Boletim Letras 360º #424

DO EDITOR
 
1. Saudações, caro leitor! Repasso o lembrete que deixamos em edições anteriores deste Boletim: as vendas de alguns livros da biblioteca do Letras para cobrir as despesas de hospedagem do blog online estão abertas. O bazar no nosso Facebook acontece anualmente. Veja se é possível a ajudar. A simples partilha e divulgação é já muito importante. Aqui. Caso não disponha de conta nessa rede social, pode escrever a blogletras@yahoo.com.br

2. Abaixo, o leitor encontra notícias apresentadas durante a semana na página do blog no Facebook e o conteúdo das demais seções de leitura criadas em momento posterior à existência deste Boletim.
 
3. Reitero os agradecimentos pela companhia do nosso trabalho. Espero que você esteja, dentro do possível são e seguro. Boas leituras!

Paul Celan. Foto: Renate von Mangoldt. Um dos mais importantes livros do poeta ganha tradução no Brasil.


 
LANÇAMENTOS

Dom Quixote visto pelos artistas brasileiros Portinari e Drummond.

Miguel de Cervantes, Cândido Portinari e Carlos Drummond de Andrade juntam-se ao trabalho violonista Norberto Macedo no Dom Quixote visto pelos artistas brasileiros Portinari e Drummond. A obra recupera parte de outro livro — D. Quixote: Cervantes, Portinari, Drummond, lançado em 1973 pela editora José Olympio. A versão que sai agora é bilíngue (português e espanhol) e amparada em um projeto gráfico moderno que inclui QR Code capaz de levar o leitor ao álbum “Suíte Dom Quixote”. Inspirado no texto de Cervantes, nos desenhos de Portinari e nos poemas de Drummond, o tema musical foi composto por Norberto Macedo. Portinari já estava no fim da vida e sofria com a intoxicação causada pelas tintas que o acabaria matando quando recebeu, do editor José Olympio, a encomenda para ilustrar a segunda edição da primeira tradução brasileira de Dom Quixote de La Mancha. Os desenhos começaram a ser feitos em 1956 e, como não podia usar pincel, Portinari retratou o “cavaleiro da triste figura” com lápis de cor. O resultado das 21 ilustrações ficou tão impactante que motivou Carlos Drummond de Andrade a fazer um poema para cada uma delas. Para o poeta, o “Quixote portinariano enche de felicidade os olhos que o contemplam”. O livro só foi editado no final de 1972, depois da morte do artista. O livro agora publicado é parte do projeto Diálogo Cultural Brasil-Espanha. Além do livro, estão previstas duas exposições, um seminário internacional, palestras e oficinas para estudantes da rede pública de ensino. Devido à pandemia, contudo, ainda não há data definida para sequência da iniciativa. Ao todo, dois mil exemplares do livro serão disponibilizados, dos quais 1,6 mil de forma gratuita para bibliotecas, museus e instituições culturais do Brasil. O projeto é organizado pela Associação Céu de Capricórnio, Projeto Portinari, Instituto Cervantes do Rio de Janeiro e Museus Castro Maya.

Depois do sucesso de Os postais catastróficos, semifinalista do Prêmio Jabuti 2019, Ismar Tirelli Neto apresenta agora seu novo trabalho em livro, Alguns dias violentos, cuja ideia já havia aparecido brevemente em formato de plaquete em 2014.

Nessa nova coletânea, que mantém o ritmo do autor entre a poesia e prosa poética, o poeta debruça-se sobre a sensação do fim-de-mundo, já tão comum entre os poetas dos nossos anos 20, mas com a roupagem do estranho cotidiano que acompanha sua trajetória na escrita. Enquanto trabalhava os ajustes finais do livro, Ismar Tirelli Neto, no blog do IMS, apontou: “Penso que o fim do mundo é uma espécie de morada, que também ele tem a sua domesticidade, que também ele pode abrir-se para uma cena íntima. Ou então, que a nossa intimidade pode ser apresentada, dentre uma infinidade de coisas, como um mundo em vias de acabar. É este tipo de tensão que me interessa e que busco trabalhar”. E é justamente essa domesticidade do fim que acompanhamos na linha narrativa apresentada no livro. Trazendo cenas extraídas de situações corriqueiras e banais, como um encontro num saguão de hotel, por exemplo, Ismar desenha uma história a partir de vozes entrecortadas e desiludidas, feito um exímio curador que apresenta aos espectadores trechos de antigas fitas de filmes clássicos. Tal experiência dá a ver a construção de uma estética que funciona como pano de fundo de todo o livro, essa que consegue maximizar as dimensões das cenas mais simples a partir de um impressionante apuro técnico da linguagem. Ao contrário das sensações e da forma de encarar o mundo como são apresentadas, os poemas deste livro não se resumem ao ambiente doméstico. Há as cidades, as ruas das cidades, muitas cidades em Alguns dias violentos, e vem delas a sensação de cansaço presente nas peças, principalmente na que abre a obra, na voz de um oficiante esgotado, “Moído de mastigar cidades”. E esses lugares, longe de se permitirem como uma mimese exata do mundo, se parecem cada vez menos com o que são, ao se mostrarem mais como foram na memória e, principalmente, como poderiam ter sido. A sensação de desamparo, junto do olhar crítico e cirúrgico da vida, parecem vir carregadas de uma sina irreversível de pertencimento. É o que denuncia o movimento-síntese do poema “Os irreconhecíveis”, em que lemos: “E o desejo / A deformar todas as cidades / Naquela em que nasci.” O livro é publicado pelas Edições Macondo.
 
Uma preciosidade do trabalho de Sílvio Romero em nova edição.

Cantos populares do Brasil foi publicado pela primeira vez em Lisboa, no ano de 1883, e é composto de cantos coletados principalmente por Sílvio Romero, nos estados de Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Bahia e Rio de Janeiro. A obra se divide em três séries: Romances e Xácaras (canções narrativas de origem portuguesa), Reinados e Cheganças (conjunto de peças dramáticas como autos e janeiras) e, por fim, Versos gerais. O livro é publicado pela editora Principis.
 
Um dos principais livros de Paul Celan ganha tradução pela primeira vez no Brasil.

A rosa de ninguém (1963) é um dos principais livros de Paul Celan, escritor cuja vida e obra foram profundamente marcadas pela experiência da Shoah e que é hoje reconhecido como um dos poetas mais importantes de língua alemã. Dois fatos foram determinantes para a escrita do livro: uma campanha difamatória de caráter antissemita promovida então contra Celan, e sua descoberta do poeta russo, também judeu, Óssip Mandelstam (a quem a obra é dedicada), com o qual sente uma identificação plena. Em seu discurso de agradecimento pelo Prêmio de Literatura da Cidade de Bremen, em 1958, pouco antes de começar a trabalhar no livro, Celan diz que, em meio a todas as perdas que sofreu, a língua foi a única coisa que não se perdeu: “Mas ela teve de atravessar sua própria falta de resposta, teve de atravessar um emudecimento terrível, teve de atravessar as trevas sem fim do discurso mortífero. Fez essas travessias e pôde voltar à tona, ‘enriquecida’ por tudo isso”. É nessa língua decantada, atravessada pelo trauma e reforjada nas sombras e no silêncio que Celan constrói sua poesia de resistência e de afirmação radical da vida, aqui belamente recriada na tradução de Mauricio Mendonça Cardozo: “Um nada / éramos, somos, continuaremos / sendo, florescendo: / a rosa de nada, a / rosa de ninguém.”
 
A história de uma professora de sociologia que vê seu casamento desmoronar pouco antes do início de uma pandemia global. Uma distopia com ares de fábula e manifesto.

As distâncias e os pontos de contato entre o pessoal e o coletivo, entre a narrativa individual e a histórica, ocupam o centro de O último gozo do mundo, décimo terceiro livro de Bernardo Carvalho publicado pela Companhia das Letras. Presa de um tempo em que “a leitura do mundo tornou-se descontínua e episódica”, a protagonista desta novela parte, com o filho pequeno, numa jornada para um retiro no interior profundo do Brasil. Lá, mora um homem que passa a prever o futuro depois de ter sobrevivido ao vírus ameaçador. Entre lembranças obliteradas, encontros e desencontros e vidas até então previsíveis modificadas radicalmente, um rastro de perplexidade e de perguntas sem respostas vai sendo deixado para trás, numa narrativa enigmática, eletrizante e que se torna mais e mais perturbadora. Podemos distinguir as causas dos efeitos? Como damos sentido a uma narrativa? O que restou de humanidade num Brasil dominado pela morte? Podemos ter um projeto comum de futuro sem um relato coerente do passado?

A Editora Moinhos publica o primeiro livro no Brasil da poeta portuguesa Margarida Vale de Gato.

Esse livro é um projeto poético com atualizações periódicas, porque a autora já publicou outros títulos chamados Mulher ao Mar Retorna, em 2013, e Mulher ao Mar e Grinalda, em 2018; um projeto que agora cria ramificações com este livro Mulher ao Mar Brasil, que é uma nova seleção de poemas com inéditos e uma nova ordem para a edição brasileira.
 
A origem da espécie investiga uma das histórias mais antigas que ainda se contam na face da Terra: o Mito do Roubo do Fogo.

Mitos pertencem, sobretudo, ao campo da etnologia. São ainda objeto da filosofia, da história das religiões, da sociologia, da psicologia, da psicanálise, de outros ramos do conhecimento. Que faz, então, um romancista, um contador de histórias como Alberto Mussa, no terreno do mito? Ele responde: “Mitos são, no fim das contas, apenas mais um gênero de narrativa; embora seja, para mim, o gênero por excelência ― o mais exuberante, o mais perfeito entre todos, por condensar o máximo de conteúdo com um mínimo de expressão.” A origem da espécie é um ensaio literário que reconstitui as personagens e o arcabouço da trama original do Mito do Roubo do Fogo ― um poderoso programa ideológico, um código dos valores fundamentais da humanidade primordial, que inclui: o alimento cozido; a caça como expressão da inteligência; o tabu do incesto; e o poder “xamânico”, segundo o qual “ser plenamente humano é não ser apenas humano”. Assim reconstituído e interpretado, o Mito do Roubo do Fogo ainda lança luz sobre a polêmica questão da origem da linguagem, provavelmente surgida em hominídeos mais antigos que o Homo sapiens. À semelhança de um filólogo que estuda e compara diversos manuscritos antigos e anônimos de um mesmo poema ou narrativa, Alberto Mussa escreve aqui, em sua obra mais radicalmente pessoal, o que pensa ― ou o que sente ― sobre o roubo do fogo, assim como sobre a compreensão da verdadeira noção de humanidade, concebida no paleolítico, ou a de sociedade, como existe hoje. Nas palavras do autor: “Mitos, na verdade, são mais velhos que línguas; são mais antigos que populações. Já passa da hora de dar voz a eles”. O livro é publicado pela Editora Record.
 
Considerado uma das obras-primas da literatura do século XX em nova tradução e edição no Brasil.

Publicado em mais de vinte e sete países e incluído na lista dos doze melhores romances de língua francesa, Diário de um pároco de aldeia é considerado uma das obras-primas da literatura do século XX. Através das páginas escritas em tom confessional por um jovem pároco, Georges Bernanos apresenta ao leitor a viagem da alma e do corpo deste servidor pela pequena cidade de Ambricourt, no norte da França — a relação dele com a fé, com o seu serviço sacerdotal, com a doença do corpo, e o confronto com a realidade de sua paróquia, com suas dúvidas e seus erros. O romance mais popular e tocante de Georges Bernanos — que, segundo François Mauriac, tinha “o magnífico dom de tornar natural o sobrenatural” — ganha agora uma nova tradução para o português, que se aproxima consideravelmente não só do estilo do escritor francês, reconhecidamente elevado, como também do estilo que ele cria para o jovem pároco, que se põe a registrar num diário, entre um dia e outro de entrega piedosa aos paroquianos, os seus conflitos mais íntimos. A tradução de Roberto Mallet é publicada pelo Sétimo Selo.
 
Mainha, o novo livro do poeta e colunista do Letras, Tiago D. Oliveira, é publicado pela Editora Patuá.

Percursos delicados aguardam o leitor nestas páginas, palmilhar o coração de um filho, território não raro em conflito com o solo pátrio da infância. Mas eis que, diante de nós, mais que a mãe do poeta, multiplicam-se outras mulheres, personagens, mátrias que emergem de universos distintos e que, no entanto, refletem o que do amor só se sabe por vivência e não por experimento. E mesmo um devir-homem. Do filho que almeja o materno como cerne de sua alma masculina. Na construção de uma paternidade possível, tocar o sentimento que habita o núcleo bruto do afeto, essa via de acesso ao sublime. Poeta do sensível, Tiago D. Oliveira escapa ao previsível em poemas que desvelam esta presença/ausência que se alonga em extensão de infinito. (Kátia Borges)
 
Nova edição e tradução de um clássico da obra de Joseph Conrad.

Em meados da década de 1870, o rei Leopoldo XX da Bélgica passou a promover supostas expedições humanitárias e científicas para “civilizar os selvagens” que habitavam o Congo. No entanto, o monarca apenas explorava o país: escavava o ouro, abatia elefantes em busca do marfim, promovia caçadas esportivas e devastava a floresta nativa. A riqueza produzida seguia diretamente para os cofres pessoais do rei. Além disso, essa exploração era realizada por meio de crueldades com os habitantes nativos, que morriam de fome, de doenças e por excesso de trabalho, ou sofriam torturas, estupros e massacres perpetrados pelos europeus. No ano de 1890, quase no fim de sua carreira marítima, o polonês Joseph Conrad desceu o rio Congo como capitão de uma embarcação a vapor. A experiência viria a marcá-lo pelo resto da vida. Ao chegar no Congo, Conrad encontrou apenas o horror em suas diversas facetas, o horror praticado pelos agentes da civilização, o horror absoluto. Ele rompeu o contrato de três anos e retornou à Inglaterra depois de apenas seis meses. Anos depois, baseando-se na experiência, escreveu o romance Coração das trevas, em que o capitão Marlow relata sua viagem pelo grande rio africano para o resgate de um gerente de posto de comércio chamado Kurtz. Mais que simplesmente um relato de viagem, Coração das trevas é também “uma obra metafórica, simbólica, que durante todo o século gerou interpretações psicanalíticas, políticas, filosóficas, de estudos de gênero, culturais, pós-coloniais”, como afirma o tradutor Paulo Raviere na introdução do volume. Seu estilo vivaz, exuberante e revolucionário o transformou em um clássico moderno, um dos livros mais importantes do século XX. Além disso, Coração das trevas foi também uma das primeiras denúncias do genocídio belga. Não por acaso, décadas depois o diretor Francis Ford Coppola se inspiraria nele para narrar as tragédias da Guerra do Vietnã (1955–1975), no filme Apocalypse Now (1979). A edição especial da DarkSide é enriquecida pelas belas ilustrações de Braziliano Braza, e conta ainda com os “Diários do Congo”, nos quais Conrad se baseou para a escrita do romance, um ensaio de Virginia Woolf sobre o autor, e um posfácio do pesquisador Carlos da Silva Jr., no qual ele discorre sobre os resquícios coloniais que persistem ainda hoje. “Na África, na Europa ou nas Américas, a disputa pela memória continua viva, vibrante, e a nova edição de Coração das trevas nos ajuda a lembrar desse episódio sangrento e cruel na história da humanidade”, afirma o pesquisador. Depois dos contos de Edgar Allan Poe e de H.P. Lovecraft, dos romances Frankenstein, Drácula, O médico e o monstro, e da antologia Medo imortal a DarkSide dá sequência à publicação de grandes obras da literatura na coleção Medo Clássico com o contundente romance de Joseph Conrad e seu mergulho no coração das trevas. Como todo clássico digno desse nome, Coração das trevas é um daqueles livros que sempre projetam luzes sobre as sombras incessantes que nos espreitam. A tradução é de Paulo Raviere.
 
Livro reúne entrevistas e outros textos de Sérgio Sant'Anna. 

Desde o final dos anos 1960 até sua morte em maio do ano passado, Sérgio Sant'Anna se dedicou obsessivamente a erguer uma das obras mais originais da literatura brasileira. Neste volume, os escritores André Nigri e Guilherme Pacheco reuniram o que parece ser o lado B de sua produção: algumas das entrevistas mais antológicas que concedeu e alguns dos seus textos críticos, que falam de nomes como Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e teorizam sobre o fazer literário. Esse livro seria um lado B de Sérgio Sant'Anna, mas para o leitor a sensação será a de reencontro com sua voz singular. O conto não existe. Entrevistas e ensaios (1969-2020) é publicado pela Cepe Editora.
 
Novo livro de Alberto da Costa e Silva é publicado pela Nova Fronteira.

Em A África e os africanos na história e nos mitos, Alberto da Costa e Silva, cujos 90 anos comemoramos em 2021, mais uma vez empresta seu vasto conhecimento aos leitores que queiram entrar em contato com a história daquele continente e de seu povo. Esta é uma viagem às várias Áfricas que coexistem, motivada pelo prazer intelectual e pela alegria das descobertas, pela possibilidade de estabelecer aproximações, perceber diferenças, descortinar múltiplos enfoques de determinado tema. Para tanto, Costa e Silva reuniu fragmentos de histórias orais, transcrições de época, tradições e relatos de povos, líderes, linguistas, viajantes e estudiosos, tudo muito bem urdido e narrado com tantas cores que nos sentimos transportados no tempo e no espaço.
 
REEDIÇÕES
 
Nova edição de Chão em chamas, de Juan Rulfo.

“Aqui a gente fala, e as palavras ficam quentes dentro da boca por causa do calor que faz lá fora, e vão se ressecando na língua da gente até a gente ficar sem fôlego.” Assim iniciada a jornada de Chão em chamas que guia o leitor através da árida paisagem do estado de Jalisco, oeste mexicano. Ambientados nesse lugar da primeira infância de Juan Rulfo, os escritos aqui reunidos transitam entre a crueza de um realismo e a fantasia própria da existência latino-americana.A construção deste livro foi por si só foi uma peregrinação. Os primeiros contos de Rulfo foram publicados nas revistas literárias Pan e América e, graças a sua qualidade, o autor logrou receber uma bolsa do Centro Mexicano de Escritores, quando escreveu mais sete histórias, e assim publicou a primeira versão de Chão em chamas em 1953. Ainda não satisfeito, Rulfo impôs ao livro mais revisões, adições e cortes, tanto de trechos e como de contos, até que, em 1970, assumiu uma forma final — sendo esta a versão a considerada para a presente edição brasileira. Nas palavras do amigo e tradutor Eric Nepomuceno: “Juan Rulfo era um obcecado pelo corte, pelo polimento final, pelo secar de um texto até reduzi-lo à mais rigorosa exatidão.” Tanto zelo e precisão são tão trabalhados que quase passam despercebidos ao leitor. Os contos de Chão em chamas são repletos de marcas de oralidade, de introspecção ao ambiente agreste e duro, mas mesmo assim, encantador de Jalisco. Considerado uma obra regionalista, a realidade mexicana pode fazer soar como a brasileira e reverbera a condição humana universal e ao mesmo tempo que os dramas particulares latino-americanos. A morte, o conflito de terras, o amor, a doença, a sexualidade, a miséria, a fé, a violência, a injustiça e a indignação, são alguns temas que os personagens de Rulfo, homens e mulheres brutos, inflamados ou melancólicos, conduzem o leitor e se misturam em meio de desertos e chuvas da imensa chapada. Chão em chamas é o primeiro e único de livro de contos de Juan Rulfo, este escritor mexicano maior, referenciado por nomes como Gabriel García Márquez, Jorge Luis Borges e Susan Sontag. Obra aparentemente simples, porém, sem dúvida, profundamente desconcertante. Em sua unidade formal repousa uma grande diversidade de linguagens, registros e tons com os quais Rulfo aborda o problema de uma violência multifacetada — ora desencadeada, ora insidiosa —, a tal ponto naturalizada que não é mais reconhecida como tal.
 
O novo título da reedição da obra completa de Cornélio Penna.

Quando Fronteira foi publicado pela primeira vez, em 1935, causou grande estranheza nos meios literários. Romance de estreia de Cor­nélio Penna, simples na forma, compacto na sucessão de capítulos  — em geral, curtos, como cenas ou quadros interiores dessa cidade sem nome encravada entre montanhas e fantasmas do ciclo da mi­neração —, fala-nos de um mundo em decadência, mas que ainda persiste em nos assombrar. O título Fronteira já remete a esse lugar indefinido entre sonho e realidade, entre passado e presente, entre natural e sobrenatural, entre crença e descrença, entre lucidez e loucura, e aos poucos vai construindo um clima de suspense e mistério — que não se resolve como novela policial, mas antes como drama interior. O livro é publicado pela editora Faria e Silva.

DICAS DE LEITURA
 
Na edição 372 deste Boletim Letras 360.º, datada de alguns dias depois do 23 de abril, Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor, recomendamos três livros sobre livros. Vale repetir a experiência agora, nas mesmas circunstâncias, com outras novas recomendações.
 
1. Histórias de livros perdidos, de Giorgio Van Straten. Das pequenas pérolas sobre o tema; aqui se contam oito histórias sobre oito livros que entraram para o grande rol dos livros imaginários — nesse caso porque apesar de esboçados pelos seus autores nunca vieram a luz porque destruídos de alguma maneira, rasgados, queimados ou roubados. Entre os autores recordados por Van Straten estão Lord Byron, Nikolai Gógol, Ernest Hemingway, Walter Benjamin e Sylvia Plath. A tradução é de Silvia Massimini Felix e está publicada pela Editora da Unesp.
 
2. A biblioteca: uma história mundial, de James W. P. Campbell. Ora monumento, ora ponto de encontro e de descobertas para outros mundos tão ou mais valiosos que este agora ocupado, ora centros do saber. A biblioteca é ainda um dos mais bonitos símbolos de resistência humana, impérios contra a barbárie. Este livro repassa desde os projetos das bibliotecas da Roma Antiga até os da Bibliothèque Nationale, em Paris recontando a história desse tipo de construção em todo o mundo, dos primórdios da escrita até a atualidade, da Mesopotâmia Antiga ao Japão moderno. O texto do historiador da arquitetura Campbell é interceptado pela fotografia de Will Pryce e o resultado é um daqueles livros deliciosos para ler despretensiosamente enquanto podemos viajar e saber mais sobre uma das maiores conquistas da humanidade. A tradução é de Thaís Rocha e está publicada pelas Edições SESC.
 
3. A capa do livro brasileiro (1820-1950), de Ubiratan Machado. Este livro oferece duplo papel: organizar e compreender o processo de transformação de um pequeno espaço que se institui cada vez como o elemento fundamental e criativo para o livro enquanto elabora uma parte da história de nossa memória do livro no Brasil. Mais de um século entrevisto por uma rica variedade de imagens que percorre quase dois mil títulos que tiveram a mão de gente como Di Cavalcanti, Belmonte, Santa Rosa, J. U. Campos, entre outros. O livro está publicado pela Ateliê Editorial e SESI-SP Editora.
 
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
 
1. Na quinta-feira, 21, foi aniversário de duas figuras incontornáveis da literatura brasileira: Manuel Bandeira e Lygia Fagundes Telles. Do primeiro, excelente ocasião para recordar este excerto do filme O Habitante de Pasárgada, parte do projeto de Fernando Sabino e David Neves, “Encontro Marcado”. Nele, o poeta recita seu mais famoso poema, lembrado no título do documentário. Aqui.

2. Também na galeria de vídeos em nossa página no Facebook, o leitor encontra vários pequenos filmes sobre Lygia Fagundes Telles. Destacamos nesta ocasião, este de um projeto conduzido pelo Instituto Moreira Salles, “O escritor por ele mesmo”, em que a escritora fala sobre si e sua obra. 
 
BAÚ DE LETRAS
 
1. Ao falar sobre a reedição do primoroso trabalho de Candido Portinari e Carlos Drummond de Andrade a partir do grande clássico da literatura espanhola, Dom Quixote, recobramos esta post publicada no blog sobre estes diálogos possíveis apenas pela criatividade artística. 
 
2. Sobre livros perdidos, o livro de Giorgio Van Straten foi motivo para este texto que traduzimos no blog e reconta alguns dos episódios referidos pelo pesquisador em no livro recomendado nas Dicas de Leitura deste Boletim. 
 
3. Especificamente sobre o romance perdido de Sylvia Plath recomendamos a tradução deste outro texto que revisita os diversos caminhos possíveis sobre a concepção e o desaparecimento do seria o segundo trabalho da escritora estadunidense neste gênero. Como sabe, até nós chegou apenas A redoma de vidro.

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