Os melhores de 2021: prosa



— Debaixo do vulcão, de Malcolm Lowry (Alfaguara Brasil)
O motivo para o enredo é simples, os caminhos e o aprofundamento formam a qualidade constitutiva de todo bom romance. Chama atenção como Malcolm Lowry manipula os mais variados campos da língua e da linguagem para elaboração da sua obra. Para um tempo feito de simplificações gratuitas, sempre amparadas na falsa ideia de transparência da linguagem, o contato com uma escrita com domínio profundo dos seus muitos meandros, alarga nossa experiência com a língua e com o mundo, isto é, cumpre a obra mais que o falado efeito estético e, o mais caro para os dias atuais, não se submete ao veneno raso da ideologia. É notável que um romance sobre o fracasso não seja um fracasso. 
 
— Faça-se você mesmo, de Enzo Maqueira (PontoEdita)
Numa altura quando as mais variadas possibilidades de criação ficcional já foram colocadas em prática — do zelo excessivo com o fabular ao seu apagamento — ainda encontrar um romance capaz de nos oferecer qualquer lance de renovação é talvez a melhor surpresa que os leitores mais atentos buscam numa obra. Enzo Maqueira, como outros da sua geração, reafirma a vitalidade da forma romanesca.
 
— Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral (HarperCollins Brasil)
O maior dos desafios neste romance se divide noutros três, mais estreitados com a obra que com o fazer literário: expor uma história pelo ponto de vista do culpado sem se perder em oferecer uma leitura predominante do acontecido (mesmo que isso se imponha como armadilha); despertar o interesse por uma história sobre a qual sabemos seu desfecho; transformar um episódio de horror num objeto poético, sem, é claro, se desviar do horror. Por isso, este romance se fixa como peça que ao invés de dizer, amplia os já-ditos, expansão indispensável e necessária à memória, neste caso, a de como ainda dobramos totalmente (e não dobraremos) o tênue limite que nos faz, simultaneamente, bichos e humanos. 
 
— O último gozo do mundo, de Bernardo Carvalho (Companhia das Letras)
De todos os temas tocados por este romance prevalece o da memória — talvez porque seja o único fio com o qual podemos cerzir o tempo, entender seus volteios e imaginar o de fora. Esta é uma das tentativas do escritor com este romance: pensar o de fora, fundar outro papel para as dicotomias. Uma dimensão, diríamos, ética, para o limite dos impasses que atravessamos enquanto civilização. Resulta improvável pensar noutro mundo se continuamos presos ao trabalho de desconstruir — em grande parte pela negação pura e simples do passado ou a retomada do que pareceu a formação de um destino grandioso — sem a proposição de um possível conciliador, porque o avesso da ignorância não é a inteligência, é outra vez a ignorância. E isso, sim, tem sido tarefa incansável da literatura desde sempre. 
 
— Ada ou ardor, de Vladimir Nabokov (Alfaguara Brasil)
Um romance feito de reapropriações dos modelos romanescos do século XIX e do romance libertino aqui recuperado pela desfiguração, como modelo e como expressão própria. O mesmo gesto praticado com os modelos sociais e ideológicos dominantes. Ao desfigurar, pela diminuição ou pelo exagero, os costumes e todo um sistema social, o romancista oferece uma visão irrisória do contexto com o qual dialoga. Esse deslocamento constitui um esquema que diz sobre a degradação desse sistema ou mesmo do indivíduo não como sintoma do tempo vigente e os valores do presente não como empobrecidos em relação ao passado. Ao império da totalidade, do sujeito autocentrado, da tradição como modelo permanente, o romance abre-se para a mundanidade e esclarece que os tais desígnios de unidade são em parte subterfúgios para disfarçar o que se estabelece como degeneração. Do mesmo modo, demove o que se faz condenável da marginalidade imposta. 
 
— Desvio, de Juan Francisco Moretti (PontoEdita)
Este romance do escritor argentino oferece uma cartografia da violência; o tempo não é Cronos devorando impiedosamente seus filhos, mas seus filhos numa infinita selvageria. Os episódios que povoam boa parte do romance, por sua vez, constatam que é a nossa brutalidade, essa fúria primitiva, o que nos orienta e isso a que passamos chamar por condição humana é produto de um contínuo flagelo de docilização e imbecilização dos corpos. Essa domesticação das forças é, portanto, um desvio. Naturalmente somos maus, rudes, instintivos e bárbaros, logo, qualquer motivo pode nos arrastar outra vez para fora da civilização. Ou melhor, talvez isso a que chamamos civilização seja outro tipo de barbárie, pior, porque muitas vezes institucionalizada, regida pelos princípios legais de funcionamento dos aparelhos burocráticos. 
 
— Senhores do orvalho, de Jacques Roumain (Carambaia)
A narrativa aqui segue tão de perto os dramas das suas personagens que o narrador em terceira pessoa flutua proposital e constantemente para a primeira deixando-se penetrar pelas vozes de seus atores. Bem executada, é o caso aqui, essa variante agrega valor àqueles elementos que fazem desse, um romance moderno. Mas, a pura identificação, torna-se um incômodo porque aposta ― algo que nunca um escritor deve cometer ― na ingenuidade do leitor. Esse romance não apenas documenta o instante já vencido da história da utopia. Em tempos de investidas opressoras, que nunca deixaram de existir, é importante que possamos, mesmo pela ficção, restabelecer a certeza sobre a variável dos poderes. Outra coisa indispensável, a utopia deve sempre nos impulsionar para fora do sonho. E agora que sabemos da ausência de seu lugar ― toda vez que dele nos aproximamos, como uma miragem, ela se move ― é fundamental entender que a vida se é feita de luta, sem isso a vida não tem gosto, a vida não tem sentido. 
 
— O som do rugido da onça, de Micheliny Verunschk (Companhia das Letras)
Este é o quinto romance na carreira literária de uma escritora que transita muito bem entre as principais possibilidades da literatura; nele, revisita a história do Brasil colonial a partir de duas aquarelas, a de duas crianças indígenas que foram levadas daqui para a Alemanha, algo corriqueiro numa época em que as prendas eram produtos exclusivo das conquistas dos exploradores. Essa triste marca da colonização, de objetificação das criaturas, se manteve recorrente: até os anos setenta do século XX, por exemplo, portugueses levaram de África crianças pretas como troféu dos seus empreendimentos. A partir da história de Iñe-e e Juri, um menino e uma menina levados pelos alemães Spix e Martius, o romance de Verunschk explora mais esse terrível lacuna ou circunstância de um tempo cujas marcas nunca deixarão de sangrar.
 
— Nem todas as baleias voam, de Afonso Cruz (Dublinense)
Este é um romance feito de muitas e pequenas minúcias. Requer um leitor ruminante, interessado não apenas em encaixar peças para alcançar a ordem da narrativa mas em observar pequenos gestos, episódios e explorar camadas mais profundas que a superfície. Quer dizer, estamos diante de um daqueles romances que o seu melhor está em duas qualidades essenciais a toda obra romanesca que queira se destacar na era da técnica. Todo jogo é técnica, mas as maneiras de jogar, ao menos na ficção, são variáveis. Mas também essas dependem do proponente da peça: é dele as atividades inventiva e imaginativa. 
— Sol artificial, J. P. Zooey (DBA Editora)
É quase comum que a literatura trate de nosso destino ou seduzida por certo apanágio da tecnologia ou receosa de que esta se arme contra nós. Em Sol artificial, as imagens de um apocalipse são apenas entrevistas; suas personagens atravessam um instante de descoberta sobre a falibilidade da biotecnocibernética nos rumos de uma posição melhor da humanidade, simplesmente porque esse que não é apenas o designativo de um grupo mas uma qualidade sua começa a esvanecer. Este é um livro estimulante, situado fora das margens do que designamos como centro da literatura, seja pelo hibridismo dos tecidos textuais, seja pela autenticidade como provoca outras possibilidades de confrontarmos o mundo em curso. 
 
— Autobiografia, de José Luís Peixoto (Companhia das Letras)
Reiteradas vezes, José Saramago descreveu a literatura como incapaz de salvar o mundo, mas este livro de José Luís Peixoto está repleto de milagres propiciados exclusivamente pela literatura: é graças ao encontro com a obra saramaguiana que o protagonista desse romance refaz o seu caminho de marginal. E, por conta própria, poderíamos acrescentar que, graças a Saramago, José Luís Peixoto fez-se para além das fronteiras de seu país e pode escrever um romance que refigura-o e é, de alguma maneira, uma leitura muito coerente sobre a vida enquanto tomada de decisões — sim, todas as personagens aqui atravessam essa posição de deixar o aparente estável mas abusivo por uma condição de realizadas subjetivamente.
 
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Comentários

Luís Fagner disse…
Acho que as escolhas poderiam ser mais democráticas. Há muito livro de uma mesma editora. De dez autores só uma mulher. Fica a dica.

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