O romance perdido de Sylvia Plath



Na época de sua morte, em 1963, Sylvia Plath havia publicado apenas duas obras: um livro de poesia, The Colossus and Other Poems, que veio a lume três anos do suicídio; e um romance, The Bell Jar, apresentado um mês antes e apenas no Reino Unido. Um segundo livro de poemas, Ariel, foi apresentado postumamente pelo seu companheiro, o também poeta Ted Hughes.

Apesar da escassez de obras publicadas, Plath deixou um tesouro de escritos – diários, pequenas narrativas, poemas e outros documentos – que ajudaram a alimentar o interesse em sua vida e trabalho; interesses, aliás, que só parece crescer a cada ano.

Não só os estudiosos continuam a analisar sua obra, mas há interessados por descobrir mais sobre e de seu trabalho no intuito de oferecer uma melhor compreensão sobre o gênio e o espírito trágico de um escritor, assim como Sylvia Plath, em princípios de encontrar sua voz.

Nas últimas décadas multiplicaram-se a diversidade de obras que analisam sob diversos prismas sua obra, não apenas as já conhecidas mas as que vão aparecendo, desde seus desenhos, as cartas e poemas inéditos que, vez ou outra, são descobertos. Em maio deste ano, por exemplo, os pesquisadores Gail Crowther e Peter K. Steinberg, especialistas na obra da poeta, enquanto organizavam manuscritos antigos de Plath para a publicação de um desses trabalhos com inéditos, encontraram dois novos poemas, “To a Refractory Santa Claus” e “Megrims”.

E enquanto a esperança de novas descobertas permanece inalterada, um texto conhecido escapa da vista de todos que o procuram. No Verão de 1962, Plath começou a trabalhar no que seria seu segundo romance. Sabemos que se tratava de uma autobiografia ficcional à maneira de The Bell Jar sobre uma escritora que descobre que seu marido a trapaceou; também sabemos, apesar de ser ainda mais fortes suspeitas, que ela concluiu antes de morrer uma versão dessa história que há muito estava sendo escrita. Mas, nos anos seguintes, o manuscrito de Double Exposure – sabemos até o título – desapareceu.

Para especialistas como Gail Crowther, a importância deste romance não pode ser desprezada, porque sabe-se ainda que Sylvia Plath teria um acurado senso crítico de seu trabalho e em comparação com o seu único romance publicado a quem o chamou de “potboiler”, isto é, obra escrita para ganhar de dinheiro, o texto desaparecido não entraria nesse ideal. The Bell Jar foi escrito para que os direitos fossem vendidos para uma produtora de cinema e com isso conseguir o dinheiro que lhe faltava para comprar uma casa em Londres.

A ideia de Double Exposure, entretanto, antecede ao período da escrita de sua principal obra ficcional; quando Plath conheceu Ted Hughes numa festa em Cambridge enquanto estudava com uma bolsa Fullbright, as bases e partes do livro já existiam. A paixão avassaladora que tomou os dois terá servido para um abandono do projeto. Quatro meses depois eles se casaram.

Mais tarde ela se lamentaria numa carta escrita para o companheiro em 7 de outubro de 1956: “Ah Teddy, como eu me arrependo por zombar na minha verde e livre juventude do mito de Eva sendo feita da costela de Adão; porque a maldita história é verdadeira. A mim dói retomar ao meu lugar apropriado, que agora é envolvido pelo lugar de protegida e amada”.

O casal dos mais poderosos na literatura inglesa teve dois filhos e continuou, ele mais que ela, ao esforço do trabalho com a escrita. Entretanto, Ted Hughes ao The New York Times diz que os dois escreviam poesia diariamente. “Era tudo o que nos interessava, o que fizemos. Éramos como dois pés, cada um usando o que o outro fazia”.

Mas, tudo começou a desmoronar no Verão de 1962 quando Plath descobre a traição de Hughes. No final da estação os dois estavam separados e ela se mudou com os filhos para Londres e o resto da história é já conhecida de todos: o envolvimento de Ted com outra mulher foi um golpe devastador para sua vida pessoal, embora tenha servido de impulso criativo ao menos repentinamente. Muitos dos poemas reunidos em Ariel, por exemplo, foram escritos depois da separação dos dois e exploraram esse aspecto da nova vida de Plath. E os planos para o novo romance há muito abandonado era usar também dessa experiência traumática.

Em 10 de agosto de 1962, Plath escreveu um lembrete de urgência em sua agenda: “Start Int. Loaf!!!” (The Interminable Loaf foi o primeiro título da obra; depois ela mudaria para Double Take e só bem adiante decidiu por Double Exposure).  

Se não se oferece uma certeza sobre a conclusão do livro, porque os registros sobre o progresso da obra variam, sabe-se que Plath começou o livro. É Ted Hughes quem, na introdução para a série de entradas do diário da escritora, escreve que “Depois de The Bell Jar, ela escreveu algo em torno de 130 páginas do outro romance, provisoriamente intitulado Double Exposure. Esse manuscrito desapareceu em algum lugar por volta de 1970”. Depois, Hughes teria dito que o número de páginas era em torno de 60 ou 70 e que segundo sua irmã, como se registra em carta, apenas dois capítulos do livro estavam concluídos.

Várias pessoas próximas a Plath relatam a leitura de partes da obra e revelam às vezes suas reações ao que liam. A amante de Hughes, Assia Wevill teria ficado “consternada” como as personagens que se referem a ela e ao ex-companheiro foram retratadas. Judith Kroll, poeta, relata ter visto um sumário com um esboço capítulo a capítulo e os planos de Plath para o livro.

E ela própria parecia entusiasmada com o progresso do projeto. Em 12 de outubro, numa carta ao seu irmão, escreveu: “As minhas coisas me fazem rir e rir e se isso pode me fazer rir é porque agora devem ser coisas muitíssimo engraçadas”.

E, claro, tudo isso dão um vislumbre do processo de composição de Double Exposure. Não só, mas uma compreensão do quanto Plath, apesar de ser reconhecida desde sempre como poeta, mantinha estreita relação com o desejo de ser romancista.

“Como eu invejo o romancista”, escreveu num ensaio em 1962. “Se um poema é concentrado, um punho fechado, um romance é relaxado e expansivo, uma mão aberta: tem caminhos, desvios, destinos, uma linha do coração, uma linha da cabeça; moral e dinheiro entram nisso”.

A poesia de Plath é visceral e poderosa e seus textos para jornais, parte ensaios, fornecem uma visão incrível de como viu o mundo a partir da perspectiva de escritora e depois digeriu essas informações na poesia e na ficção. Agora, ter um segundo romance da romancista, um segundo trabalho na forma literária que considerou mais importante, continua sendo uma possibilidade tentadora.

“É interessante que ela chama a atenção para o humor no romance e isso certamente corresponde aos fragmentos das entradas para o jornal compostas nesse mesmo período”, recorda Crowther. “Ela manteve um caderno de anotações sobre vários dos seus vizinhos e essas observações são uns dos trabalhos mais engraçado e espirituosos. Ver isto num romance seria muito significativo”. Mas tudo não passa de desejo de pesquisadores; Plath permanece nesse terreno misteriosa.

Hughes afirmou que o manuscrito do tal romance desapareceu depois de 1970 e que Aurelia Plath, mãe de Sylvia, foi a última a possuí-lo, embora nenhuma dessas afirmações tenham sido provadas. Como eles ainda estavam casados quando da morte da poeta, Hughes se tornou o responsável pela propriedade literária dela e ele próprio queimou coisas de Plath, como partes dos diários, com a justificativa de “proteger seus filhos”. Mas há rumores de que a cópia do romance perdido estaria guardada no arquivo do Simith College. 

Embora todos os rumores pouco tenham ajudado aos estudiosos a se aproximarem mais da localização do segundo romance, não significa que toda esperança por o encontrar esteja perdida. Tanto que, poemas e textos para revista continuam a ser descobertos no desenvolvimento dessa busca maior: um fantasma que continua a servir de inquietação aos pesquisadores.  

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