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Mostrando postagens de Julho, 2019

Sete escritoras italianas além de Elena Ferrante que você precisa conhecer

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Desde a publicação do longo romance dividido em quatro tomos que conta a história de duas amigas, da infância à maturidade, passando por momentos singulares em comum e à distância, revisitando instantes conturbados da história italiana e das transformações de Nápoles, a obra de Elena Ferrante nunca mais foi a mesma: deixou o sucesso no seu país natal para se tornar Best-Seller que agrega leitores de todos os tipos e camadas. A chamada febre Ferrante serviu para que no Brasil se traduzisse e se publicasse em tempo recorde toda sua obra, incluindo as incursões da escritora pelo universo infantil. Como se isso não fosse suficiente, abriu os sentidos para um campo entre nós vasto, mas pouco percorrido, o da ficção publicada contemporaneamente na Itália e, na onda dos novos feminismos, o reencontro com obras de escritora desse país um pouco esquecidas, algumas, aliás, referidas pela própria autora da tetralogia napolitana. 
O rápido interesse pela reedição da obra de Natalia Ginzburg tão …

Joseph Conrad. O mar como uma moral

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Por Manuel Vicent


Numa tarde melancólica, uma criança fantasiosa, deitada de bruços na cama diante de um atlas aberto, para de navegar com o dedo indicador todos os mares azuis para adentrar com absoluta liberdade nas selvas mais perigosas. Com a cabeça cheia de barcos piratas, de baús de tesouro, de leões, presas de elefantes, chega um momento em que o menino coloca o dedo num ponto do mapa, o mais exótico, e pensa: “Um dia, quando for mais velho, irei aqui”. Alguns conseguiram realizar este sonho, mas só um se chamou Joseph Conrad.
Este menino não era filho de um conde polonês nem sua tia era princesa belga nem foi apresentado muito cedo ao imperador Francisco José numa audiência reservada no Hofburg de Viena. Os primeiros anos deste escritor, cujo nome de batismo era Jósef Teodor Konrad Korzeniowski, estão rodeados de sonhos aristocráticos que ele fomentava ou não se preocupava em desmentir, sempre fantasioso e rodeado de silhuetas fictícias. Assim deambulava pelo porto de Marselha…

Boletim Letras 360º #331

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Abaixo, o leitor e a leitora do Letras (re)encontra as notícias copiadas durante a semana em nossa página no Facebook: dos novos livros que chegam às nossas livrarias, dos novos interesses editoriais, uma e outra curiosidade ― coisas, enfim, que estão alinhadas com nosso universo. Não sequência têm dicas de leitura, que segue o itinerário nascido do texto de abertura nesta semana no blog, sobre a escritora mexicana Elena Garro. E depois outras dicas ― de vídeos raros e de textos nossos.


Segunda-feira, 8 de julho
Encontrados dois ensaios inéditos de Juan Rulfo.
Muito além do mito sobre as três décadas de silêncio depois da publicação de Pedro Páramo é certo que Juan Rulfo nunca deixou de escrever. Um material inédito acaba de vir a público e serve nas negociações entre a fundação que zela pela memória do escritor e a agência Carmen Balcells para publicação. O primeiro arquivo está constituído por cinco páginas e meia e o outro por 38 folhas: aquele é um ensaio que revisa a literatura br…

Ficção de realidade e realidade de ficção

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Por Amanda Lins


Pontes de Miranda, o professor de introdução ao direito diz incessantemente à turma sonolenta, leiam Pontes de Miranda. Algo no tom dele faz nascer em mim um ensaio de irritação, irritação a qual, a princípio, não consigo identificar o motivo. Mas anoto a sugestão-barra-imposição no canto do caderno e empurro a porta, indo em direção ao mormaço do mundo. As salas de aula no verão nunca são convidativas.
Nascimento em 1892... morte em 1979... escreveu diversos tratados sobre direito privado, vou lendo enquanto passo meus dedos pelas capas empoeiradas, formando um rastro de que estive ali, marcando-me nos sumários já comidos pelo tempo até a metade e nas contracapas quase inexistentes. Na biblioteca, o que entra de luz precisa antes dançar pelos resquícios de poeira, formando uma cortina que me banha de sol aos poucos e me convida, novamente, ao calor de fora. Posso sentar-me num banco e terminar de ler o romance que larguei durante a aula, reflito.
Ficamos sempre, os es…

Odes a Maximin, de Ricardo Domeneck

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Por Pedro Fernandes


A partir da descoberta dos versos de “Autopsicografia” em 1932 foi possível compreender um dos pontos-limite da lírica moderna; a questão, entretanto, não pode se reduzir aqui, nem começa com Fernando Pessoa e considerá-la como tal ou o poeta como a voz exclusiva de uma virada na poesia resulta em graves consequências para uma melhor compreensão sobre a própria história desse gênero literário, mesmo porque, conjeturas dessa natureza aparecem e são mais produtos das investidas para a construção de um mitologema no-do poeta de Mensagem no imaginário cultural português.
O valor dos versos de Pessoa se justifica pela ação provocativa; no contexto literário do poeta reafirma-se o ideário de uma ruptura com as formas simuladas da poesia, sobretudo, as nascidas no interior do romantismo que sedimentaram os valores de um sentimentalismo piegas corriqueiramente debandado para as rotações pessoais. Mas, no fim de tudo, não se oferece nenhuma revelação capaz de subverter os f…

A cosmologia do caminho

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Por Tiago D. Oliveira


Uma orquestra de minorias, do nigeriano Chigozie Obioma, traduzido por Claudio Carina e publicado pela Globo Livros, é um romance fincado sob o conjunto de tradições e crenças de umpovo, a cosmologia igbo. Ele traz uma história que apresenta a relação de um criador apaixonado por aves, Chinonso, com Ndali, uma mulher da alta classe da Nigéria. A paixão dos dois evoca uma cena clássica na literatura, um conflito que se vale da diferença das classes sociais, mas que se reinventa a partir da estrutura narrativa e da voz de um narrador que se apresenta como Chi, o espírito guardião de seu hospedeiro, Chinonso. Depois que Chinonso vê Ndali se encorajando para pular de uma ponte ele a convence de que seria um ato impensado e salva a moça plantando a semente de um interesse mútuo que se transformaria em um relacionamento amoroso.
A forte oposição da família de Ndali à relação dos dois faz com que Chinonso queira ter um diploma para ser aceito por eles e assim casar-se co…

O retrato da solidão

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Por Joaquim Serra





Paul Auster tem a notícia da morte do pai. É o gatilho necessário para tentar reconstruir na primeira parte de A invenção da solidão partes daquele enigmático homem. À maneira de um mosaico, a memória reconstrói a solidão dos últimos anos de vida do pai, a relação distante com o filho, o casamento como uma interrupção da vida que, mais tarde, depois do divórcio, ele retomaria.
O autor de O livro das ilusões, A noite do oráculo, e o mais recente 4321, já publicado no Brasil, volta aos primeiros de vida até o presente da composição de A invenção da solidão. O livro faz parte de suas incursões autobiográficas em que o autor opta por uma terceira pessoa para falar de si mesmo. Isso não confere veracidade à narrativa, mas distancia – ou às vezes aproxima – aquele que fala daquele que age.
A primeira parte, “retrato de um homem invisível”, é uma busca do autor pelo entendimento da figura paterna. O pai é ausente, solitário, “o mundo ricocheteava nele, se espatifava de enco…

Elena Garro: poderes da palavra

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Por Lucía Melgar



Criadora de mundos de luz e sombra, Elena Garro explorou todos as formas: o jornalismo, o roteiro para cinema, o ensaio, as memórias, a poesia, o teatro e a narrativa. A maestria de sua literatura e a criatividade inovadora são suficientes para situá-la entre os melhores nomes do universo literário espanhol.
Grande leitora, conhecedora da literatura espanhola dos séculos de ouro, do romantismo alemão, do grande romance russo e da literatura fantástica do Rio da Prata, entre outras, configurou em seus textos um olhar agudo e sensível sobre seu tempo, uma imaginação deslumbrante e uma escrita fina, rica em matizes e contrastes.
Testemunha de seu tempo, traçou em sua obra um amplo e lúcido mosaico dos avatares do século XX. Em seus romances e contos, farsas, dramas e memórias, aparecem cenas de uma história turbulenta e sombria; personagens encantadoras ou desprezíveis, presas na mediocridade do tempo cronológico ou ameaçadas por um destino fatal, que busca, e às vezes e…