto a marca de uma dissonância no tom, comum, mas uma dissonância perfeita - que arrumada traduz singelezas ao livro. Julgo que, o que mais me agrada nos textos de Clauder neste Lápis nas veias, reside na densidade com que o signo linguístico é emprenhado já desde seu título e em alguns desses minicontos. Chamo atenção nesse caso para "A terra da omissão", "Aborto", "Argumento" e "Arrombado".

Outro fator que me agrada tem a ver com esse caráter de dissonância que começa a nascer na própria materialidade do texto, marcada, ora por uma imprecisão do gênero (conto-causo, conto-poesia, conto-conto), ora por uma imprecisão da coordenação das cenas, neste caso, certamente, causa da brevidade com que são tecidas as narrativas. De modo que, é este um livro singular para a prosa contemporânea do Estado. Afirmo colocando em jogo toda minha pouca experiência com a crítica literária; mas é que, desconheço, contemporaneamente, no Rio Grande do Norte, alguém que se beneficie tão bem da brevidade do texto.

Dos títulos que citei, recorto um como aperitivo para o leitor; não vem acompanhado pela fotografia de Pacífico porque não escanear o material não ficaria bem. O texto está abaixo:

 Arrombado

Terras distantes, nos fundões. Riacho na frente da casa, poucas águas. Tímido, esquálido naquela terra de gente calada e crete em Deus. Manoel, Maria e a filha Vera.

Manoel, marcado pelo costume: roça e pinga. Maria, marcada pelo costume: chapéu de palha e reza. Vera, sem costume, com jeito de moça, marca dos peitos a furar o vestido de chita, pernas grossas, bunda empinada, cabelos negros, jeito perdido de azul profundo.

Uma noite de chuva, muita chuva. A enxurrada e os raios no céu, como nunca antes.

O estrondo e as preces. Riacho em plena enchente. Nas preces de Manoel, a proteção contra o arrombado - fim das colheitas. Nas de Maria, a proteção das palhas de carnaúba. Nas de Vera, um arrombado forte, muito forte, para limpeza e arraste de tudo.


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