Risque esta palavra, de Ana Martins Marques

Por Pedro Fernandes

Ana Martins Marques. Foto: Mauro Figa.


 
O livro de estreia de Ana Martins Marques, A vida submarina, demonstra uma poeta ciosa do seu ofício. Poderá parecer lugar-comum a afirmativa, mas só agora, com um olho na obra em curso e o outro no título de 2009 reeditado uma década depois é que melhor conseguimos compreendê-la. Esqueçamos a inegável ansiedade pela palavra e a irregularidade do livro. Inegável porque visível nas dimensões que escapam à convencional brevidade de peças do tipo — A vida submarina é um livro robusto — e irregular porque feito do uso de múltiplas técnicas composicionais. Essas características são agora parte de um trabalho que se torna uma referência indispensável a quem se interessar por compreender melhor o funcionamento do universo poético estabelecido pela poeta.
 
Em Risque esta palavra — um título que instaura o paradoxo de afirmação do poema pela negação da palavra — descobrimos um livro que repara muitos dos interesses manifestados em A vida submarina e mantidos em Da arte das armadilhas ou em O livro das semelhanças. Reparar significa dizer que as formas e os temas não se fazem puras recorrências, mas muitas vezes, pontos de inflexão ou mesmo de expansão: o esteio da obra se abre para abrigar novos interesses. Uma artesania fundamental e indispensável a todo trabalho literário. Sabemos quão medíocre é o criador que insiste em fazer da sua obra uma construção por sobre um modelo que o fez distinto entre os demais. E até agora, a poeta mineira se distancia disso.  
 
O cotidiano, a metapoesia, as tentativas de reabitar o mundo com mundos próprios derivados por coisas e circunstâncias daquele, o contato com o mundo clássico e com outras vozes dentro e fora da poesia, tudo isso, reaparece no livro de 2021. Também se reiteram o tratamento meditativo e questionador, este último, notável principalmente na seção “Parar de fumar”, em que a atitude descrita pelo enunciado se desenvolve entre certo saudosismo (“Despeço-me / de um jeito meu / que eu tinha // interrompo uma tarefa / a que fui longo fiel // era algo que eu fazia / relativamente bem”), derivando-se enquanto celebração, e testamento sobre uma modificação dos gestos sociais.
 
Mas, podemos destacar o encontro com uma poeta interessada em desautomatizar certas compreensões do poema (e, por conseguinte, da poesia). É comum, por exemplo, por um certo resquício do purismo das formas, se dizer que o poema não é (ou não deve se portar como) uma prosa feita em versos. Ou que um verso não é puramente um corte na suposta linearidade da escrita. Há outros poemas que chamaríamos provocativos nesse sentido, como, também da seção sobre a qual falávamos, o belíssimo “Uma foto de Wislawa Szymborska”, mas em dois, esse impasse se situa desde o título: “Prosa (I)” e “Prosa (II)”. E são poemas situados propositalmente numa parte de Risque esta palavra que chamaríamos metapoética: “Noções de linguística”. São poemas naturalmente extensos e com frases propositalmente marcadas pelo corte irregular e abrupto:
 
Num ensaio sobre Marina Tsvetáieva
Joseph Brodsky diz
que ninguém sabe o que perde a poesia
quando um poeta se volta para a prosa
mas é certo que a prosa
ganha muito
Afinal a poesia
— a imagem também é de Brodsky — é aviação
e a prosa, infantaria
 
Numa entrevista
João Cabral de Melo Neto diz
que a poesia tem alguma coisa de laboratório
— é como se a literatura fosse uma fábrica — ele diz
— que produz romances, contos, ensaios
mas tem um laboratório onde se faz pesquisa
para todas essas coisas — esse laboratório
é a poesia
 
Esses dois segmentos são do primeiro poema e o tom prosaico é acentuado ainda mais porque o eu-poético assume abertamente a expressão do discurso acadêmico — performa a dicção de um texto acadêmico; e na segunda parte do excerto citado, a referência a João Cabral de Melo Neto amplia ainda mais o tom provocativo — basta recordarmos que se o poeta pernambucano se colocou sempre na postura de um ferrenho crítico do aspecto sentimental, roçando as vias de quase uma negação do lirismo (ou pelo menos de um certo tipo de lirismo) fez do poema uma estrutura arquitetonicamente projetada a fim de impedir qualquer tipo de derramamento ou infiltração de outro gênero que não a poesia.
 
Os encaminhamentos desses dois parágrafos fragmentados recaem numa passagem que nega o que acabamos de ler como um poema: “Tudo isso foi dito em prosa”, finda o texto. Uma afirmativa peremptória que nos empurra para duas posições conflitantes: se lida como uma ironia, o endosso da diferenciação corrente entre prosa e poesia; se apenas como um arremate conclusivo do poema, a negativa dessa distinção. Sabemos, por fim, que não se opera um jogo de ou-ou: o poema encerra as duas possibilidades.



No segundo poema, se recupera o impasse de Roberto Bolaño entre a poesia e a prosa. É conhecido o interesse do escritor chileno desde sempre em construir sua carreira literária como poeta e ser reconhecido como tal — sua traição a esse princípio teria sido primeiro casual e depois parte de um instinto de sobrevivência: a prosa permitiu-lhe o reconhecimento e algum sustento na lida com a escrita. Mas nunca deixou de escrever poesia. Ao investigar esse dilema, “Prosa (II)”, assim se conclui:
É possível que os poemas sobrevivam
como fantasmas de poemas
assombrando os romances
 
Alguns talvez creiam
que o prosador ofuscou o poeta
fracassado
 
Ou o fracasso da poesia
infiltrou-se em sua prosa
como um mendigo
numa festa
um mergulhador
num lago
um cão
num teatro?
 
É notável que, se o primeiro poema finda com uma sentença traiçoeira, quase uma zombaria acerca do impasse entre prosa e poesia e zelando por uma indecibilidade das formas pela própria forma, no segundo é o próprio texto testemunha do eventual fracasso que se opera pela infiltração da prosa na poesia ou o contrário, embora contraditoriamente o exemplo oferecido seja o de um escritor que se fez reconhecido como romancista inculcado com a ideia de ser poeta.
 
Uma leitura redutora diria que os dois poemas são uma blague. Mas se assim o lemos, sua prática é a do deslocamento do impasse entre prosa e poesia do lugar meramente formal para compreender na própria feitura do poema essas distinções como obviedades que não respondem definitivamente por um conceito inviolável do que é a prosa e a poesia. Quando a mão do criador não é apenas oculta por uma lente de miopia, o caso se desloca para outras determinantes, como o apuro verbal mais que o técnico-formal.
 
Não há prosa que seja marcada pela poesia. O contrário também é verdadeiro. Nos domínios da linguagem, nada reluz nítida e cristalinamente, porque o princípio elementar é que o sentido sempre se mostra por aproximação jamais tal e qual. A partir dessa descoberta tão antiga quanto a própria noção de poesia, o poema se situa numa região que designaríamos, parte alguma, repetindo textualmente o exame da poeta em todos os poemas da seção “Noções de linguística”; sendo o que nos constitui — “em breve a língua será a mãe / mais do que você é a mãe” —, é o que nos destitui — “toda língua é estrangeira”. A poesia nunca é a certeza das coisas. E toda certeza ou é vã ou é questionável. A natureza da poesia é, como a da palavra, o impasse: entre a palavra e o que ela nomeia; entre o que se diz e o que se traduz; entre o que se afirma e o que se nega; etc.
 
O impasse, o neutro, a indecibilidade, o não-lugar formam, assim, o ponto referencial ou nodal de Risque esta palavra. Ao dizer isso, descobrimos a aporia visível desde o título: como riscar a palavra se com ela nomeamos o mundo e é a palavra o instrumento essencial ao poema? Ou seja, o poema é notoriamente um objeto informe porque fixado no interior do dilema da própria linguagem: dizer o mundo mas não alcançá-lo, visto que, tudo o que se nomeia é convencionado por cada sistema linguístico e mesmo no interior deste padece de variabilidades sempre distintas. Sorte que se riscar pode significar apagar, banir, cortar, desfazer, excluir etc. também pode significar destacar, iluminar (riscar o fósforo). Este livro de Ana Martins Marques opera justamente com o que para uns é uma crise da palavra e para ela é matéria indispensável ao poeta.

 

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