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Mostrando postagens de Agosto, 2018

Ideologia

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Por Rafael Kafka

Em uma barca Rio-Niterói, um policial é informado de que um grupo de militantes de dado partido de esquerda pretende fazer campanha política dentro do veículo, algo proibido pela legislação eleitoral do estado e pelas normas da empresa que gerencia o serviço das barcas. O policial decide usar da truculência para impedir a suposta ação, a qual parece se resumir apenas a um selfie a ser postado nas redes sociais de uma candidata à ALERJ, apontando uma arma para os militantes políticos e a vereadora aspirante à deputada que com eles estava. Em dado momento, alguém diz que armas matam – em uma tentativa de conscientizar o policial do risco trazido às pessoas – o que gera a curiosa atitude responsiva:
– Ideologia mata muito mais.
Além da já habitual violência das forças de segurança, treinadas com o intuito exclusivamente repressivo, temos nessa situação um claro exemplo de ódio ideológico tão propagado pelas mídias sociais nos últimos anos, culminando num perigoso clima d…

O fim de Eddy, de Édouard Louis

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Por Pedro Fernandes


A literatura está repleta de histórias sobre a violência e a pobreza nos pequenos e grandes centros. Em princípio, as narrativas tristes cumprem uma tarefa fundamental à formação do campo discurso do literário: revelar à humanidade uma projeção de sua própria face, colocando no centro de interesse personagens e realidades silenciadas pelos discursos dominantes. Faz sentido se perguntar o que seria da história dos povos se um Victor Hugo não tivesse revelado a extrema miséria a que estavam condenados os franceses de seu tempo enquanto uma pequena parcela se refestelava às custas dos esforços dos miseráveis, ou como conheceríamos a pobreza e a exploração em Inglaterra, sem Charles Dickens, das mazelas impostas por modelos desastrosos como o comunismo na União Soviética nos vários livros que denunciaram os gulags ou o fracasso capitalismo com o retrato duro desenhado pelo escritor estadunidense John Steinbeck. As verdades oficiais, geralmente autoritárias e, por isso …

“Andávamos sem nos procurar”, o filme de “O jogo da amarelinha”, de Julio Cortázar

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Por Ivanna Soto


O jogo da amarelinha nunca foi levado ao cinema. Mas se alguém se atreveu a render homenagem ao meio século de sua publicação a partir de sua transformação em imagens. A encarregada da empreitada foi Daniela Lozano com o curta-metragem Andábamos sin buscarnos (Andávamos sem nos procurar, excerto do romance de Cortázar) toma os capítulos 1, 2 e 7 – Do lado de lá e 93 – De outros lados –, alguns dos que tocam no amor entre Horacio Oliveira e a Maga e propõe um final alternativo com fragmentos de Reino crepuscular, de Daniela Lozano.
Dentre todas as possibilidades, escolhe mostrar o amor entre eles e não o de Talita, Pola ou Lilith. “Como se se pudesse escolher no amor, como se amar não fosse um raio que quebra os ossos e nos deixa paralisados no meio do pátio. Tu dirás que eles escolhem porque-a-amam; creio que é o contrário. Não se pode escolher Beatriz, não se pode escolher Julieta”, escreve Cortázar no capítulo 93. Em Andávamos sem nos procurar de alguma maneira a Mag…

Companheiros de viagem: J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis: "O dom da amizade", de Colin Duriez

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Por Guilherme Mazzafera





Ainda que a ominosa sombra do clichê paire constantemente sobre os resenhistas, digo sem peias que o lançamento de J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis: o dom amizade, de Colin Duriez, pela HarperCollins Brasil, é um acontecimento. Não pelo livro em si, que já havia sido lançado pela Nova Fronteira em 2006. É um acontecimento por ser o primogênito de uma enorme lista de livros de e sobre Tolkien que a HarperCollins promete lançar ao longo dos próximos sete anos, incluindo a obra completa do autor, que continua a expandir-se quase anualmente. Nesta primeira publicação, nota-se o empenho em um belíssimo projeto editorial de ar austero, quase clássico (mas com toques modernos), atendendo à demanda do público por obras em capa dura, com tamanho padronizado e preço acessível. O que é verdadeiramente importante, no entanto, é que o leitor tem em mãos uma tradução de altíssima qualidade feita pelo principal tradutor de Tolkien entre nós, Ronald Kyrmse, amparada por um serviço …

O conto inédito de Ernest Hemingway que narra a libertação de Paris do nazismo

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Por Antonia Laborde


Não importa que Ernest Hemingwaytenha morrido há mais de meio século. O Prêmio Nobel de Literatura de 1954 ainda permite que seus seguidores descubram novas facetas de sua vida através dos textos. Há duas semanas foi apresentado em Paris seu conto inédito “A room on the garden side” (Um quarto ao lado do jardim, em tradução livre). O conto quase autobiográfico revela as proezas de um escritor na libertação da capital francesa em 1944. Aí o próprio onde foi correspondente e ao mesmo tempo parte da resistência. The Strand Magazine foi a responsável pela publicação do texto cujo original de 15 páginas escrito a mão descansava silencioso havia décadas na Biblioteca John Fitzgerald Kennedy, de Boston, junto a outras três de suas narrativas curtas.
No verão de 1956, Hemingway buscou inspiração em suas recordações da Segunda Guerra Mundial. Dessa experiência nasceram sete contos que o autor enviou ao seu editor advertindo-o de que eram histórias “provavelmente muito chata…

Boletim Letras 360º #285

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Estas foram as notícias que selecionamos e publicamos durante esta semana em nossa página no Facebook. Além de lembrar a leitora e o leitor do Letras sobre o papel desta publicação, queremos dizer que, muito em breve, realizaremos uma nova promoção. Então, fique atenta/o às nossas redes sociais. Boas leituras!


Segunda-feira, 20/08
>>> Brasil: Uma caixa reúne cem novelas do Decamerão
Giovanni Boccaccio é considerado uma das grandes vozes do Renascimento italiano – ao lado de Dante e Petrarca – e, com O Decamerão, que inaugurou a prosa de ficção ocidental, foi capaz como poucos de canalizar um manancial de narrativas em uma estrutura complexa, mas ao mesmo tempo acessível e atrativa. As cem histórias desta obra monumental versam sobre os mais variados traços da vida humana, com suas riquezas e contradições, suas paixões e armadilhas. A obra-prima de Boccaccio, ao se desprender da moral medieval e abrir caminho rumo ao realismo, tornou-se um marco singular na literatura e uma fo…