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Mostrando postagens de Julho, 2008

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encontrei-me nu. criança sob uma abóbada celeste chumbo num futuro passado a limpo distante alheio a mim mesmo. divaguei e divaguei nas capoeiras rotas poeirentas, amareladas, por vezes escura, vestida de morte. desterros. no céu cinza escarlate um passado futuro desatado, distante desdobra-se em gotas de estrelas escusas, alheias a mim. quisera reverter a abóbada celeste a abóbada do meu pensamento dissecar todo o lamento em fúria da natureza escura, morta. re(ver) o azul celeste que carrego na abóbada do meu pensamento. ex(por) o brilho vivo das estrelas. acalentar o lamento fúria da natureza vê-la em colorido, forma viva. *  Este poema foi publicado inicialmente no site Jornal de Poesias e Garganta da Serpente.  Acesse  o e-book  Palavras de pedra e cal  e leia outros poemas de Pedro Fernandes.

Literatura pra quê?

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Por Pedro Fernandes Grafitti: Moça Lendo - Beco Vila Madalena Data: 19-04-2008 Ao longo da história da arte e não diferente da tradição literária - do conjunto de textos escritos produzidos pela humanidade não para fins práticos (como manter registros, leis, fórmulas científicas, atas de sessões etc.) - tem sido perguntado quais valores e/ou funções práticas fundam esse campo. Comentemos acerca desse questionamento. Nossa fala se guia pela voz de Umberto Eco, "Sobre algumas funções da literatura". Associada a esta indagação tem surgido uma linha do pensamento segundo o qual o texto literário se produz por amor de si mesmo, sendo sua leitura apenas para deleite, puro passatempo, uma ampliação dos conhecimentos fazendo dos leitores assíduos intelectuais - quando do caso dos leitores gerais, da prosa e da poesia -, ou puro e simples espaço de elevação espiritual - quando do caso dos leitores da poesia. A partir desta ainda há outra, oposta, segundo a qual a literatura

De como uma escritora “maldita” findou transformada em Best-Seller

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  Por Máximo Soto Goliarda Sapienza   Se uma das características da obra de arte é a quantidade de interpretações a que leva seu caráter poético, polissêmico, sem dúvida L’arte dela gioia , romance da escritora siciliana Goliarda Sapienza, alcança essa posição.   Descartado duas décadas, a partir de 1976, por diferentes editoras italianas, censurado como imoral, pornográfico, escandalosamente feminista e absurdamente perverso ou como um pastiche melodramático torrencial com um fundo moralista, L’arte dela gioia tornou-se um “romance maldito” que aos poucos que por ele se interessavam faziam-no por uma mórbida curiosidade sobre quão longe Goliarda Sapienza havia chegado com suas transgressões. O romance foi finalmente publicado em 1996, em uma pequena editora, logo após a morte da escritora, graças aos esforços de Angelo Pellegrino, seu último companheiro.   Pouco depois, acontece algo que leva um dos maiores críticos italianos a escrever “mais uma vez está provado que o mundo da cultu

Cora Coralina

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Conclusões de Aninha Estavam ali parados. Marido e mulher. Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça tímida, humilde, sofrida. Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho, e tudo que tinha dentro. Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar novo rancho e comprar suas pobrezinhas. O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula, entregou sem palavra. A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou, se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar E não abriu a bolsa. Qual dos dois ajudou mais? Donde se infere que o homem ajuda sem participar e a mulher participa sem ajudar. Da mesma forma aquela sentença: "A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar." Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada, o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso e ensinar a paciência do pescador. Você faria isso, Leitor? Antes que tudo isso se fizesse o desvalido não m

Dossiê James Joyce: Ulysses, histórias de uma história

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A história da publicação de Ulysses é em si mesma uma aventura fascinante. Depois de demorar sete anos para escrevê-lo, Joyce enfrentou complicação no processo que vai da edição à distribuição. Em parte, houve as circunstâncias que lhe escaparam do controle, mas em parte ele se entregou à compulsão de reescrever até o último instante antes da impressão; não resistiu ao convite da limpeza tipográfica das provas, que revelava o romance com um distanciamento que o manuscrito não proporcionava.  A caligrafia de Joyce nem sempre era clara, a linguagem literária sem dúvida era incompreensível para os tipógrafos, e no vaivém o resultado foi uma edição com erros tipográficos. Os erros permaneceram nas edições subseqüentes. Só foram corrigidas na quarta edição da editora Odyssey Press, em 1932, com a ajuda de Stuart Gilbert, estudioso, tradutor e amigo de Joyce. Esta edição foi tida por muito tempo como a melhor. Em 1977, porém, o neto e herdeiro de Joyce, Stephen Joyce, de

Vida e obra de Giosuè Carducci

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Por Paul Renucci Se há poetas cuja obra pode ser apreciada sem nenhuma referência a fatos biográficos ou a acontecimentos históricos de sua época, Giosuà Carducci não é um deles. Sempre solicitado pelos acontecimentos do dia ou pelo incidente pessoal, mais inclinado à polêmica do que ao recolhimento sereno, não se esquivando, quando é o caso, de compensar a rapidez da meditação pelo trovão da linguagem, Carducci responde bem à imagem de “eco sonoro”, de um eco posto no centro de um século singularmente rico em acontecimentos. Não se deveria esquecer ainda que este poeta foi um professor e não o foi apenas de maneira acidental ou acessória como num Mallarmé; ensinou sem interrupção durante quase meio século, antes em estabelecimentos secundários (San Miniato al Tedesco, Pistóia) depois, desde a idade de vinte e cinco anos, na Faculdade de Letras de Bolonha, que ele não deveria mais abandonar. Sabe-se que foi mestre ativo, ouvido, que sua produção crítica teve repercussão