Malcolm Lowry

Por Hernán Lara Zavala

Malcolm Lowry, Mazzaro, Itália, 1954.


 
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Malcolm Lowry, que gostava de contemplar o universo como um arcano, um criptograma repleto de “correspondências mágicas” ou “coincidências misteriosas e fatais”, viu sua vida marcada por duas mulheres, três homens e um país. As mulheres foram suas companheiras Jan Gabrial e Margerie Bonner; os homens, o escritor estadunidense Conrad Aiken, que serviu como seu tutor, guardião, mestre, preceptor, pai putativo, cúmplice, duplo e rival; Nordhal Grieg, um romancista norueguês com quem se identificou por meio de suas experiências marítimas; e Albert Erskine, o editor estadunidense de Debaixo do vulcão e um amigo leal que acreditava em seu talento como ninguém. O país foi, claro, o México e, mais especificamente, Cuernavaca ou Quauhnáhuac como ele gostava de chamá-la, cenário de seu grande romance.
 
Uma das duas grandes biografias de Lowry se baseia, principalmente, embora não exclusivamente, nos testemunhos de Margerie Bonner — Malcolm Lowry, uma biografia (tradução livre) de Douglas Day (1973); a outra leva mais em consideração as memórias e experiências de Jan Gabrial, Perseguido pelos demônios (tradução livre), de Gordon Bowker (1993). A primeira é obra de um autor estadunidense, a segunda de um inglês. A de Day tenta emular a estrutura do romance e começa, depois da morte de Lowry, evocando os últimos dias do autor para narrar sua vida a partir daí; a segunda, sóbria, amplamente documentada e escrita com a tradicional amenidade da biografia inglesa, segue uma anedota cronológica sem desvirtuar seu conteúdo, que quase duplica a de Day, e fornece dados novos e interessantes, pois Bowker se entregou à tarefa de localizar Jan Gabrial, a primeira esposa, que permaneceu anônima por anos. Ambas as biografias são magníficas, se complementam e se contrapõem, pois cada uma mostra o quão subjetivo, interpretativo e arbitrário pode ser o gênero biográfico de acordo com as simpatias e apreciações dos informantes. Mas o que as duas obras deixam muito claro é quão complexa, autodestrutiva, errática, perigosa, caótica, intensa, mas acima de tudo trágica foi a vida de Malcolm Lowry.
 
Por trás dos homens e mulheres que marcaram a vida do escritor estavam as figuras paterna e materna: Arthur, seu pai, um próspero comerciante de algodão, um puritano da igreja metodista e um abstêmio convicto; Evelyn, sua mãe, que teve Malcolm, o caçula de seus quatro filhos, aos 36 anos e de quem se manteve distante por motivos de saúde e temperamento, apesar de para Malcolm, em suas cartas, ela ser “my dear darling precious little mother” (minha querida, amada e preciosa mãezinha).
 
Bowker relata no início de Perseguido pelos demônios como Malcolm decidiu, desde criança e de maneira inconscientemente, sua futura inclinação para o álcool como uma rejeição do puritanismo e da rigidez paterna. Num dos seus contos da juventude, Lowry narra como todas as manhãs acompanhava seu pai no carro da família para embarcar no ferry no qual cruzava o Mersey para se dirigir ao seu trabalho na cidade de Liverpool. No caminho, eles invariavelmente encontravam um vizinho que fazia a pé o mesmo caminho que eles. Tratava-se de um advogado que, ao vê-los passar, balançava a bengala de forma um tanto zombeteira diante da total indiferença do pai. Quando uma vez Malcolm perguntou por que ele não respondia à saudação, o pai lhe disse que este homem era um bêbado sem autodisciplina. A epifania da narrativa é revelada pelo menino que atua como narrador: “Ele não sabia que eu secretamente havia decidido me converter num bêbado quando crescesse”.
 
Como costuma acontecer com muitos escritores, a figura materna desempenhou um papel decisivo na formação da sensibilidade e do caráter de Lowry, já que sua linha emocional provinha de sua mãe Evelyn, quem costumava reclamar que nunca mais foi a mesma depois do nascimento de Malcolm. Essa frase era usada pelos irmãos para zombar deles próprios antes de qualquer pequeno contratempo que acontecesse na família. A verdade é que Malcolm, o caçula de quatro meninos, cresceu com uma mãe emocionalmente ausente, mimado e superprotegido pelas babás, governantas e criadas que, segundo ele, o faziam dormir dando-lhe uma taça de vinho. Como seus irmãos, aos sete anos Malcolm ingressou no internato, distanciando-se para sempre do ambiente familiar.
 
Lowry investiu sua vida intelectual e emocional na busca por substitutos para os pais. No campo masculino, recorreu a escritores mais velhos que puderam iluminá-lo e guiá-lo em sua carreira literária e atuar como guardiões frente ao seu pai, eterno e distante provedor, que o livrava de todos os seus problemas; apesar disso, quando Malcolm completou vinte e um anos e seu pai lhe pediu para fazer um brinde, Lowry respondeu que, para ele, a sua infância significava sofrimento perpétuo em que na maioria das vezes se sentia cego, tolhido ou constipado. Entre as mulheres, Malcolm procurava, ou sua mãe amorosa (“a mother who was a good lay”, segundo Jan Gabrial) ou “a mártir” (como Margerie, segundo Day), como paliativo do amor maternal que sempre desejou e nunca teve. Em ambos os casos, o relacionamento foi desastroso, em parte por causa de sua dipsomania e em parte por causa de seus instintos, que iam do suicida ao homicida (“Deixe-o”, recomendaram a Margerie no hospital americano em Paris, “se não o fizer, vai lhe matar ou se suicidar”). Lowry sabia disso internamente e é assim que o sintetiza na frase final de seu conto “In Le Havre”: “Você só ama sua própria miséria.”
 
A literatura, a música, o álcool, o esporte, o amor, o mar e os barcos foram se misturando ao acaso em sua vida. Desde jovem Malcolm mostrou uma predisposição natural para escrever contos e poemas, aprendeu a tocar um instrumento um tanto ridículo — o ukulele ou taropatch, como parte de seu gosto por charleston e jazz — integrando-o fetichistamente em sua deslocada personalidade; foi um destacado jogador de golfe — ganhou vários torneios —, um nadador incansável (como o pai) até ao fim dos seus dias, além de tenista, jogador de pingue-pongue e apaixonado pela luta livre. Quando ele tinha dezoito anos, começou a escrever Ultramarine como resultado de uma viagem que fez a Xangai e a Yokohama a bordo do cargueiro SS Pyrrus, que foi anunciado nos jornais como a rejeição de um menino rico à vida de regalias (“Eu não quero confortos de seda, quero ver o mundo, deixar-me tocar por suas peculiaridades, ganhar experiência na vida antes de entrar na Universidade de Cambridge”). Retornando da viagem, experimentou a primeira das grandes revelações literárias de sua vida, que mudariam para sempre seu destino como escritor e ser humano. Russell, seu irmão mais próximo de idade, trouxe da biblioteca pública um romance cujo título chamou sua atenção, Blue Voyage, pensando que se tratava de um livro marítimo. Logo o estilo do autor o intrigou por sua pirotecnia estilística e ele preferiu passá-lo para Malcolm dizendo: “Este livro é mais para você do que para mim.” Lowry se apaixonou pelo romance que devorou ​​e descreveu como “um gênio maravilhoso e satânico”.
 
O autor de Blue Voyage era Conrad Aiken, que tinha o dobro de sua idade. Malcolm começou a se corresponder com ele e propôs que antes de ingressar em Cambridge, onde já havia sido aceito no Saint Catherine’s College, ele o recebesse como aluno e hóspede em sua casa em Boston, em troca de pagamento. Aiken aceitou. Ambos compartilhavam o mesmo sentimento de desenraizamento e talvez por isso imediatamente se identificaram e iniciaram o que Aiken chamou de “uma bela amizade” que, cheia de conflitos e contratempos, durou até o fim de seus dias. Começaram estabelecendo uma relação entre um tutor e um aprendiz de escritor que logo se desviou para a de pai e filho e, finalmente, para um submisso diante das exigências paternas. Com o tempo, tornou-se uma relação de colegas literários e, consequentemente, rivais e concorrentes, em que buscavam o reconhecimento um do outro, roubando-se ideias e praticando canibalismo e vampirismo de forma indistinta. Quando Malcolm propôs ao pai que contratasse Aiken como seu tutor, o velho concordou, visto que se tratava de um renomado poeta e romancista, com vários livros publicados, amigo de T.S. Eliot, conhecedor e emulador do trabalho de Joyce e professor de Harvard.
 
Esse encontro marcou o início da carreira de Lowry como escritor. Bowker chama a figura de Aiken de “anjo das sombras” de Lowry, já que ele representava o oposto do pai de Malcolm: Aiken era um mulherengo, havia sido expulso de Harvard por conduta imoral (“moral turpitude”), frequentava prostitutas, bebedor compulsivo, admirador de Freud e um psicanalista amador que diagnosticou Malcolm como portador de esquizofrenia. A amizade entre eles durou vinte e cinco anos e se distinguia por ser às vezes simbiótica, às vezes parasitária, muitas vezes destrutiva, cheia de álcool, piadas obscenas e violência, a ponto de em uma festa Lowry quebrar a cabeça de Aiken com uma tampa de sanitário numa luta. Aiken não era, então, especialista em doces: ficara órfão aos nove anos, após presenciar o assassinato de sua mãe nas mãos de seu pai por um acesso de ciúme, para acabar suicidando-se na frente de seu filho. Aiken era mais poeta do que contador de histórias. Influenciado por Joyce e Eliot, seu método consistia em subjetivar ações por meio de monólogos interiores em busca da exploração interna de seus personagens. Malcolm não se importava em se servir da obra de Aiken, pois tinha isso como pretexto, quando se conheceram; seu tutor lhe disse que se ele gostava tanto de Blue Voyage, provavelmente era porque Lowry “o havia escrito em outra vida”.
 
A segunda figura masculina importante na vida de Lowry foi o escritor norueguês Nordhal Grieg, cujo romance The Ship Sails On teve um impacto semelhante ao de Blue Voyage no seu imaginário. O romance de Grieg serviu a Malcolm como um antídoto para conter a influência avassaladora que o trabalho de Aiken estava exercendo sobre a escrita de Ultramarine, que dois estavam corrigindo juntos na época. Bowker identifica Grieg como o “anjo luminoso”. Tal como aconteceu com Aiken, Lowry partiu à sua procura na Noruega em 1931 e o encontrou de forma quase providencial. A leitura e a influência de Grieg beneficiaram Lowry, pois diminuiu o tom lírico aikeniano do Ultramarine e deu-lhe um caráter mais pessoal e realista. Os empréstimos de Grieg se deviam mais a uma identificação com a experiência da viagem marítima e com um tipo de imaginação que ele genuinamente compartilhava com o norueguês.
 
Anos mais tarde, Malcolm reconheceu que, devido a uma “identificação histérica” ​​com Aiken e Grieg, seu romance se alimentou deles por meio de um “plágio disfarçado”. Lowry efetivamente se inspirou em parágrafos inteiros de The Ship Sails On que ele adaptou para o Ultramarine, e ainda quando confessou abertamente para Grieg, o escritor simplesmente riu, ignorando-o. À distância, é interessante observar como um escritor da experiência, dote e estatura de Aiken gradualmente sucumbiu à ferocidade e talento de Lowry, quando Ultramarine foi finalmente aceito para publicação, enquanto a mesma editora rejeitou The Great Circle, um romance que Aiken escreveu ao lado seu discípulo.
 
Ultramarine apareceu em 1933, após uma série de percalços tipicamente lowrinianos. O romance, que durou seis anos de trabalho e infinitas revisões, modificações, empréstimos e acréscimos, foi roubado do carro conversível de Ian Parsons, um dos editores da casa Chatto and Windus, uma vez que já havia sido aceito para publicação (“original e poético sem ser obscuro”). A pior parte é que Lowry não teve o cuidado de manter uma “cópia carbono”. Sua reação à notícia do roubo foi desconcertante: se comprometeu a reescrever o livro e começou a procurar em todos os lugares por fragmentos aproveitáveis ​​para recompô-lo. Milagrosamente, seu amigo Martin Case, que o ajudara a digitar a versão final, teve a visão de coletar os rascunhos da lata de lixo e isso permitiu que eles reescrevessem o romance para eventual publicação, mesmo que ele não aparecesse eventualmente em Chatto and Windus, como haviam proposto originalmente, mas em Jonathan Cape. A recepção na Inglaterra poderia ser sintetizada no que V.S. Pritchett comentará sobre ela, criticando a monotonia dos escritores demasiado conscientes de seu ofício e salvando Ultramarine por suas ações e descrições, sem qualquer alusão a Aiken e a Grieg.
 
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Em 1933, Conrad Aiken junto com Clarissa, sua segunda esposa, e o pintor Edward Burra combinaram com Lowry em passar férias na Espanha. Ele aceitou e no início de abril partiram rumo ao Peñón de Gibraltar. Lowry levava consigo as galeras do Ultramarine para sua revisão, um exemplar do Ulysses de Joyce, que ele nunca tinha lido antes e que seria fundamental para o Debaixo do vulcão, sua adaptação dramática do romance de Grieg e seu ukulele à maneira de fetiche. Com o passar dos anos, a relação entre Aiken e Lowry havia se deteriorado significativamente e, durante a viagem, atingiu seu ponto-limite. De Gibraltar viajaram para Ronda e de lá para Granada, onde se alojaram em Villa Carmona, perto da Alhambra. Em 19 de maio, Malcolm Lowry experimentou outra das revelações importantes de sua vida, quando viu aparecer na pensão uma bela e baixinha estadunidense com um chapéu de abas largas. Em seu ensaio autobiográfico Ushant, Aiken descreve a cena da seguinte maneira: “À sombra do vulcão e ao som de Nita [Jan], esses implacáveis ​​e duros taconzitos reverberando nos mosaicos do corredor, Nita, quem D. [Aiken] havia apresentado em Alhambra na esperança de que aquela bela e esquiva criatura fosse a cura de que ele [Malcolm] precisava, aí, esse duplo de William Blackstone e também de D., se envolveu simultaneamente em forjar sua visão apocalíptica, sempre enraizada nessas correspondências místicas tão suas e nas intrincadas ressonâncias e cadências da linguagem que um dia ele viria dominar.”
 
Lowry não sabia disso na época, mas o diagnóstico de seu preceptor resultaria, até certo ponto, mais do que correto: Jan se tornaria sua companheira e musa. Com ela, viajaria para o México e no final iria transformá-la na personagem de Yvonne, que respirava o mito fáustico do amor atormentado e frustrado em Debaixo do vulcão, injetando nele tensão dramática, paixão amorosa e fatalidade.
 
Malcolm e Jan se encontram em Granada graças a Clarissa, a companheira de Aiken que atua como Celestina sob os perversos conselhos de seu companheiro, que aspirava compartilhá-la com seu discípulo. Graças aos bons ofícios de Clarissa, o novo casal vai passear nos jardins do Generalife, onde Malcolm se apaixona imediatamente por Jan. Quando ela confessa que tem aspirações de escritora, ele lhe empresta suas galés de Ultramarine para ler. Nessa noite eles têm um primeiro encontro após o qual ela duvida: “Eu adoro o escritor... mas sinto a mesma devoção pelo homem?” O namoro durou alguns meses e não foi fácil para nenhum deles, já que Jan era uma figura esquiva, exigente e atraente, “de olhos ferozes e distantes”.
 
De Granada, onde se conheceram, ela continuou sua viagem e foi para Portugal, Maiorca, Barcelona, ​​o sul da França, Florença, Capri e Paris, e aceitou livremente flertes e pretendentes enquanto Malcolm voltava para suas festanças em Londres. Desde o primeiro dia Malcolm marcou Jan com sua arma mais poderosa: suas cartas intensas, intermináveis, extravagantes e apaixonadas nas quais ela percebeu uma linguagem “alusiva, poética, urgente e inebriante”. No entanto, quando no final de setembro Jan finalmente chegou ao seu encontro na Victoria Station em Londres para encontrar com o seu apaixonado “writing paper lover”, após quatro meses sem se ver, ele não veio para recebê-la e não apareceu por mais de quatro dias depois, argumentando todos os tipos de pretextos. Foi até novembro, e sob o efeito do álcool, que Lowry a propôs em casamento: “Vamos nos casar”, disse ele, e elaborando uma de suas típicas hipérboles profetizou: “e juntos faremos arder a literatura queimar”. Jan e Malcolm se casaram em Paris em 6 de janeiro de 1934, em uma cerimônia quase privada onde não existiu anel, nem presentes, nem lua-de-mel. Quando questionado se Lowry aceitava Jan como sua esposa, Malcolm respondeu: “Ça va, ça va”.
 
O que se seguiu foi o início da tragédia conjugal: uma vida íntima em Paris que levou Jan a descobrir a dipsomania do companheiro, a desordem em sua vida e o misticismo implícito em tudo o que ele fazia; sofreu um aborto e fugiu pela primeira vez para Nova York, a pretexto de ver a mãe e com a promessa de voltar para se estabelecer em algum lugar da França para escrever. Lowry voltou a impressionar com suas cartas apaixonadas, das quais surge o leitmotiv sobre o qual construiria o caráter de Yvonne: “Nunca soube o quanto a amava até que ela partiu e nunca deveria tê-la deixado ir porque a vida se tornou um inferno sem sua presença”. Malcolm viaja da França para a Inglaterra — “Onde você está?”, contesta Jan, “Sua carta recente foi escrita em Paris, mas você a enviou de Londres.” No que foi o último encontro pessoal que Malcolm Lowry teve com seu pai, ele o confrontou para confessar que havia se casado com uma estadunidense em Paris e que ela estava em Nova York. Embora o pai ficasse furioso, finalmente sentiu pena do filho pródigo e concordou em comprar-lhe uma passagem cara para que pudesse se encontrar com sua esposa novamente e, se necessário, mudar a passagem para encontrar uma mais barata e voltar com Jan para a Europa. Em 28 de julho, aniversário de Malcolm Lowry, ele embarcou no Aquitaine, em Southampton, rumo aos Estados Unidos, onde Jan e sua mãe o esperavam no cais. Quando sua sogra, satisfeita com seu novo genro inglês, o convidou para ficar com ela em Long Island, Lowry se recusou dizendo que iria sair em busca da “baleia branca”. E assim aconteceu: em 1936 Malcolm teve que deixar os Estados Unidos para renovar seu visto e, na companhia de Jan, foi para o México imitando os passos de seu herói D. H. Lawrence.
 
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O que se segue configura a complexíssima história sobre a escrita de Debaixo do vulcão, obra-prima que justificaria a vida conturbada de Malcolm Lowry ao cumprir seu destino literário, segundo a ideia de Cyril Connolly. O romance começa como um conto (“Festa em Chapultepec”); o primeiro rascunho do romance, patente na Universidade de British Columbia, abre com a seguinte frase: “It was the day of the dead”. As versões subsequentes custariam a Lowry anos de trabalho, incontáveis ​​reescritas, o abandono definitivo de Jan, a queda brutal em sua dipsomania, sua “noite escura da alma” em Oaxaca, a expulsão do México, seu encontro hollywoodiano com Margerie Bonner, seu intermezzo no paraíso em sua cabana em Eridanus em Vancouver, sua recuperação temporária do alcoolismo, o divórcio com Jan, seu casamento com Margerie e sua colaboração na correção de seu romance, o incêndio de sua cabana em Dollarton, a perda do manuscrito de In Ballast to the White Sea e a heroica recuperação por parte de Margerie do enésimo rascunho de Debaixo do vulcão, a conclusão do romance no Natal de 1944, seu retorno à cena do crime, no México, na companhia de Margerie, a rejeição de Jonathan Cape, a ardente carta de defesa de Lowry por seu romance e, finalmente, a publicação em 1947 quase simultaneamente na Inglaterra e nos Estados Unidos.
 
Vale a pena fazer uma pausa para refletir sobre a influência que Margerie Bonner exerceu sobre Malcolm Lowry. Se Jan foi a mulher fatal (the good lay) que serviu de modelo para Lowry e precisou passar por uma série de transformações literárias até se cristalizar na personagem de Yvonne, Margerie acabou se revelando a esposa abnegada e super-protetora (quatro anos mais velha que ele), a mártir que suportava os excessos alcoólicos, escapadelas frequentes (“pequenas saídas”, como Malcolm os chamava) que duravam dias, o mau humor, as explosões autodestrutivas e sua vida agitada, bem como as atitudes de bufonaria que faziam tão complexa a personalidade tragicômica de Malcolm.
 
No final de sua vida no Canadá, o Dr. Raymond confidenciou a Margerie que o companheiro dela tinha medo de praticamente tudo: da vida, do sexo, do fracasso literário, da autoridade. Em sua vida, Lowry publicou apenas dois livros: Ultramarine, que levou seis anos, e Debaixo do vulcão, quase uma década. Porém, frente ao seu amigo e editor Albert Erskine fantasiava com grandes projetos que nunca concluiu, como foi o caso de “A viagem que nunca termina”, em cujo centro seria colocado Debaixo do vulcão, e que seria integrado como parte de uma trilogia formada por Dark as the Grave wherein my friend Laid e La mordida, e ainda por Lunar Caustic e o livro de contos Hear Us o Lord From Heaven Thy Dwelling Place. Este plano foi, durante a vida de Lowry, mais motivo para incontáveis ​​comentários e reflexões do que o progresso real em sua escrita. E de tudo isso só foram publicados, postumamente e editados por Margerie, Dark as the Grave wherein my friend Laid, October Ferry to Gabriola e o livro de contos Hear Us o Lord de onde se resgatam apenas os contos “The Forest Path to the Spring” e “Lunar Caustic”.
 
Seja como for, sem a intervenção de Margerie, a obra-prima de Malcolm Lowry nunca teria visto a luz do dia. Ela era efetivamente a mãe substituta que trabalhou, em colaboração com seu companheiro, nos vários rascunhos que resultaram no milagre de Debaixo do vulcão e que ela teve que pagar compartilhando o inferno diário dele.
 
Ambas as biografias, a de Day e a de Bowker, colocam um ponto de interrogação sobre as causas da morte de Malcolm Lowry aos 47 anos em seu White Cottage em Ripe, Inglaterra, em 27 de junho de 1957. Day diz que o escritor está com sua saúde recuperada ao oferecer a versão de Margerie sobre as circunstâncias de sua morte (“O que se segue é, em essência, a versão de Margerie sobre o que aconteceu”). O laudo do legista na Inglaterra declarava “death by misadventure”, ou seja, “morte acidental”. O dilema é colocado no livro de Day: Lowry se engasgou com seu próprio vômito ou engoliu uma garrafa de barbitúricos para se matar? Com alguma desconfiança, Day deixa em aberto as várias possibilidades e não elimina as contradições em que Margerie incorreu ao explicar o que aconteceu naquela noite em que Malcolm teria ameaçado assassiná-la. Bowker, mais desconfiado, chega a insinuar a possibilidade de homicídio (“ele vai matá-la ou vai se suicidar se você não o matar primeiro?”), mas admite que, nesse caso, Margerie levou para a tumba o obscuro segredo.
 
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O outro grande “sacrificado” pela personalidade e pelo talento de Lowry foi seu editor Albert Erskine, quem, deslumbrado com a leitura de Debaixo do vulcão, o apoiou com todos os meios ao seu alcance. Erskine, primeiro a partir da editora Reynal & Hitchcock e depois da Random House, serviu repetidamente como editor e divulgador, além de amigo e confidente, terminando como uma espécie de mecenas — novamente a figura substituta do pai, que àquela altura já havia morrido — graças à fé que tinha no talento de Lowry. Sua grande capacidade editorial levou à recepção magnífica e quase unânime de Debaixo do vulcão pelos mais proeminentes críticos americanos, como Malcolm Cowley, Alfred Kazin, Mark Shorer, Robert Penn Warren, James Agee, John Woodburn e o próprio Aiken, que se rasgaram em elogios, reconhecendo o romance como um dos mais interessantes do século depois de Joyce e Lawrence.
 
A prova da eficiência e do entusiasmo de Erskine foi a recepção morna que, ao contrário, o romance recebeu na Inglaterra, apesar do Times Literary Supplement reconhecer sua dimensão trágica e a originalidade do tratamento apesar do tema da dipsomania. Erskine serviu durante a vida de Lowry como o conselheiro inestimável que impediu, por exemplo, seu autor de incluir uma introdução ao romance. Assim que a obra foi publicada e como uma prova de fé em seu talento, o amigo fechou um contrato generoso para ele com um adiantamento de cinco mil dólares, a uma taxa de cento e cinquenta dólares por mês, que cobriria de 1952 até o fim de 1956, por meio do qual Malcolm poderia ter se dedicado a escrever sem maiores problemas financeiros (“Debaixo do vulcão é um dos livros mais extraordinários que li e a obra em que seu autor está trabalhando atualmente é uma grande promessa para fortalecer sua reputação. Lowry é um escritor lento e cuidadoso e o trabalho que fez até agora teve de favorecer na travessia pelas circunstâncias econômicas calamitosas”). A única condição da editora para manter esses adiantamentos era a entrega por parte do escritor de seus ambiciosos projetos literários de acordo com os prazos acordados. Ele pagou pelos esforços e confiança de Erskine inventando todos os tipos de desculpas, desculpas e mentiras. Depois de muitos atrasos, finalmente enviou o manuscrito de October Ferry to Gabriola, que acabou sendo um fiasco. O editor, sem os elementos para protegê-lo, não pôde evitar que seus pagamentos fossem suspensos, o que foi um golpe fatal para a imagem que o próprio Malcolm tinha de si como escritor. Como sempre, ainda contestou o gesto com uma carta ao editor, mas dessa vez sem sucesso.
 
A questão pertinente para completar um perfil dessas dimensões foi colocada por Muriel Bradbrook nos seguintes termos: perfeição na vida ou na obra? Nesse caso, a resposta é óbvia, pois poucas vidas são tão tristes e perturbadas quanto a de Malcolm Lowry.
 
Pessoalmente, sou contra a atitude que prevalece nesta era de que os artistas devem ser assépticos, puros e exemplares em suas vidas pessoais para merecer o reconhecimento público de seu trabalho. Poucos romances do século XX suscitaram polêmica tão acirrada como Debaixo do vulcão, que até hoje tem inúmeros e devotados admiradores, mas também ferozes detratores, como foi o caso de Katherine Ann Porter que, ao contrário da opinião de seu ex-marido Albert Erskine, acreditava que era um “livro horrível”.

Declaro-me a favor da perfeição na obra, já que Debaixo do vulcão é um romance imbuído de um profundo sentido mítico e religioso, que permite até quem abjeta o alcoolismo sentir o peso da angústia existencial do Cônsul; é um romance que nos oferece uma imagem dolorosa da queda do homem, de sua luta consigo mesmo, observada com penetrante lucidez e senso crítico, mas isento, aliás, de senso de humor. É também uma história que suscita a impossibilidade do amor, a solidão inata do homem, o desejo vão de ultrapassar as suas capacidades humanas e a condenação a que qualquer pessoa está sujeita pelo simples fato de viver neste mundo que, por vezes, pode se parecer com o inferno.

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* Este texto é a tradução de “Malcolm Lowry”, publicado aqui, em Letras Libres.

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