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Contra o ensimesmamento: Montaigne e a escrita da leitura

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Por Guilherme Mazzafera Salvador Dalí, ilustração para Ensaios , de Montaigne A palavra é metade de quem fala, metade de quem a escuta. Este deve se preparar para recebê-la, segundo o movimento que ela faz. Montaigne, “Sobre a experiência” Meu encontro com Montaigne se deu em circunstâncias precisas. A seleta d’ Os ensaios acumulava pó na estante há mil dias, comprada unicamente pelo encanto causado pela leitura, na faculdade, do ensaio sobre “Os canibais”. Livros comprados enfrentam sinas diversas: alguns são lidos antes de encontrar alojamento; outros, maturam-se por anos de espera e resignação. Ao saber da morte de meu avô, da iminência da viagem e dos dias difíceis que se seguiriam, coloquei-o na mochila e parti rumo a Minas Gerais. Sua leitura incutiu-me um sabor pessoal de descoberta.    Momentos profundos de perda instilam uma necessidade estranha de tudo repensar, em uma tênue linha contemplativa que avoeja da experiência íntima, individual da morte,