Chinatown, de Roman Polanski




Em vez do preto-e-branco típico do noir, a fotografia em tons alaranjados não esconde a cinzenta visão de mundo do diretor

O detetive J.J. Gittes (Jack Nicholson) é colocado no centro de uma trama gigantesca envolvendo boa parte dos homens poderosos de Los Angeles nos anos de 1930. Na trama, seu bom humor e sua malandragem contratam com a maldade assumida dos demais personagens, bem ao estilo do pessimismo moral que caracteriza o universo cinematográfico do polonês Roman Polanski. Conforme a história é esclarecida, percebe-se que o crime investigado é apenas mais um de tantos desvios de conduta de todos os envolvidos e que nenhum dos suspeitos parece realmente inocente.

Com seus antecessores na tradição do cinema noir, o detetive é um solitário que esbarra num mundo podre e normalmente sem solução. Gittes parece lidar bem com isso. Quando perguntado se ele está sozinho, responde com uma pergunta: "Esta não é a situação de todos?" Não só sobrevive no centro da podridão, como faz dela seu meio de sobrevivência. Gittes, no geral, é um homem justo e pacato, mas acaba adquirindo traços do mundo hostil em que vive. Como em outros filmes do gênero, a solidão do detetive torna-se um ponto de vista próximo daquele no qual se conta a história.

O roteiro de Robert Towne é essencial na caracterização do personagem interpretado por Nicholson. São dele as piadas que Gittes conta o tempo todo. Essa malandragem  é amolecida pelos diversos momentos em que o detetive acredita nas pessoas e é enganado, ou pelo envolvimento que acaba tendo com Evelyn Mulwray (Faye Dunaway), elemento central da estrutura sórdida do mundo por onde Gittes tem de circular.

A terceira parte entre Towne e Polanski não se deu sem atritos. A tendência do diretor à negatividade não correspondia às aspirações do roteirista. Em vez de levar ao rompimento dos dois, no entanto, essa tensão tornou-se fundamental para dar profundidade ao filme, sem que um dos caminhos domine o outro no produto final. A resolução dos crimes é parcial. A punição dos criminosos, idem. A solidão do detetive, que aparenta ser negativa, numa prisão pode ser também considerada o refúgio do protagonista contra a Los Angeles decaída.

* Revista Bravo!, 2007, p.65.

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