Lygia Fagundes Telles, a arte de narrar

Por Pedro Fernandes



A obra de Lygia Fagundes Telles se soma a de outras mulheres que marcam a literatura brasileira do século XX e se constitui, como as demais, por uma dupla via: a da transgressão e da resistência. Transgressão porque trata-se de uma obra que estabelece renovações nos estatutos da narrativa, como o exímio trabalho de construção do narrador, ao limite de a narrativa correr como se sozinha; e resistência, porque mesmo desconsiderando um sexo dos textos, é pouco provável que ao invés da categoria narrador tenhamos sempre, mesmo nos casos sub-reptícios, uma narradora. Mas, sua prosa, distribuída entre o romance, o conto e alguma crônica se constitui de uma particularidade: trata-se de uma obra de representação simbólico-social forjada a partir de sua memória e da realidade a qual pertence acerca, mas sem nelas se perder, acerca das inquietudes dos indivíduos no mundo e degelo das linhas objetivas que determinam aos olhos mais ingênuos as fronteiras da realidade empírica e espiritual. Nesta originalidade reside, talvez, a sempre íntima atualidade com o contexto vigente.

Se a quantidade de produção pode definir a condição do artista – isto é, comumente chamamos poeta aquele que, dentre as formas literárias lida mais com o poema, romancista, o que lida com o romance, cronista, com a crônica –, então poderíamos dizer que Lygia Fagundes Telles é contista. Oficialmente, escreveu seis livros nesta forma literária: Antes do baile verde (1970), Seminário dos ratos (1977), A estrutura da bolha de sabão (1991), A noite mais escura e mais eu (1995), Invenção e memória (2000) e Um coração ardente (2012). E apenas quatro romances. Os livros de contos estão reunidos, pela primeira vez, em gesto de obra definitiva, numa antologia que copia ainda outros textos editados noutras antologias e / ou edições esparsas. A escritora, aliás, estreia neste gênero, em 1937, com um livro custeado pelo pai, seu grande incentivador literário, Porão e sobrado, rejeitado depois com vários outros títulos com a justificativa segundo a qual “a pouca idade não justifica o nascimento de textos prematuros que deveriam continuar no limbo”. Estamos no universo de uma escritora para quem a escrita é trabalho sério e cujo prazer é a contínua revisão e reescrita da sua obra.

Dos livros reunidos em Os contos, vale sublinhar o título Invenção e memória. Desta coletânea de quinze textos, destaca-se, para esta ocasião, “Que se chama solidão”. Publicamente, há pelo menos três versões distintas para a narrativa deste conto e uma delas sequer é um conto. Voltaremos a este tópico. No texto que abre o livro se vislumbra duas das características principais de Lygia Fagundes Telles na forma literária conto: a reinvenção, em parte produto realizado pelo contínuo exercício de decantação textual, e a inclinação autobiográfica. Ao dizer este último elemento acompanhado de um termo de certo sentido tendencioso é porque é preciso compreender que a autobiografia na obra da escritora paulista destoa da ideia comumente reiterada, isto é, de uma simples transposição do vivido para o ficcional. As implicações são várias e a principal delas é oferecida pelo próprio fazer literário de uma escritora que recusa a repetição do conto fabricado pela reinvenção do vivido e nele reinventa-se enquanto persona ficcional. Em nenhum dos seus textos com este cariz, o leitor observará uma escrita capaz de conduzi-lo a uma certeza do eu e sim “seu deslocamento através da experiência da linguagem” estabelecendo uma referência por associação crítico-analítica com a oferecida por Wander Melo Miranda no estudo sobre a memória em Graciliano Ramos e Silviano Santiago.

Depois, pode-se citar o próprio tratamento de Lygia sobre o tema que se mostra no título desta antologia: “a invenção e a memória são absolutamente inseparáveis; estão misturadas de uma forma tão entranhada que, se você tentar pretensiosamente separar a invenção da memória, quando você perceber a invenção estará prevalecendo sobre a memória, é impossível separá-las porque ambas fazem parte de vasos comunicantes. Comigo, a memória sempre esteve a serviço da invenção e a invenção a serviço da memória. Quando eu vou contar um fato, de repente, estou inventando, acabo mentindo, mas não, não é bem mentira. Na verdade, eu floreio, estou dando ênfase àquilo que eu quero”, assim observa a escritora numa entrevista ao Suplemento Literário de Minas Gerais, em julho de 2001.



Noutra entrevista, esta concedida para a edição dos Cadernos de Literatura Brasileira, publicação do Instituto Moreira Salles, a contista assim se pronuncia sobre a construção de sua formação na escrita: “Eu sempre digo que comecei a escrever antes de saber escrever. Não é charminho de escritor, não. Falo assim porque antes de ser alfabetizada eu já contava histórias. Eram histórias que eu ouvia das minhas pajens. Essas pajens eram moças desgarradas que minha mãe arrebatava. Eu gostava disso, uma coisa meio medieval, de princesa, ter pajem. Pois bem: eu comecei contando para as outras crianças as histórias que ouvia das pajens. Mas sempre mudava um pouco o que tinha escutado e, quando repetia, mudava de novo. A garotada protestava: ‘Não era assim! A caveira tinha outro nome!’ (caveira porque eu contava sempre histórias de terror). Quando eu formalmente aprendi a escrever, achei que era importante ‘guardar’ as histórias e aí passei a anotar tudo num caderno”. E acrescenta, sobre o feitio das primeiras histórias que fabulava pela escrita: “Quando eu estava no ginásio, lia minhas histórias para o meu pai. Ele gostava de dizer ‘está bom, está muito bom; o nome da personagem é que talvez você devesse mudar’. Eu ficava radiante com essa atenção dele. Eu me dava muito bem com meu pai. Ele era um sonhador. Gostava de jogar cartas e roleta e sempre me levava junto. Era um homem bonito, inteligentíssimo. Tinha uma especial predileção pelos escritores românticos. Nós éramos muito ligados. Eu me achava parecida com ele nessa coisa de sonhar, um certo desgarramento de tudo, eu também era uma desgarrada. Meu pai não se importava com a realidade, e eu também não”.

Só para sublinhar o universo de interferências que enforma a criação de Lygia Fagundes Telles. Este excerto da entrevista se confunde com a narrativa de “Que se chama solidão”. Aí está a memória do ouvinte de histórias que depois mistura-se às cantigas populares, o palavreado da gente ao seu redor, o contato com os poemas da literatura brasileira recitados pelo pai. As formas orais, populares ou saltadas do cânone escrito, assim se constituem num tecido multissignificativo: o imaginário criativo através do qual a escritora transita, ora apenas na ficção ora fora dela como se, propositalmente, nos revelasse pelo exemplo, como um universo e outro não são determinações estanques, mas “ligados por vasos comunicantes”.

O trabalho de invenção, logo, depende e está diretamente ligado ao de rememoração. É impossível, estabelecer o princípio de um e o desfecho de outro. Somos levados a admitir que a própria memória é invenção. Também a ênfase dada pela escritora em imagens como as das pajens e da relação com o pai, sobre o que ela viveu com essas personagens cumprem um percurso para estabelecimento de um pacto em “fazer crível” o rememorado e o ficcionado. No caso do conto, é um gesto muito particular do que podemos tratar de “sedução ao leitor” – em fazer o escritor figura próxima de quem o lê. Cumplicidade das experimentadas na infância de Lygia e refigurada pela ficção de tom igualmente sedutor com que enforma as vozes que determinam sua narrativa.

É preciso destacar ainda a influência do mistério e do enigma como elementos recorrentes na sua contística herdados, sobretudo este último, de obras como a de Machado de Assis; nesse sentido, a obra de Lygia Fagundes Telles alcança uma das linhas primordiais da própria literatura brasileira – filiação não gratuita, portanto; tampouco determinista. O mistério, por exemplo, são heranças mais das histórias de horror, contadas pelos da sua casa, quando na infância; estas histórias encontram seu lugar na formação da narrativa de Lygia quando a leitora logo a reencontra reverberadas noutras expressões literárias do tipo, como a prosa de Edgar Allan Poe; é visível em muitos dos seus contos a presença da morte como expressão temática e resultada a partir da figuração do mistério, do insólito, da intersecção entre os universos que fogem à explicação racional e usual às vivências empíricas; toda sua literatura nesta forma narrativa é rica em tais motivos, mas podemos citar aqui dois exemplos como entre os mais primorosos, segundo seus leitores: “As formigas” e “Venha ver o pôr do sol”, de Seminário dos ratos e Antes do baile verde, respectivamente.

O próprio “Que se chama solidão”, um texto no qual confluem tema, forma e estrutura, tem seu desfecho marcado por essa condição. E foram essas “histórias fantásticas” as que mais lhe motivaram para a escrita; foram as primeiras narrativas que melhor atiçaram a memória inventiva, como reafirma numa outra entrevista – “Eu achava uma delícia passar esse terror meu, esse medo que eu sentia. Eu sempre fui uma criança muito medrosa. Passar para o outro, aí eu fiquei poderosa.” Aproxima-se, essa constatação, daquilo que a própria escritora disse reiteradas vezes sobre a escrita com um subterfúgio, lugar onde o escritor pode experienciar seus medos e reinventá-los também como um gesto de aproximação da condição humana, por compreendê-los enquanto um seu elemento integrador. É um processo que na escrita se angaria pela solidão, esta, elemento participativo no trabalho da memória de todo escritor e da reflexão sobre o que se revela.

Rejuvenescimento dos procedimentos narrativos até inaugurar uma força autêntica, deslizamentos entre os territórios da memória e da invenção, o apagamento das fronteiras entre o visível e o invisível e o contato com as experiências inusuais aos sentidos comuns. Além disso, é preciso sublinhar que a contística de Lygia Fagundes Telles alcança outros limites: suas personagens aparecem envolvidas no olho de um turbilhão de sentimentos desencadeados pela vida contemporânea. Isto é, vislumbramos as tensões vivenciadas no cotidiano, os conflitos subjetivos presentificados por uma memória astuta e observadora dos acontecimentos em sua grande parte simples e corriqueiros. O conto como um fotograma do mundo entrevisto pelo seu criador. Pela via intimista, a autora toca numa diversidade de temas como a infância, a juventude, a solidão, a morte, o amor, numa zona fronteiriça entre o vivido e o onírico-fantasioso, duas margens em constante aproximação com o lado externo e comezinho da vida.

Seu universo narrativo não se esgota nas enumerações aqui propostas. É tecido de uma maneira desgarradora, intricada, vasta e impossível de registrá-lo numa simples leitura ou conjunto de observações como este. Os contos são, assim, um ovo cósmico para um Big Ban e que cobram toda uma vida de leitura e compreensão das suas múltiplas explosões e expansões. O gesto escritural de Lygia Fagundes Telles, pode-se dizer, ultrapassa ainda os limites da literatura produzida no Brasil, porque enquanto grande parte dos escritores ora reflete sobre questões como descentramento dos sujeitos pela via da matéria ficcional ou tece situações destinadamente brasileiras, Lygia está no limiar entre esse lugar e a história, uma vez ser a memória e o seu enraizamento, sua formação, matérias para uma busca sobre os traços definidores da condição humana – o tema mais significativo da grande literatura e outra lição aprendida com Machado de Assis – o que a universaliza e a retira da lista daqueles escritores intrinsecamente presos a um contexto local específico. Só vendo assim, numa parte de sua totalidade, para compreendermos melhor seu importante lugar para a literatura brasileira do século XX.

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