Sete poemas de Mary Oliver em “Evidência” (2009)

 
 
Por Pedro Belo Clara
(Seleção e versões)
 
 
Mary Oliver. Foto: Molly Malone Cook


 
COM UM AGRADECIMENTO AO TICO-TICO, CUJA VOZ É TÃO DELICADA E HUMILDE
 
Não vivo feliz ou confortável
com a esperteza dos nossos tempos.
As conversas giram em torno de computadores,
as notícias são só sobre bombas e sangue.
Esta manhã, nos campos frescos,
vim a descobrir um ninho escondido.
Continha quatro ovos malhados, quentes.
Toquei-os.
Então, fui-me embora, delicadamente,
sentindo algo mais extraordinário
que toda a electricidade de Nova Iorque.   
 
 
 
UMA LIÇÃO DE JAMES WRIGHT¹
 
Se James Wright
pôde colocar no seu livro de poemas
uma página em branco
 
dedicada “Ao Cavalo David
Que Comeu Um Dos Meus Poemas”, estou pronta
a segui-lo ao longo
 
do doce caminho que abriu
através da aridez
e sugerir que agora te sentes
 
sossegadamente
em algum maravilhoso lugar selvagem, e escutes
o silêncio.
 
Digo eu ser isto, também,
um poema.
 
 
 
QUASE UMA CONVERSA
 
 
Ainda não conversei, de facto, com a lontra
                sobre a sua vida.
 
Tem tantos dentes, e problemas
                com as vogais.
 
Portanto, o nosso entendimento
                baseia-se todo na linguagem corporal –
 
ela nada como o peixe mais lustroso,
mergulha e exala e levanta um trilho de bolhinhas. 
Aos poucos, vai confiando no meu olhar
e no meu corpo, curioso, sentado na margem.
 
Por vezes, chega-se perto de mim.
Observo os seus bigodes
e o seu pêlo negro, que me faz querer morrer primeiro que o usar.
 
Não recorre às palavras, ainda assim é claro aquilo que me conta
                sobre a sua vida.
Não possui um computador.
Pensa que o rio durará para sempre.
Não inveja a casa seca em que habito.
Não se questiona sobre quem ou o quê eu idolatro.
Questiona-se, manhã após manhã, que o rio
é tão fresco e puro e vivo, e ainda
tardo eu em mergulhar.
 
 
 
ORAÇÃO
 
Que nunca deixe de ser galhofeira,
que nunca deixe de ser atrevida.
 
Que as minhas cinzas, quando as tiveres, amigo,
e ao oceano as deitares,
 
flutuem na espuma das ondas,
ainda amando o movimento,
 
ainda prontas, mais que tudo,
a dançar ao mundo.
 
 
 
SIM, MISTÉRIOS
 
É verdade, vivemos com mistérios demasiado maravilhosos
                para ser entendidos.
 
Como a erva pode ser nutritiva
                na boca dos cordeiros.
Como rios e pedras estão eternamente
                em aliança com a gravidade,
                               enquanto nós sonhamos com as alturas.
Como duas mãos se tocam, e os elos que criam
                jamais serão quebrados.
Como as pessoas vêm, do encanto ou das marcas
                das feridas,
para o conforto dum poema.
 
Deixa que mantenha à distância, sempre, aqueles
                que pensam ter todas as respostas.
 
Deixa que me rodeie sempre daqueles que dizem
                “Olha!” e riem deslumbrados,
                e curvam as suas cabeças.
 
 
 
NO RIO CLARION (1)
 
Não sei exactamente quem é Deus.
Mas isto direi.
Estava sentada num rio chamado Clarion, numa
                pedra salpicada pela água
e pela tarde fora fui escutando as vozes
                do rio.
Sempre que a água batia na pedra, esta tinha
                algo a dizer,
e a própria água também, e até os musgos,
                empurrados debaixo das águas. 
E lentamente, muito devagarinho, tornou-se claro para mim
                o que eles diziam.
O rio: Sou parte do sagrado.
E eu também, disse a pedra. Eu também, sussurrou
                o musgo debaixo de água.
 
Já tinha visitado o rio algumas vezes.
Não o culpo por nada ter acontecido, antes.
Não escutas vozes destas numa hora ou num dia.
Não as escutas de todo, se tiveres os ouvidos cheios de ti próprio.
É difícil escutar o que quer que seja, afinal, através
                do trânsito imenso, e da ambição.
 
 
 
NO RIO CLARION (4)
 
Alguém que amei envelheceu e ficou doente.
Vi as chamas apagarem-se, uma por uma.
Nada podia fazer
 
a não ser lembrar
que primeiro recebemos
e depois temos de devolver.


Ligações a esta post:
>>> Pedro Belo Clara apresentou outras duas seleções de poemas de Mary Oliver


Notas:
* Seleção e versões a partir dos originais antologiados em Devotions – The Selected Poems of Mary Oliver (Penguin Press, 2017)
 
1 James A. Wright (1927 – 1980) foi um poeta norte-americano natural do Ohio, igualmente o estado nativo de Mary Oliver. Filho de pais com educação quase básica, Wright desenvolveu uma relativamente longa e laureada carreira como poeta, tendo vencido o Pulitzer em 1972 (assim como o seu filho, também poeta, em 2004, sendo a primeira e única vez que pai e filho venceram o mesmo prémio). O seu trabalho posicionou-o num movimento de ruptura em relação às tendências mais em voga na época, desenvolvidas pela famigerada Geração Beat e pela notória Escola de Nova Iorque. Tecnicamente um inovador, com verso livre de expressão forte e profunda, de grande enfoque na imagem, bebendo de influências neo-surrealistas, Wright tornou-se num dos mais emblemáticos membros do género Deep Image, livremente traduzido por “Imagem Profunda”. Por mais de vinte e cinco anos existiu na sua terra natal um festival de poesia em honra da memória e legado do poeta.

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