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Mostrando postagens de Novembro, 2019

Boletim Letras 360º #351

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As notícias da semana publicadas em nossa página no Facebook, incluindo a que instaurou uma polêmica entre leitores, a escolha de Elizabeth Bishop como homenageada da 18ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, estão reunidas neste Boletim que traz, ainda, dicas de leituras e outras dicas relativas ao universo dos livros.

Segunda-feira, 25 de novembro
Reedição da antologia que reúne oito peças de Anton Tchékhov
Além de exímio contista, Tchékhov estabeleceu novos padrões para a dramaturgia contemporânea. As oito peças reunidas nesta antologia, traduzidas diretamente do russo, são pequenas pérolas de grande valor literário. Compostas por apenas um ato, elas se caracterizam pela linguagem despojada e pelo humor cheio de ironia — traços da prosa do autor. Nas versões para o português, o professor da Universidade de São Paulo Homero Freitas de Andrade buscou recriar os efeitos estéticos, os trocadilhos e o ritmo dos originais. A edição é da Ateliê Editorial.
Organização da Festa L…

A literatura e o Estado policial

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Por Rafael Kafka


Há algum tempo o debate sobre as políticas de encarceramento no nosso país vêm gerando um debate interessante dentro do campo político. Os programas policiais incitam a um recrudescimento das leis para maior punição de criminosos em regimes mais privativos de liberdade, geralmente pegando infratores pobres e pretos, pouco ou nada discutindo sobre as causas sociais da violência. No meio dessa narrativa, reforça-se a ideia de um certo essencialismo que converte pessoas cometedoras de crimes em sujeitos sem salvação e o presídio na solução mágica que ajuda a manter tais pessoas longe do mundo dos cidadãos de bem.
A discussão sobre esse tema se intensifica diante de um Estado policial que claramente ganha mais força dentro do imaginário afetivo da população média. A violência se torna um acontecimento catártico e revela cenas como a do sequestro ocorrido há alguns meses no Rio de Janeiro que em seu desenlace viu uma multidão de pessoas tratando o evento e a morte do seque…

Proust e o Goncourt, o triunfo da literatura

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Por Andrés Seoane


No final de 1919, uma das controvérsias literárias mais populares da profusa história das letras do país gaulês explodiu na França. A cada vez mais prestigiada Academia Goncourt, fundada em 1903, concedeu seu prêmio a um escritor desconhecido chamado Marcel Proust (Paris 1871-1922) em detrimento do grande favorito da crítica, da imprensa e do público, Roland Dorgelès. “Hoje é necessário beliscar-se para acreditar que essa controvérsia existiu. E, no entanto, mesmo quando parece uma ficção, nada é fictício”, explica o escritor e crítico literário Thierry Laget, que em Proust, o Prêmio Goncourt. Um motim literário (tradução livre, do espanhol) conta como foi gestada a casual concessão do galardão ao grande escritor parisiense e a reação virulenta de seus contemporâneos. “Resulta difícil pensar que houve um tempo em que Proust não era apenas desconhecido, mas também desprezado e atacado pela maioria dos jornalistas e escritores franceses”.
Para entender essa situação an…

Anotações sobre Sinais de fogo, de Jorge de Sena

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Por Pedro Fernandes



Uma visita à produção criativa de Jorge de Sena é o suficiente para compreender que o designativo múltiplo costumeiramente empregado sobre ele não é gratuito. Sua obra alcança, no âmbito da literatura portuguesa do século XX, os melhores lugares nos três gêneros literários que praticou: é o exímio poeta de quase três dezenas de títulos de poesia; é o autor de quatro peças de teatro; e o exímio prosador de quatro vezes mais obras que as da poesia, divididas essas entre contos, novelas, crítica cultural ou literária e um romance, nascido só aparentemente, falhado.
Sinais de fogo é um romance só aparentemente falhado porque, ao que conta Mécia de Sena na longa e esclarecedora introdução escrita entre 1983 e 1984 e acrescentada à terceira edição da obra, era o segundo dos quatro títulos planejados para formar o ciclo ficcional Monte Cativo. Durante a concepção, o escritor relatou aos amigos muito de perto o processo de geração até chegar a um consenso de que o romance s…

Carson McCullers: o licor limpo e seco do amor

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Por Natalia Izquierdo





É possível que, onde quer que esteja, a grande escritora do sul profundo dos Estados Unidos continue a ter o mesmo aspecto que tinha em vida, isto é, o de uma daquelas criaturas esquivas e frágeis que povoam os contos de Hans Christian Andersen; o de um daqueles seres especiais que andam na terra armados com um coração de fogo, mas que ao mesmo tempo pertencem ao além, e é por isso que sempre parecem ansiar por inexistência e invisibilidade.

No entanto, é bem possível que, com esse desejo de desvanecer e desaparecer, a romancista tentasse compensar a superexposição a que sua mãe a sujeitou desde o dia em que, com apenas cinco anos de idade, ela a surpreendeu improvisando uma música no piano. A partir de então, acreditando que o talento era incompatível com a humildade, seu pai começou a proclamar para seus parentes e vizinhos que sua filha era uma criança prodígio, bem como a lhe infligir as mais diversas “torturas estilísticas” na esperança de fazê-la uma distin…

A lista dos 100 livros preferidos de David Bowie

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Por Diego A. Manrique


A devoção de David Bowie (1948-2016) aos livros nem sempre foi bem compreendida. Nos anos 1970, quando evitava os aviões, viajava com uma verdadeira livraria ambulante: alguns baús que, uma vez abertos, davam a ver livros e mais livros. Muito suspeito para os guardas de fronteira soviéticos, encarregados de verificar o expresso que ia de Varsóvia a Moscou. Quando descobriram volumes dedicados a Albert Speer e Joseph Goebbels, pensaram que haviam detectado algum tipo de espião ou agitador. David se apressou em explicar que estava documentando-se para um possível filme. Antinazista, é claro.
Claro que não havia esse projeto de filme. O interrogado, veterano de viagens difíceis na Transiberiana, sabia que era melhor não se complicar com a KGB: eles dificilmente entenderiam que se tratava de um consumidor de ideias que se colocava à prova em entrevistas e conversas, um alquimista que transformava informação em conceitos vendáveis, na forma de músicas, turnês, videocl…