Thiago de Mello



Talvez poucas pessoas tenham tido contato com a poesia de Thiago de Mello; claro, estamos num país de dimensões continentais e atravessado ainda por uma ignorância sobre os seus filhos, sobretudo, aqueles que, de fato, dão pulsão, dia após dia, a um projeto de nação pela palavra. Sim, um escritor tem, entre outras tarefas, essa: dizer o seu povo e o lugar do seu povo.

É essa consciência, basicamente, que é enformadora da obra poética de Thiago de Mello. Uma das poucas vozes engajadas do nosso tempo. O poeta que criou para si um mundo todo branco, refletido nas vestes que usa, é o que podemos chamar de uma das poucas figuras que marcam o cenário da poesia brasileira contemporânea.

Nasceu em Barreirinhas, no Amazonas, e desde que deu início ao ofício do verso dedicou-se profundamente a dizer esse lado mais fabuloso e maravilhoso do Brasil. E fez-se assim um dos poetas mais respeitados não apenas por seus versos, mas como uma voz que clama em proteção à Floresta Amazônica e a unificação dos povos da América Latina. Nesse trabalho, escreve o seu lugar na mesma linha de outros nomes da poesia: universalizar-se a partir de seu lugar de origem.

Se conseguirá, não é tarefa nossa dizer. Eis uma resposta que está eclipsada nas entranhas do tempo. O tempo, ante a crítica e a conservação da obra, é o grande responsável nessa tarefa. A obra de De Mello (como já o chamava José Lins do Rego) anuncia uma aurora, assim diz Felipe Fortuna. "Marcada pelo engajamento político, ela atravessa um momento crucial de nossa História: a expectativa das reformas sociais e, por fim, o golpe militar de 1964." Foi nesse ano que os poemas "Os estatutos do homem" e "Madrugada camponesa", dois títulos mais conhecidos de seu trabalho estavam sendo escritos.

Apesar de alguns títulos como os citados levarem-no ao lugar do grande poeta, a crítica tem recebido sua permanência no mesmo lugar de intervenção, sobretudo, agora, noutra conjuntura histórico-social do país, como uma incapacidade de renovação poética. Num campo de margaridas, o livro de 1986, já fora recebido como um "mau gosto" poético e "uma poesia ingênua". Felipe Fortuna mesmo é um dos que diz ser essa a obra do declínio do poeta. "Como quem não domina seus recursos formais, Thiago de Mello se deixa embalar por composições que são, a um só tempo, cantigas melodiosas e anotações pessoais, mas, em nenhum dos casos, se trata de grande poesia". A dureza da crítica é adoçada pela pressa com que o poeta se ateve em publicar essa obra.

Sobre a relação com o contexto histórico mais negro do Brasil, Thiago de Mello, como muitos de seu tempo, também foi preso durante a ditadura militar e depois exilou-se no Chile, onde teve contato com o poeta Pablo Neruda de quem torna-se amigo para o resto da vida. Dessa amizade resultaram traduções de poemas, além da escrita de ensaios acerca da obra do chileno. Neruda também terá retribuído os afetos e a dedicação do poeta brasileiro na mesma altura. No período de exílio percorreu quase toda a América Latina e parte da Europa onde ficou até o retorno à sua cidade natal quando do fim do regime ditatorial.

Da sua obra o destaque são para os títulos iniciais que deram, de fato, o título merecido de poeta a Thiago; são obras como Silênico e palavra, seu livro de estreia em 1951, Narciso cego (1952), Faz escuro, mas eu canto (1965) e o já citado Os estatutos do homem. Além da poesia, escreveu alguma prosa - A estrela da manhã (1968), Borges na luz de Borges (1993). Para o crítico José Castello, a obra de Thiago de Mello ergue-se na contramão do projeto modernista.

Desde meados da década de noventa que não mais tem se dedicado a trabalhos mais significativos. A aparição pública do poeta se deu quando da publicação de um CD comemorativo aos oitenta anos. A criação do mundo traz uma antologia de poemas recitados pelo próprio poeta e outros musicados pelo irmão Gaudêncio de Mello. A partir desse silêncio fica cada vez mais evidente que, aquela inovação sonhada pela crítica nunca haverá de chegar: o seu lugar de permanência será sempre o da poesia insubmissa, no sentido de ser enfrentamento a um modelo de vida que se ergue complexo e destrutivo do próprio homem.

Quando muito esse lugar poético se deixa tomar pelas mesmas nuances do que é a poesia de Pablo Neruda: o poeta é um homem capaz de compreender seu lugar no mundo e deve nele intervir.


Fio da vida
na tarde em que as coronárias oclusas, entristecidas, me pedem para cantar, julho de 1998.

Já fiz mais do que podia
Nem sei como foi que fiz.
Muita vez nem quis a vida
a vida foi quem me quis.

Para me ter como servo?
Para acender um tição
na frágua da indiferença?
Para abrir um coração

no fosso da inteligência?
Não sei, nunca vou saber.
Sei que de tanto me ter,
acabei amando a vida.

Vida que anda por um fio,
diz quem sabe. Pode andar,
contanto (vida é milagre)
que bem cumprido o meu fio.


A fruta aberta
Sobrevoando a Cordilheira dos Andes, 1962

Agora sei quem sou.
Sou pouco, mas sei muito,
porque sei o poder imenso
que morava comigo,
mas adormecido como um peixe grande
no fundo escuro e silencioso do rio
e que hoje é como uma árvore
plantada bem alta no meio da minha vida.

Agora sei as coisa como são.
Sei porque a água escorre meiga
e porque acalanto é o seu ruído
na noite estrelada
que se deita no chão da nova casa.
Agora sei as coisas poderosas
que valem dentro de um homem.

Aprendi contigo, amada.
Aprendi com a tua beleza,
com a macia beleza de tuas mãos,
teus longos dedos de pétalas de prata,
a ternura oceânica do teu olhar,
verde de todas as cores
e sem nenhum horizonte;
com  tua pele fresca e enluarada,
a tua infância permanente,
tua sabedoria fabulária
brilhando distraída no teu rosto.

Grandes coisas simples aprendi contigo,
com o teu parentesco com os mitos mais terrestres,
com as espigas douradas no vento,
com as chuvas de verão
e com as linhas da minha mão.
Contigo aprendi
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
e a cada instante mais aprendo
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada,
com a luz dos teus dentes,
tuas delicadezas secretas,
a alegria do teu amor maravilhado,
e com a tua voz radiosa
que sai da tua boca
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio e unindo os extremos da vida,
e mostrando a verdade
como uma fruta aberta.


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