As primeiras detetives da literatura

Por Carmen Morán

Ilustração de Alice Barber Stephens para o romance policial The Mayor's Wife, de Anna Katherine Greeen, precursora nas narrativas com detetives mulheres.

Não acreditem que mulheres detetives ou investigadoras são coisas da literatura policial de nossos dias. De maneira alguma. Tampouco foi esgotado seu modelo com Agatha Christie. O diário de Anne Rodway, publicado por Wilkie Collins em 1856 não só figura como a primeira história protagonizada por uma mulher detetive como a impulsionadora a que escritoras se incorporassem a este gênero um quarto de século depois de iniciar os famosos crimes da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe, em 1841. Muitas delas incluíram investigadoras em seus relatos. Foram as primeiras detetivas, vale a pena o uso do termo, num mundo em transformação onde também começa a existir tais figuras de carne e osso.

Aquelas personagens (as mulheres detetives) romperam os princípios engessados da época vitoriana, driblando as convenções e os papéis estabelecidos. Algumas porque eram pobres e necessitavam de dinheiro para levar para casa, outras porque eram ricas e faziam o que lhe davam na telha e todas mergulharam num mundo que era puramente masculino até os ossos, nutrido de criminosos e policiais, em cidades que então ofereciam pouca proteção e nenhum substrato científico para determinar a culpabilidade dos suspeitos. Anna Katherine Green escreveu seu primeiro romance policial, O caso Leavenworth, em 1878 e logo se tornou a leitura obrigatória na Faculdade de Direito de Yale, porque incorporava provas circunstanciais em seus relatos. Também deu origem a esses finais em que se descobre o caso em presença de todos os suspeitos. Depois viria Miss Marple, mas as aguerridas detetives Amelia Butterworth e Violet Strange haviam deixado sinais de sua intrepidez nas páginas da estadunidense Anna Katherine Green.

Entre os finais do século XIX e princípios do século XX, muitas mulheres – e também homens – deram vida a mulheres detetives que seguravam as saias para perseguir um ladrão numa bicicleta, subiam em trem, punham seu chapéu e saíam pelas bucólicas ruas londrinas ou nova-iorquinas em busca de aventuras. Na Espanha, em 2017, foi publicado Ladras vitorianas. Cleptomania e gênero na origem das grandes prisões (tradução livre), de Nacho Moreno Segarra; e neste ano Michael Sims compila 11 contos na antologia Detetives vitorianas. As pioneiras do romance policial. A antologia resgata os nomes aqui citados e outros contemporâneos como o de Catherine Louisa Pirkis ou Mary E. Wilkins. Um bom grupo de homens elegeu mulheres detetives para seus relatos, como George Sims W. S. Hayward, Grant Allen ou Richard Marsh.

Através destas personagens femininas os leitores podem fazer uma ideia melhor elaborada da época quando as mulheres passavam a trabalhar em funções pelas quais eram malvistas. Em praticamente todos os textos, as investigadoras elaboram desculpas para trabalhar nessas margens, seja a pobreza em que vivem ou a necessidade de ajudar alguém, como uma forma de redimir-se por participar de aventuras impróprias para elas. Mas, as autoras, sobretudo, aproveitam suas protagonistas para lançar provocações marcadamente feministas, um movimento que vivia então uma época de grandes conquistas, com as sufragistas questionando as ordens dos sistemas dominantes.

Estas obras encontraram um grande desenvolvimento e seus melhores cenários nas cidades anglo-saxãs, que então vivam os avanços de uma revolução industrial bem consolidada. Pelas ruas de Londres e Nova York se caminhava entre carruagens e as sujeiras deixadas pelos cavalos, chicotes, bicicletas e crianças gritando notícias e vendendo jornais. Ladrões, vagabundos e criminosos num tempo de embrionários projetos para uma atividade profissional do polícia. Aquela sociedade se afastava entre um século e outro entre o barulho e a fumaça dos trens, ou como diz Michael Sims, “o século vitoriano entrou conduzido por cavalos e saiu numa máquina que cuspia fumaça e se alimentava de carvão”, em que se desenharam douradas almofadas e de veludos para as viagens da rainha e vagões de madeira onde se recolhiam os necessitados. Também rodam os automóveis como o que conduz a detetive Madelyn Mack com sua amiga jornalista Nora Noraker em O homem que tinha nove vidas, de Hugh C. Weir.

Mas, pelo que se apaixonou a Inglaterra foi dos “cavalos de ferro”. “Compre uma bicicleta”, dizia Mark Twain. “Não lamentarão se viver para contar”. E não exagerava, porque os acidentes aconteciam, e muito deles às mulheres ciclistas devido aos muitos adornos e a quantidade de saias que se prendiam nas engrenagens das bicicletas para regozijo dos setores mais conservadores que não viam com bons olhos que as senhoras andassem nesse aparato do demônio.

Transitando por estes textos o leitor também encontra a evolução de um gênero literário que começava com toques obscurantistas e esotéricos – quando os forenses pensavam que as mulheres assassinas eram peludas e tinham formas masculinas – até aos primeiros avanços científicos. Esquece-se facilmente que houve um tempo em que nada se sabia sobre impressões digitais, nem de DNA, sequer se podia determinar se o sangue derramado na cena de um crime era mesmo de uma pessoa ou de um animal.

O meio científico, vê-se, deu saltos gigantescos; as carruagens puxadas por cavalos são agora aviões supersônicos; as ilegalidades criminais não deixam de aperfeiçoar suas estratégias. Mas, quanto avançou a luta da mulher por demonstrar sua capacidade sem pedir permissão nem mostrar desculpas? Alguns parágrafos de reivindicações nestes textos ainda seguem plenamente atuais.

* Este texto é a tradução de "Las primeras detectives de la literatura" publicado em Elemental.

   

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