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Mostrando postagens de Janeiro, 2020

O judaísmo de Franz Kafka

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Por Gustavo D. Perednik


Quando abordamos a obra de um escritor universal com o intuito de reconhecer as relações que sua arte mantém com o judaísmo, restam, geralmente, duas alternativas. Ou revisamos sobre qual papel desempenham em sua obra a tradição e o pensamento judaicos, ou nos fixamos em responder qual o comportamento de suas personagens judaicas, de que maneira essas assumem sua identidade. Assim, a opção é desvelar o tipo de cultura judaica presente na obra, ou examinar a identidade judaica, o judaísmo das personagens. O primeiro interesse é mais comum em autores como James Joyce, Jorge Luis Borges; o segundo, em William Shakespeare ou Charles Dickens.
Se o autor é judeu, em geral a análise tende a ser dupla. Mas, no caso de Franz Kafka (1883-1924), essa dupla análise (de judaísmo e de judaico) pareceria impossível porque nem mesmo a palavra judeu não figura em sua rica narrativa. O escritor nos confronta com um dilema: apesar da ausência de personagens judias possíveis de s…

Johnny vai à guerra, de Dalton Trumbo

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Por Pedro Fernandes




A obra de Dalton Trumbo como roteirista, considerando os trabalhos que sabemos seus, é uma das mais vastas entre os criadores para o cinema. Perseguido e amplamente censurado pelos Estados Unidos no âmbito dos cinzentos anos de Joseph McCarthy, soube-se que muitos outros textos assinados por terceiros vieram da sua invejável imaginação criativa. Em literatura, se considerarmos os impedimentos estatais e a grandiosa produção como roteirista, Trumbo foi autor de uma obra também significativa; entre as criações nesse campo estão romances, peças e ensaios. Na primeira forma, se mostrou sempre interessado em pelo menos duas frentes: captar seu remoto e pacato passado em Montrose, onde nasceu, ou Grand Junction, onde viveu dos três anos até sua entrada para a Universidade do Colorado, na adolescência. 
Deixou uma peça, The Biggest Thief in Town (1949), um livro de ensaios, The Time Out of the Toad (1972) e de textos de safra variada, Night of the Aurochs (1979). Sua estr…

1917, de Sam Mendes

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Por Pedro Fernandes


O temário da guerra não está esgotado. Na literatura, a circunstância pode ser outra. Os recursos de contar com palavras só aparentemente são ilimitados, enquanto na arte cinematográfica se é sempre capaz de não apenas contar uma história ainda desconhecida, ou se deter numa pequena parte dela, ou recontá-la. As possibilidades, visto que os meios diferem em quantidade, se não são ilimitadas, ainda nos oferecem com melhor precisão essa ilusão.
Em 2018, Christopher Nolan, incluiu-se na extensa lista das renovações sobre o tema propiciadas pelo cinema com Dunkirk, um filme cuja narrativa recupera um episódio da Segunda Guerra Mundial, no âmbito da Operação Dínamo: o resgate sob o comando do Reino Unido de cerca de quatrocentos mil soldados aliados cercados pelas tropas da Alemanha nazista na cidade francesa que dá título à obra. Mas, se aqui, o que se conta é a extrema solidão do herói e a força de muitas delas juntas na realização dos grandes feitos, o filme de Sam …

Ossos do ofício: Borges e a poética da conjectura

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Por Guilherme Mazzafera


O meu Borges não é o ficcionista nem o poeta, a quem admiro cum grano salis pianíssimo, embora a mescla de verso e prosa entretecida em O fazedor seja uma de suas mais belas realizações. Tendo conhecido o nome Borges em liame íntimo com sua esmerada apreciação de Beowulf, fui atrás de seu livro mais famoso, Ficções (1944), no meu último ano do colegial. Li-o em duas sentadas. A primeira, no quintal ensolarado em um mês de julho quando havia inverno, pôs-me em companhia de um planeta não catalogado, uma biblioteca inexcedível e um famoso escritor francês desconhecido que palimpsestava a obra-prima de Cervantes e que mais tarde se tornaria uma espécie de São Jerônimo pós-moderno. A segunda sentada, naquela noite fria, apresentou-me um duelo impressionante, uma relva bifurcada e alguém incapaz de esquecer. Apresentou-me, também, o vocábulo “memorioso”, cintilantemente borgiano, que mais adiante inventaria uma bela estória sobre um homem que herda a “memória de Sha…