Livros para ampliar o Boom Latino-Americano





A lista a seguir foi apresentada na edição do caderno Babelia editado semanalmente no El País espanhol. A ideia de um conjunto de escritoras a construir uma sequência de obras literárias escritas por mulheres no intuito de ressaltar a presença delas no âmbito universo da criação literária latino-americana é apresentada numa ocasião marcada por uma sorte de divergências e avanços tal como sublinha Laura Fernández em “Um novo mapa literário”, texto que acompanha a lista em questão. Recentemente, a Cátedra Mario Vargas Llosa esteve envolvida numa polêmica por ocasião da realização da 3ª Bienal do Romance; o evento reuniu um número muitíssimo superior de escritores, escolhidos então, exclusivamente pelo critério da “qualidade literária”, motivo vago às vistas de outros escritores e escritoras que aproveitaram a ocasião para divulgarem o manifesto “Contra o machismo literário”. O documento assinado por personalidades como Rosa Montero e Juan Villoro destaca que “é inadmissível que no século XXI, em plena onda de reivindicações pela igualdade, se organize sem perspectiva de gênero um evento como a Bienal do Romance Mario Vargas Llosa”.  Dos avanços, Laura Fernández sublinha a recuperação de obras como a de Elena Garro, continuamente negada pelos autores do Boom, incluindo o próprio companheiro Octavio Paz, ou María Luisa Bombal, sem qual, afirma Núria Armat, “Juan Rulfo não existiria”, ao se referir ao romance Amortalhada, escrito quase duas décadas antes de Pedro Páramo. Bom, passemos à lista que precisa deixar de ser apenas pura alternativa ao conjunto de obras literárias escritas por homens. Conhecer, parece, então ser um bom começo.

1. Amortalhada, de María Luisa Bombal (1938)

Conheci este romance quando estudante, como parte das leituras obrigatórias. Num contexto em que aprendi uma literatura chilena escrita exclusivamente por homens, com um registro muito realista, de repente apareceu uma voz que jogava com o fantástico. Uma mulher morta narrava seu próprio funeral e sua história desde o caixão. A história rompia as lógicas racionais e temporais de causa e efeito, questionando o real, fazendo um esforço para narrar o enigma, enunciá-lo, tocar o invisível. Ana María, a protagonista, é uma mulher que teve que responder aos códigos femininos estereotipados e conservadores. Como todas as heroínas do Bombal, ela incorpora casamentos e maternidades medíocres, vive tomada pela frustração, dividida entre o que deve ser e o que quer ser. Há algo ingovernável nas suas personagens que não se encaixa no que é socialmente exigido delas. A fresta do fantástico, do onírico, do irreal é uma maneira de escapar para tentar sobreviver. É como se esses corpos femininos fossem uma espécie de prisão para aquelas mulheres assustadoras de seus escritos. Em Amortalhada, Ana María parece nos dizer que apenas morta, com seu corpo prestes a ser enterrado, pode refletir realmente sobre sua vida. Como se antes tivesse sido sequestrada. Fora de si. A leitura de gênero é sem dúvida um ponto em questão e de reafirmação para ler este grande romance. (Por Nona Fernández Silanes, do Chile, autora de La dimensión desconocida).

2. Canção da verdade simples, de Julia de Burgos (1939)

Quando eu tinha 14 anos, minha professora colocou este livro em minhas mãos. Não sabia que começava a ler um livro que mudou radicalmente minha vida e as direções da literatura escrita por mulheres em todo o hemisfério das Américas. Publicado por Julia de Burgos (poeta, ensaísta, 1914-1953) aos 25 anos, os poemas causaram um rebuliço em todo o Caribe. Primeiro, porque com o referido livro Burgos se tornou a primeira mulher porto-riquenha a ganhar o Prêmio Nacional de Literatura. Segundo, porque os poemas que compõem o livro foram e ainda são uma exploração profunda e íntima das lutas que se sobrepõem a uma mulher que se afasta do projeto “doméstico” para se interessar pela literatura e pelo “mundo político”. Em Canção da verdade simples, ele dá voz a essa marginalidade justaposta em poemas como “Eu mesma fui meu caminho” e “A Julia de Burgos” [tradução livre]. Em muitos de seus textos, Julia propõe um discurso que se mostra um eu dividido entre a mulher social e a mulher “natural”, a mulher sexual e a mulher política. Também mostra o conflito de como o amor ocorre em um mundo patriarcal, mas da visão de mundo, ética e estética de uma mulher. Juntamente com Gabriela Mistral, que foi sua professora enquanto Julia de Burgos estudava na Universidade de Porto Rico, ambas poetas e suas obras abriram as portas para todos os outros escritores de todos os gêneros da América Latina. Certamente, abriu para mim. Canção da verdade simples é uma leitura obrigatória para todos aqueles que desejam explorar em profundidade como o cânone da literatura latino-americana inclusivo, justo, é construído bloco a bloco. E se você quiser ouvi-lo cantado, procure as versões musicais de muitos dos poemas de Julia que La Discreta fez na Espanha. (Por Mayra Santos-Febres, de Porto Rico, autora de Nuestra Señora de La Noche).

3. A mulher nua, de Harmony Somers (1950)

Este é um romance deslumbrante, não apenas por sua prosa diferente e ao mesmo tempo rara, mas por sua capacidade de combinar o fantástico com uma perspectiva feminista e filosófica em torno de Eros. Temos uma protagonista, Rebeca Linke, que acorda no seu aniversário de 30 anos, arranca a cabeça, a coloca de volta e mergulha nua na floresta. Essa mulher encontrará homens, aldeias, violência, desejo, fome, em uma história apoteótica, publicada em 1950, que beira o delírio. Muito antes de seu tempo, alguns a achavam obscena, não tanto pelo tratamento da sexualidade mas pelas críticas sociais radicais feitas contra os tabus. A escrita poética de Somers criou uma atmosfera de exploração, medo e emancipação. Rebeka se decapita para interromper as ideias sobre si mesma e seu corpo impostas por outras pessoas, e a coloca novamente, mas assumindo o deslocamento e cicatriz. Logo se despe para entrar no original e no original, para se livrar do traje da civilização, mas também da vergonha atávica do corpo; tirar o “véu da graça” e ver sua nudez não como um castigo, mas como uma possibilidade de descoberta e reconhecimento. Somers é uma das grandes escritoras latino-americanas do século XX que foram esquecidas ou, antes, ignoradas pelo mundo literário. No final de sua vida, ela conseguiu encontrar leitores fiéis e boas críticas, mas só agora seu trabalho pode ser traduzido e valorizado pelo que realmente é: original, desafiador, experimental, poético e plástico. Você tem que ler. Digo sem medo: é um clássico a descobrir. (Por Mónica Ojeda, do Equador, autora de Mandíbula).

4. Jardim, de Dulce María Loynaz (1951).

Bárbara enfiou o rosto pálido nas barras de ferro e olhou através delas. Carros pintados de verde e amarelo, homens barbeados e mulheres sorridentes passaram muito perto, em um desfile claro cortado em partes iguais pelo laço das lanças da cerca. No fundo estava o mar. Jardim, o extraordinário romance de Dulce María Loynaz, escrito entre 1928 e 1935 em sua mansão na Line Street, El Vedado, descreve o que poucos sabem narrar: o interior nítido e complexo, os contornos treliçados e silenciados de uma Havana que em novembro deste ano faz 500 anos. A casa grande, com amplos pátios, com capela da família e fontes naturais, atenuando o caloroso cenário do romance, Havana posando sempre ao fundo, fazendo-nos sentir mal quando dizemos que algo desse luminoso Caribe nos machuca ou nos incomoda. O que pode afligir aquela Bárbara desajustada que tem tudo? O paraíso visto como uma prisão, um enredo focado em eventos emendados na cabeça delirante de uma mulher isolada, em um exílio interior que durou uma vida e em muitos autores cubanos pareceria eternizado. (Por Wendy Guerra, de Cuba, autora de Nunca fui primeira dama).

5. Balún Canán, de Rosario Castellanos (1957)*

Não é por acaso que este livro tenha sido reconhecido pelos críticos como uma obra fundamental da literatura latino-americana, pois reúne todas as características que levariam outros romances a ter sucesso no Boom latino-americano. No entanto, publicado no final dos anos 1950, e também por uma mulher, não teve o mesmo destino num mercado editorial dominado pelas obras de Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. O fato de estrear como poeta e depois passar à narrativa com esse romance de cores autobiográficas, permitiu a Rosario Castellanos criar uma atmosfera cheia de metáforas, na qual se reúnem temas que não perdem sua validade: poder, morte, solidão, culpa, magistralmente entrelaçada com a cosmogonia indígena e os conflitos sociais, incluindo o patriarcado. Balún Canán é uma história de opostos: os indígenas e os brancos, infância e idade adulta, submissão e opressão, mas é também uma história do não-dito, do silenciado, do invisível, a partir do ponto de vista da protagonista, que aos olhos dos outros é somente “um grão de anis”. Acredito firmemente que este romance tem muita responsabilidade para o fato de, ainda quando criança, começar a escrever histórias. Porque, lendo-o, eu poderia dizer: “Conheci o vento”. Parte ou não do Boom, Rosario Castellanos conseguiu com esta obra recuperar o que nas primeiras linhas o personagem da avó chama de desapropriação: “A palavra, que é a arca da memória”. (Por María Eugenia Ramos, de Honduras, autora de Una cierta nostalgia)

6. As lembranças do porvir, de Elena Garro (1963)

Casada antes de atingir a maioridade com um poeta egocêntrico, Elena Garro sofreu muitas inseguranças e frequentemente destruiu seus manuscritos. Devemos à irmã da autora, que a resgatou das chamas, a grande sorte de poder ler As lembranças do porvir. Entre os tópicos mais interessantes abordados neste romance (juntamente com o abuso de poder, a circularidade da história, a luta entre o povo e o Estado) está a situação das mulheres. O romance retrata minuciosamente a desigualdade de gênero e a violência doméstica, o feminicídio e o estupro como uma maneira de reprimir e humilhar uma comunidade inteira. Isabel Moncada, a protagonista desta narrativa, é uma mulher infeliz, que toda a sua vida desejou ter nascido homem para ser livre como seus irmãos, estudar, trabalhar e não ter que se casar. Estava interessada em teatro, política e lutas sociais. No entanto, esses desejos foram logo desfeitos pelos costumes de seu povo e pelos valores de sua família. As personagens masculinas lutam para transformar as mulheres em objetos de sua propriedade, controlar suas ações e pensamentos, mas constantemente se libertam do jugo, mesmo que isso lhes custe a vida. Garro era feminista antes de se assumir como tal. Devido também à sua identificação com o marginal, por muitos anos foi-lhe creditada com louca e tratada com infinito desprezo. Este livro, juntamente com Pedro Páramo, é provavelmente o melhor do romance mexicano escrito no século XX. No entanto, a história da literatura ainda não deu à obra de Elena Garro seu devido reconhecimento. Seu brilho continuará a surgir gradualmente como tem acontecido até agora. (Por Guadalupe Nettel, do México, autora de O corpo em que nasci)

7. Eisejuaz, de Sara Gallardo (1971)*

Este é um romance escrito em estado de graça. Sara Gallardo instala-se nas fissuras da linguagem para criar Eisejuaz, uma das personagens mais enigmáticas e inesquecíveis da literatura latino-americana: um índio mataco (wichí) que escuta a voz de Deus em um lagarto e que renuncia a tudo para seguir um chamado de consequências desastrosas para sua comunidade. É um romance fronteiriço em mais de um sentido: mergulha na paisagem do norte da Argentina e no mundo indígena arrasado pelo extrativismo e foge aos lugares comuns do regionalismo através da criação de uma linguagem fascinante, cheia de alterações gramaticais (“Não se comemos”, “ninguém não me respondeu”). Eisejuaz “barbariza” o cristianismo com sua cosmovisão de mundo indígena na qual Deus tem uma face animal; seu eu é curiosamente descentralizado e é composto por muitos outros, porque “um animal que é muito solitário come a si mesmo”. Gallardo se inspirou numa viagem a Salta em 1967, na qual saiu à procura de histórias para sua coluna em um jornal semanal. Num hotel de Embarcación –  próximo ao rio Bermejo – conheceu o cacique wichí, Lisandro Vega, com quem passou horas conversando e que lhe serviu de modelo para Eisejuaz. É inexplicável que esse romance tenha sido esquecido por tantas décadas; felizmente, essa injustiça foi reparada nos últimos anos após a reedição dos livros de Gallardo e o interesse renovado em seu trabalho. Eisejuaz me impressionou de tal maneira que foi o livro a partir do qual me tornei editora. (Por Liliana Colanzi, da Bolívia, autora de Nuestro mundo muerto)

8. Papéis de Pandora, de Rosario Ferré (1976)*

Quando porto-riquenha Rosario Ferré escreveu Papéis de Pandora, pensou em um subtítulo provisório para a obra: Puta e senhora. A primeira edição de seu trabalho, no entanto, ficou sem esse sonoro sobrenome quando foi publicado em 1976, graças a uma editora no México. Se pensarmos bem, o subtítulo é o de menos, a obra é já transgressora em si em termos de substância e forma. Embora possa ser lido como um romance – essencialmente sobre as hipocrisias da classe burguesa – é também uma antologia de poemas, contos ou novelas, escritas com autoconfiança, com humor, com raiva e, é preciso dizer, com uma língua um pouco complexa. Quero pensar que Ferré não se importaria se a chamasse de difícil. O que me refiro é à sua inteligência: sua capacidade de tirar sarro daqueles que frequentemente esmagam as classes trabalhadoras, sua maneira de apontar os comportamentos misóginos da sociedade onde cresceu e também em seu ritmo delirante na hora de trabalhar a linguagem, rompendo também como a língua espanhola – talvez em seu gesto mais transgressivo. A propósito, na Espanha, tivemos que esperar até 2018 por uma das obras mais interessantes da literatura latino-americana para chegar às nossas livrarias pela La Navaja Suiza. Eu diria que “a espera valeu a pena”, mas não quero que ninguém pense que a misoginia deliberada com a qual Ferré foi escondida do cânone merece uma ovação. (Por Luna Minguel, da Espanha, autora de El coloquio de las perras).

9. Noites de adrenalina, de Carmen Ollé (1981)*

Talvez ela tenha inventado o feminino existencial (ou feminista) baseado na liberação de ante o espelho de objeções sobre seus orgasmos, seus fluxos uterinos e o movimento de seus intestinos, enquanto insistia em distorcer a tradição, a vanguarda, a hegemonia, a norma sexual e moral, e atirar contra um punhado de contemporâneos, teóricos do ser e do nada, para fundar uma língua maldita como se funda um quarto próprio, ou o novo mundo. A poeta Carmen Ollé havia limpado muitos banheiros parisienses quando descobriu que podia colocar palavras como se coloca a carne numa trituradora. A carne era seu corpo e nessa consciência destruída, nessa identidade nascente, o misticismo e a política brotam do eu íntimo em sua impureza radical. Como descargas de adrenalina, hormônios e neurotransmissores que alertam para o perigo, Noites de adrenalina é sem dúvida um exercício de autodefesa. Porque naqueles lugares onde “tudo conspira para que outros falem do nosso desejo”, já não seríamos mais “inválidas”, “presas fáceis” ou “adoráveis ​​fadas”. Há muito estava declarada a guerra às que se olham, falam de si, mas ainda se prendiam a outros tantos campos minados que só podemos superar com a adrenalina que Ollé que passa por nós. (Por Gabriela Wiener, do Peru, autora de Sexografias).

10. A fronteira, de Gloria Anzaldúa (1987)*

Sempre esquecemos que a América Latina não começa no rio Bravo, mas sim onde estão os bosques de New Hampshire e que os Estados Unidos são em número de falantes de espanhol o segundo país do mundo; aí vivem mais de de 60 milhões de falantes de espanhol. A maioria desses hispânicos é bilíngue, e talvez trilíngue, se considerarmos a convergência do espanhol e do inglês como o começo, talvez, de uma nova derivação do idioma. A que idioma pertence a frase “Se frizó la wata” (A água congelou) ou as palavras clecha, chorra, hyna, güacha, yonka, safo? Sobre esse idioma e desse idioma, escreve a poeta e ensaísta Gloria Anzaldúa, cuja obra Borderlands / A fronteira (1987) é um livro pouco lido em espanhol, embora muito mais rico e complexo do que, por exemplo, O labirinto da saudade, de Octavio Paz, que também fala da identidade híbrida dos mexicanos que vivem “do outro lado”. Borderlands / A fronteira é um ensaio híbrido, composto de múltiplas textualidades: poemas, citações em prosa, às vezes cheias de raiva, às vezes nostálgicas, às vezes cheias de humor. (Por Valeria Luiselli, do México, autora de A história dos meus dentes).

11. Viver entre línguas, de Sylvia Molloy (2016)

O que é escrever se não essa irrupção da experiência, aquele ir e vir entre línguas, esses cortes no tempo. O que é escrever se não esse dar conta musicalmente da experiência do exílio, da experiência da infância, da experiência do desejo. Molloy escreve esse sujeito impossível com essa identidade impossível que todos carregamos como o peso de um condenado. Viver entre línguas habita os desvios linguísticos, os efeitos catastróficos e paliativos dos que vivem múltiplas línguas a partir de sua intimidade, porque escrever é sempre algo vergonhoso (Honteux, diria Molloy?). Este livro e todo o trabalho de Molloy parece-me fundamental porque fornece um relato da escolha radical e definitiva que todo escritor deve fazer: em que idioma ele escreverá, onde verve toda a verdade e toda a falsidade da qual ele é capaz, onde sela o seu destino. Este livro, como se desarmasse um piano no meio de uma sonata para ver qual é o mistério, questiona como poderia ser que algo como palavras e fonemas, como é que estruturas gramaticais e neologismos nos permitem trazer de volta a os mortos e ter outra vez sete anos. (Por Ariana Harwicz, da Argentina, autora de Morra, Amor).

12. As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez (2016)

Recomendo porque acho a autora contemporânea mais original e sólida. Mariana leu tudo o que há para ler para ser professora daquele gênero em que se move com solvência, mas que, no seu caso, não é estritamente terror ou fantasia, mas o horror tão característico desta parte do mundo que – levado a um limite que às vezes é imperceptível – aterra em um território que foge à razão e é chamado de “sobrenatural”. Neste livro, existem histórias, cenários, personagens que consigo reconhecer mesmo quando tocam essa borda difusa. Para mim, Mariana é uma escritora extremamente realista que usa um gênero e uma linguagem que dominam perfeitamente para falar sobre tópicos muito próximos dela. Uma das virtudes que mais respeito em um escritor é usar seu ofício para explicar o tempo pelo qual transita, e Mariana faz isso fabulosamente. Sem atalhos, sem exagero, com sofisticação e simplicidade, ele nos fala sobre seu tempo, ou melhor ainda: ele nos fala sobre o estado mental de seu tempo. Por isso, merece um lugar privilegiado no cânone da literatura latino-americana atual e no de qualquer outra literatura. (Por Margarita García Robayo, da Colômbia, autora de Primera persona).

13. Mandíbula, de Mónica Ojeda (2018)*

Brecht diz que “quem ri ainda não ouviu as notícias terríveis”, e é por isso que no romance Mandíbula, de Mónica Ojeda, ninguém ri ou, pelo menos, ninguém faz isso sem mostrar dentes desonestos que brilham com ameaças . Ojeda tem presas nos olhos. Não é possível explicar de outra maneira uma maneira de ver o mundo – e escrevê-lo – tão cheio de intimidação. As personagens desse romance, larvas violentas de mulheres violentas, têm uma capacidade de rastejar que reside precisamente no fato de serem humanas e não monstros (ah, o monstro humano, senhor das criaturas daninhas e prejudiciais). Ojeda tem presas nas mãos. Não é possível explicar de outra maneira que ela se agarra a mais aterrorizante poesia: o sugerido, a névoa branca que esconde todas as perversidades, e o mistura com uma narrativa que, de Mary Shelley a Lovecraft, passando por Mariana Enriquez e Stephen King, já mostrou que esfaqueia onde deve esfaquear. O que é sugerido é mais assustador do que o que é visto e as fronteiras são sempre mais assustadoras do que os centros. Ojeda tem presas na boca e as usa de maneira brilhante. Rói pouco a pouco para não percebermos que, desde a epiderme, ela já passou para o músculo e atingiu o osso, a medula óssea, o suave do impenetrável: sua história de meninas de uma escola de elite fazendo e se fazendo mal em honra ao Deus Branco marca a carne como uma mordida. O culto que as meninas inventam, digo, e que acaba sendo terror sadomasoquista (incluindo o sequestro da professora), passará à história da literatura latino-americana como um de seus melhores romances de terror. (Por María Fernanda Ampuero, do Equador, autora de Pelea de gallos).

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N.T. Dos treze títulos apresentados, alguns deles não têm, até 2019, tradução para o português – são os identificados com asterisco e em tradução livre. No caso dos títulos das autoras das recomendações, utilizou-se sua obra mais recente publicada no Brasil e se preservou o título original para as que ainda não têm circulação por aqui.


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