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Mostrando postagens de Setembro, 2008

Amarcord, de Federico Fellini

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Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1975, o longa mescla memórias da Itália sob o fascismo e imagens de sonhos Amarcord é a tradução fonética de "eu acordo" no dialeto italiano da região de Emilia-Romagna, onde o diretor nasceu. Não se trata de um filme exatamente autobiográfico, mas de uma mistura de memórias da infância com o imaginário transbordante de Federico Fellini encenada como se fosse um espetáculo de circo, uma das mais evidentes influências no universo felliniano. O filme é uma crônica de momentos do dia-a-dia de Rimini, uma pequena cidade italiana, nos anos de 1930, época do domínio do fascismo de Mussolini no país. O diretor capta a atmosfera do período por meio da transformação da política em espetáculos, demonstrada numa cena que descreve uma parada militar. Fellini perpassa as mais representativas instituições da cidade insinuando paralelismos entre os comportamentos autoritários na escola, na igreja, na família e no poder púb

Machado Assis: O espetáculo do tédio ou a baba de Caim

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Por Carlos Faraco* “E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; (...) como quem se retira tarde do espetáculo.” Quem fala é o narrador defunto de  Memórias Póstumas de Brás Cubas , comentando sua própria morte. Fica implícita também no trecho uma das comparações freqüentes na obra de Machado: a vida encarada como espetáculo. E que tipo de espetáculo os romances de Machado nos oferecem? A sociedade fluminense na época do Segundo Reinado. Espetáculo tratado de duas maneiras distintas ao longo da obra. Aceitando a divisão de sua literatura em duas fases – conforme já consagrado pela crítica –, os romances se distribuem dessa forma: 1ª fase:  Ressurreição  (1872);  A mão e a Luva  (1874);  Helena  (1876);  Iaiá Garcia  (1878); 2ª fase:  Memórias Póstumas de Brás Cubas  (1881);  Quincas Borba  (1891);  Dom Casmurro  (1899);  Esaú e Jacó  (1904);  Memorial de Aires  (1908). Diante dessa esquematização, poderíamos concluir que na trajetória de Machado ocorreu uma

Machado de Assis: Muitas vezes, uma só hora é a representação de uma vida inteira...

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Por Carlos Faraco* Papéis Avulsos  (de 1882) é o nome do terceiro livro de contos de Machado. O próprio autor comenta: "Este título de  Papéis Avulsos  parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para fim de não os perder". Nada mais falso que essa impressão, pois nesse livro revela-se a maturidade do contista Machado de Assis. Já falamos em duas fases na obra de Machado. No conto, esse livro marca a passagem para a segunda fase, a fase da maturidade artística. Papéis Avulsos  contém algumas narrativas consideradas já clássicas em nossa literatura como "O Alienista", "Teoria do medalhão", "O espelho". O escritor tinha dado um enorme salto de qualidade. Ao lado de temas já vistos nos livros anteriores, em  Papéis Avulsos  Machado recomeça a trabalhar um dos seus temas básicos: a loucura. Nesse sentido, o conto "O alienista" é uma obra-prima,

Machado de Assis: alguma coisa anda no ar - um papagaio ou uma república?

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Por Carlos Faraco* Em meados do século XIX, o mapa socioeconômico do Brasil parecia um quebra-cabeças... desmontado. Diferenças regionais profundas, em todos os setores, num país gigante, com uma população estimada grosseiramente de 7 milhões de habitantes. Pouca gente para muito país. Dessa pouca gente, pouquíssimos decidiam. Quem mandava nas terras eram os cafeicultores do Sul, os criadores de gado e os donos dos extensos canaviais nordestinos. Mandavam na terra, nos escravos, no dinheiro, na política. Em tudo. Ao lado dessa restrita classe dominante, formava-se uma burguesia dedicada ao comércio, que logo logo ia começar a querer interferir nos destinos da nação. Indústria? Nem pensar! Livros, máquinas, calçados, escravos... tudo vinha de fora. E custava dinheiro. Dinheiro que os poucos privilegiados detinham. Em 1880 o Brasil era o único país do mundo ocidental que ainda admitia o trabalho sob regime de escravidão. No entanto, desde 1850, quando Machado ainda e

Machado de Assis: a república do pensamento

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Por Carlos Faraco* Numa sociedade marcada por divisões sociais muito rígidas (como já era o Brasil da época de Machado de Assis), o indivíduo nasce com seu destino social mais ou menos determinado pela origem, pela raça, e até pela possibilidade ou não de freqüentar escolas. Joaquim Maria era menino de subúrbio e a vida intelectual do subúrbio era muito diferente da vida intelectual da Corte. Era essa última que atraía Machado de Assis. Rua do Ouvidor. No tempo de Machado de Assis, tudo acontecia e o mundo passava por aqui. As coisas elegantes do Rio de Janeiro da época aconteciam nos cafés da Rua do Ouvidor, onde as pessoas da classe detentora do poder se encontravam, se divertiam, exibiam suas roupas importadas da Europa. Era por aqui que Joaquim Maria passava grande parte do seu tempo. Trabalhando. Caixeiro de livraria, tipógrafo, revisor foram profissões que provavelmente exerceu antes de se tornar jornalista e cronista. Não terá sido fácil para o adol