Literatura e história: entremeios

 
Por Guilherme Mazzafera

Ilustração: Martin Jarry.



A suposta concretude e acessibilidade dos meios históricos, estes contextos dos textos examinados por estudiosos da literatura, são elas próprias produtos da capacidade fictícia dos historiadores que estudaram estes contextos. Os documentos históricos não são menos opacos do que os textos estudados pelo crítico literário.

O real, na ficção, é sempre uma questão de crença – cabe a nós como leitores validar e confirmar. É uma crença que nos é exigida e que podemos recusar a qualquer momento.  A ficção se desloca na sombra da dúvida, sabe que é uma mentira verdadeira, sabe que a qualquer momento os seus argumentos podem falhar.

A ficção é um sucedâneo transitório da vida. O regresso à realidade é sempre um empobrecimento brutal: a comprovação de que somos menos do que sonhamos. Entender, tal como ver, é captar isto sempre em relação àquilo. Navegamos por meio da acumulação de experiências, mas nossa jornada pode estagnar devido a nosso peso.

O verdadeiro escritor, aquele livre servidor da vida, precisa sempre agir como se a vida fosse uma categoria mais além de qualquer coisa já captada pelo romance, como se a própria vida sempre estivesse à beira de se tornar convencional. Tudo quanto não for vida, é literatura.

A distinção mais antiga entre ficção e história, na qual a ficção é concebida como a representação do imaginável e a história como a representação do verdadeiro, deve dar lugar ao reconhecimento de que só podemos conhecer o real comparando-o ou equiparando-o ao imaginável. Entendemos o novo nos termos do conhecido.

Na realidade, a história – o mundo real ao longo de sua evolução no tempo – adquire sentido da mesma forma que o poeta ou o romancista tentam provê-lo de sentido, isto é, conferindo ao que originariamente se configura problemático e obscuro o aspecto de uma forma reconhecível, porque familiar. Pensar em termos históricos significa atribuir poder real aos conteúdos de nossas histórias imaginárias.

Os homens não vivem só de verdades; também lhes fazem falta as mentiras: as que inventam livremente, não as que lhes são impostas. A tarefa do poeta não é a de dizer o que de fato ocorreu, mas o que é possível e poderia ter ocorrido segundo a verossimilhança e a necessidade. Só se inventa o que ainda não existe. E se inventa porque, conscientemente ou não, uma necessidade imperiosa o exigia.

A invenção do presente dependeria, acima de tudo, da possibilidade duma reinvenção do passado, isto é, de um reexame, de uma reordenação, de uma reavaliação dos fatos pregressos, como condição, inclusive, do futuro. A ‘coerência total’ de qualquer ‘série’ determinada de fatos históricos é a coerência da história, mas essa coerência só é alcançada mediante uma adaptação dos ‘fatos’ às exigências da forma da estória. As descrições dos eventos já constituem interpretações de sua natureza.

À história, digamo-lo assim, autoriza-se o ilogismo de tomar uma parte pelo todo e comete a proeza de fazer-se aceitar – assim está escrito e portanto passou a ser verdade –, pelo menos nos seus traços gerais, como indiscutível e inabalável. Na imaginação as nossas próprias crenças são simples possibilidades, e ainda enxergamos as possibilidades das crenças alheias.

Não podemos andar com os pés de outro nem ver pelos olhos do outro, sempre existirá um abismo entre nós (e esta separação é necessária): fragmentos só, imagens insensatas aonde a luz não chega, indevassáveis até para os narradores. O que produz a tolerância é o poder do distanciamento imaginativo, que nos permite tirar as coisas do alcance da ação e da crença. A indignação diante das histórias da História é o que move toda a ficção literária (e, em sentido mais lato, toda a obra de arte). Sua dialética é a da criação literária, em que a negação não desemboca numa síntese positiva, mas desencadeia a lógica subversiva dos possíveis.

A literatura não reflete a vida, mas também não escapa ou se retira dela: engole-a. E a imaginação não para enquanto não engolir tudo. O que quer dizer que, ao mesmo tempo que aplacam transitoriamente a insatisfação humana, as ficções também a açulam, esporeando os desejos e a imaginação. Seu ofício não é descrever a natureza, mas nos mostrar um mundo completamente absorvido e possuído pela mente humana. Elas se escrevem e se leem para que os seres humanos tenham as vidas que não se resignam a não ter.

No embrião de todo romance bule uma inconformidade, pulsa um desejo insatisfeito. Todo romance é isso, desespero, intento frustrado de que o passado não seja coisa definitivamente perdida. Só não se acabou ainda de averiguar se é o romance que impede o homem de esquecer-se, ou se é a impossibilidade do esquecimento que leva o homem a escrever romances.
 
[Nota: o texto acima pode ser lido de diversas maneiras: uma montagem, remix ou mash-up de excertos; páginas arrancadas com propósito de um commonplace book e recombinadas ao gosto do freguês; a fanfic fragmentada do esboço de uma aula; ou, porventura, um itinerário possível sobre o tema enunciado no título. Com exceção do título e dos excertos de Llosa, que traduzi, nenhuma palavra é minha, mas dos autores e tradutores listados abaixo:
 
ARISTÓTELES. Poética. Tradução de Paulo Pinheiro. São Paulo: Editora 34, 2015.
HARARI, Yuval Noah. Homo Deus: uma breve história do amanhã. Tradução de Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
FRYE, Northrop. A imaginação educada. Tradução de Ariel Teixeira, Bruno Geraidine e Cristiano Gomes. Vide editorial, 2017.
LLOSA, Mario Vargas. La verdade de las mentiras: ensayos sobre la novela moderna. Alfaguara, 2002.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. O Evangelho segundo Saramago. In: BERRINI, Beatriz (Org.). José Saramago: uma homenagem. São Paulo: EDUC, 1999.
SARAMAGO, José. Sobre a invenção do presente. Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, 28 fev. 1989 p. 45.
SARAMAGO, José. História do cerco de Lisboa. São Paulo: Companhia de Bolso, 2011.
SOUSANIS, Nick. Desaplanar. Tradução de Érico Assis. São Paulo: Veneta, 2017.
WHITE, Hayden. O texto histórico como artefato literário. In: Trópicos do discurso. Ensaios sobre a crítica da cultura. Tradução de Alípio Correia de Franca Neto; São Paulo: Edusp, 2014.
WOOD, James. Como funciona a ficção. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: SESI-SP editora, 2017.
WOOD, James. A coisa mais próxima da vida. Tradução de Célia Euvaldo. São Paulo: SESI-SP editora, 2017.
 
Invoco aqui a aura (ou sua ausência) do autor-curador: escritor que não escreve, tal como minuciosamente analisado por Leonardo Villa-Forte (Escrever sem escrever: literatura e apropriação no século XXI, Relicário, 2019). Ao que liga, tensiona ou oblitera as partes deste improvável todo, deixo a ti, leitor, o prazer de palmilhar, cerzir e recompor.]
 

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