Camilo Castelo Branco, o exagero sentimentalista



Quando li, ainda na Faculdade, talvez o seu romance mais conhecido, Amor de perdição, pude compreender o subtítulo desta postagem. Trata-se de uma novela em que – e isso sempre me perguntei – tantas e tantas possibilidades se apresentam aos amantes Teresa e Simão, mas eles como “boas” personagens do ultra-romantismo, optam pela cadência de fatos mais nebulosa a fim de constituírem sua história de amor. 

Os protagonistas de Amor de perdição representam o sentimento de uma sociedade que não mais cria nos veios do destino como trajetórias da vida. Isso é marco para a segunda fase do Romantismo; a fase que a crítica classifica como ultra-romântica, dado o exagero amoroso constituir-se recorrência dos romances e daí ultrapassando para a vida comum dos jovens da época. 

Camilo Castelo Branco nasceu em 1825, em Lisboa. Com muitos dos autores do período, suicidou-se em 1890. Foi diplomado em Química e Botânica. Fez tentativas para Medicina, mas abandonou o curso pela metade. 

Reflexo ou não na sua obra, teve o autor uma vida repleta de aventura e desaventuras amorosas. Na literatura, se dedicou a vários outros gêneros além da prosa, como a poesia e o teatro. Também deixou sua marca na historiografia e na crítica literária.

Mas, na prosa literária, embora seja autor de romances, se destacou na novela e Amor de perdição é exemplo. Estas suas histórias de amor passional tinham como mote o impedimento para a vivificação do amor em seu estado de plenitude. Os motivos eram geralmente os de ordem social, como as diferenças de classe entre os apaixonados ou ainda no bom e modo velho shakespeariano, o da inimizade entre os familiares dos enamorados. 

As novelas castelianas têm por quase obrigação o enaltecimento do sofrer amoroso. Este se constitui no ingrediente motriz e do caráter das personagens. Os jovens amantes encontram-se nublados por uma aura de pureza e de abnegação em que ao ponto que os condena os santifica. 

Com final sempre trágico, as novelas do escritor português dão margem a dualidade do sentimento amoroso. Isto porque a morte nesses casos pode ser vista como sentença punitiva para um amor que transgrede os princípios de uma sociedade interesseira e corrupta, ao mesmo tempo em que, espécie de redenção e pulo para a eternidade.

Amor de perdição é apenas uma pequena amostra da sua vasta obra literária. Camilo Castelo Branco foi um polígrafo; deixou mais de oito dezenas de títulos, dos quais se destacam ainda Coração, cabeça e estômago, Amor de salvação O judeu.

Camilo Castelo Branco também foi símbolo em Portugal do escritor enquanto profissão. O Romantismo, como estilo artístico, tinha fácil penetração social e, na época, a melhor forma de incentivo à leitura da produção na estética se dava através dos folhetins, coisa que no Brasil também faz moda até hoje quando reparamos as novelas televisionadas. Como nas nossas telenovelas, os folhetins de Castelo Branco supriam a carência burguesa do entretenimento.

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