Destaques em projetos editoriais 2021

 

Projeto de Beatriz Lamego para a Fotobiografia de João Cabral de Melo Neto.


 
A vida em imagens do poeta avesso ao exibicionismo
Talvez João Cabral de Melo Neto tenha sempre desejado alguma vez a paz definitiva, o distanciamento do bulício da vida. Ou talvez tenha vivido no dilema entre uma coisa e outra. Mais pelo trabalho como diplomata que o ofício de poeta, ainda que este tenha sido reconhecido de variada forma em vida, seus passos foram bem registrados; na intimidade do lar contava com uma paparazzi especial: a companheira Stella Maria Barbosa de Oliveira se interessava muito pelo registro fotográfico como se, no desejo de todo fotógrafo, pudesse guardar o instante e projetá-lo para a memória futura. O resultado disso é um arquivo riquíssimo que foi em parte devassado pelo também poeta Eucanaã Ferraz e pela pesquisadora Valéria Lamego. Um feito valiosíssimo que se soma a outro: a biografia escrita por Ivan Marques e publicada pela editora Todavia — dois acontecimentos que poderiam ter chegado aos leitores no ano do centenário. Os materiais reunidos na Fotobiografia ao mesmo tempo que refaz alguns dos lugares mais ou menos conhecidos da biografia de Cabral — como seu interesse pela tauromaquia, pela pintura imaginativa de Joan Miró, pela arte da imprensa, pela vida espanhola ou pelo Recife nunca deixado fora da memória do poeta — e mostra ainda outros possíveis caminhos para uma leitura mesmo da obra cabralina, como seu interesse por Marianne Moore. Poemas, cartas, entrevistas, registros inéditos e mais coisas formam esse museu de tudo. Um dos trabalhos mais bonitos editados pela Verso Brasil, casa que já cumpriu outros projetos belíssimos envolvendo João Cabral. 
 
Uma nova tradução e edição para uma das peças consideradas marco do modernismo
Entre nós já circulava uma tradução de Ubu rei, a mesma que volta às livrarias em 2022. Mas, a editora que leva o nome em homenagem ao livro de Alfred Jarry, assinalando sua primeira dentição, coloca em circulação outra tradução com seus conhecidos formatos caprichados. Em capa dura, a nova edição da peça teve projeto gráfico de Elaine Ramos. Entre as páginas, lâminas interpostas com manuscritos e reproduções de artistas de vanguarda, como Dora Maar, Miró, Lina Bo Bardi, Max Ernst, Picasso e Raymond Savignac em diálogo e ampliando a experiência de leitura. A peça de 1888 vem acompanhada ainda por uma rica e diversa fortuna crítica que inclui textos de nomes como Firmin Gémier (ator da primeira encenação), Guillaume Apollinaire, Michel Foucault, Otto Maria Carpeaux e escritos do próprio Jarry. 
 
O ponto final no longo projeto de reedição da poesia completa de Max Martins
Foi em 2015 que o também poeta Age de Carvalho iniciou junto com Edufpa a reedição da  obra completa de Max Martins. Seis anos depois, o trabalho ganhou o ponto final com um livro reunindo vários inéditos e materiais de espólio: Say it (over and over again). O feito é importante, primeiro por conseguir a essa altura de aridez do mercado editorial para projetos de publicação de poesia, além é claro da maneira como se concretizou toda a ideia: alheio à moda da biblioteca completa num só livro ou de uma simples antologia, vimos a obra se fazer livro a livro — O estranhoColmando a Lacuna, e Caminho de Marahu em 2015; se H'EraO risco subscritoA fala entre parêntesis (com Age de Carvalho) e Para ter onde ir em 2016; Anti-retrato60/ 35 e Marahu poemas em 2018. E cada um dos títulos reúne ainda prefácios inéditos e registro biobibliográfico; todos em capa dura revestida em linho com sobrecapa desenhada a partir de fotografias do poeta feitas por Béla Borsodi. Ah, o projeto gráfico é do próprio Age de Carvalho.

Uma reedição à altura de um clássico
Esta a terceira vez que a Ateliê Editorial reedita uma de suas joias no catálogo de clássicos comentados — uma biblioteca para amantes do livro com uma biblioteca fixa. Sim, as dimensões de alguns livros da coleção fazem deles célebres presenças no rol dos livros incômodos. Por exemplo, a Divina comédia, obra em questão, dispõe de 560 páginas no formato 28 X 38 e pesa quatro quilos. O que mais faz desse projeto editorial ocupar os grandes feitos editoriais de um ano ainda mais difícil para a edição no Brasil? A tradução de João Trentino Ziller, publicada originalmente em 1953 e cuidadosamente revista e atualizada, é até agora uma das melhores segundo os entendidos no assunto. Esse trabalho, de uma vida do tradutor, se completa com um prefácio de João Adolfo Hansen, um vasto conjunto de anotações e as ilustrações de Sandro Botticelli perdidas durante séculos e identificadas somente na década de 1980. Outro detalhe é a variada forma encontrada pelo projetista para reproduzir na impressão os motivos visuais sugeridos pelo célebre poema; sobre isso, Henrique Piccinato Xavier, autor do designer do livro também escreve explicando a ideia.
 
O aparecimento da estética pau de arara  
Os projetos editoriais da Grafatório articulam criatividade, artesania e tratamento individual ao objeto livro. É da casa paranaense o trabalho inovador para o ensaio autobiográfico de Jotabê Medeiros, O último pau de arara; sim, o mesmo jornalista autor de alguns ensaios biográficos mais comentados dos últimos anos, como Belchior, Roberto Carlos e Raul Seixas. O livro, além de recriar a partida da família de nordestinos para o norte do Paraná, revisita um passado recente na história de brasileiros em busca de seu lugar de sobrevivência. Para traduzir esse conteúdo, o livro de tiragem limitada feita artesanalmente teve capa impressa em serigrafia sobre lona de caminhão e ilustrações originais em xilogravura feitas por Luis Matuto e impressas individualmente em cada exemplar.

 
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