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Mostrando postagens de Abril, 2019

Numa catástrofe, quais livros salvaríamos de nossas bibliotecas pessoais?

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Eterno é o fogo. Esteve adormecido desde as imemoriais eras até ser descoberto e controlado. O controle fica por conta daquelas ilusões que construímos ao longo da vida para garantir nossa própria existência. Na prática quase tudo é sempre o contrário. E esse é um desses casos. É o fogo que nos controla. Mesmo inconsciente. Alguma vez, o leitor poderá ter imaginado não conseguir acordar porque a casa ou o apartamento perece sob as chamas enquanto dormia. Ou que, na ausência de quem o controle, de um sorrateiro curto-circuito, coisinha qualquer, um fogo pode nascer e devorar tudo e deixar só as cinzas... Nossa condição de controlados pelo fogo é tamanha que fomos levado a pensar que se não respeitamos as leis divinas iremos perecer no inferno, descrito por extensa parte da cultura humana como um imenso caldeirão ardente.
E foi, tomado pelo horror de algo que nos encanta que fomos levados a um desafio para este Dia do Livro. Numa tragédia como a do Museu Nacional e a de Notre Dame em no…

Marly de Oliveira, a suave pantera

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Deixei em vagos espelhos
a face múltipla e vária,
mas a que ninguém conhece,
essa é a face necessária.

“O poema é uma estrutura de significantes que absorve e reconstitui os significados, na medida em que seus padrões formais têm efeitos sobre suas estruturas semânticas, assimilando os sentidos que as palavras têm em outros contextos e sujeitando-as a nova organização, alterando a ênfase e o foco, deslocando sentidos literários para sentidos figurados, colocando termos em alinhamento, de acordo com padrões de paralelismo”. A precisa, mas não esgotável, definição sobre o poema, sua ordem, natureza e comportamento, está num texto, certamente conhecido de muitos estudantes de Letras, do teórico estadunidense Jonathan Culler. E a retomada dele no início destas breves notas biográficas não é gratuita, tampouco cumprem um interesse de servir para uma discussão sobre a forma literária, mas porque guardam estreita aproximação com a obra poética de Marly de Oliveira.
Ela nos deixou uma vasta…

Boletim Letras 360º #319

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No último dia 13 de abril sorteamos um exemplar de Sagarana, de João Guimarães Rosa, em novíssima edição pela Global Editora. O livro já está a caminho de um leitor do Letras in.verso e re.verso de Curitiba. Terá mais do escritor mineiro, em breve, no nosso Instagram. Bom, e nesta semana, especificamente, tivemos o privilégio de receber mais dois novos colunistas para compor o blog Letras in.verso e re.verso: Beatriz Martins e Davi Lopes Villaça. Não deixem de passar a acompanhá-los. Recadinhos apresentados, vamos às notícias que fizeram o mural do blog no Facebook.

Segunda-feira, 15 de abril

Uma releitura de 1984, para a HQ.

Em 2020 passam-se sete décadas sobre a morte de George Orwell. Passa assinalar a data, a Companhia das Letras prepara uma adaptação em HQ de um dos romances mais conhecidos do escritor britânico e também um dos mais vendidos da casa. A ideia segue a mesma lógica da que tem sido um sucesso recente na editora: a da adaptação de A revolução dos bichos, outro título d…

Por não recear o olhar penetrante: desconstruindo o cenário do primeiro cinema

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Por Wagner Silva Gomes


A história do cinema registra que os primeiros filmes eram gravados em uma única cena em plano geral.A câmara era afixada de frente para o cenário, não captando assim os movimentos e detalhes da cena. Até por isso os franceses responsáveis pelas primeiras películas chamavam o roteiro de cenário. Com isso, o cinema tinha como base a linguagem teatral, que é construída ainda hoje apoiada na recepção da plateia (público) frente ao palco (atores e cenário).
Vitor Manuel Aguiar e Silva, em seu livro Teoria da Literatura, diz que o drama (teatro) é baseado na ação, ou seja, nas tensões momentâneas e imediatas entre os sujeitos. E isso é sugestivo porque o desafio que levou o primeiro cinema a progredir foi justamente se pensar na desconstrução da cena (do ilusionismo de Méliès, passando pelos cem olhos dos construtivistas Russos, ao travelling de Griffith e as inovações contemporâneas). Para isso, era preciso sair do caráter teatral que trazia os planos conjuntos, com…

Varlam Chalámov, contador de histórias

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Por Davi Lopes Villaça

O escritor russo Varlam Tíkhonovitch Chalámov (1907-1982) viveu quase vinte anos como prisioneiro em campos de trabalho forçado soviéticos. Entre 1937 e 1951 trabalhou nos campos da região de Kolimá, na Sibéria, também conhecida como a “terra da morte branca”. Dessa experiência recolheu o material para sua obra mais importante, Contos de Kolimá, escrita entre 1954 e 1973.
Duas narrativas, ambas presentes no primeiro livro da coletânea, lançam uma luz sobre o sentido dessa extensa obra, permitindo-nos também uma reflexão sobre a relação do autor com a literatura. Em “Pela neve” (não por acaso o primeiro conto do livro) Chalámov descreve o movimento lento e exaustivo dos prisioneiros que, postos a andar lado a lado, abrem caminho por entre a neve que cobre a terra, para a passagem de pessoas, comboios de trenós, tratores.
“Se caminhassem sobre cada uma das pegadas do primeiro, abririam uma trilha visível, mas difícil de ser percorrida, uma senda e não uma estrada…