Três notas introdutórias sobre "Os sertões", Euclides da Cunha

ilustração: Andrés Sandoval (detalhe)


Livro posto entre a literatura e a sociologia naturalista, Os sertões assinalam um fim e um começo: o fim do imperialismo literário, o começo da análise cientifica aplicada aos aspectos mais importantes da sociedade brasileira (no caso, as contradições contidas na diferença de cultura entre as regiões litorâneas e o interior).

Antonio Candido, Literatura e sociedade


1. O crítico Antonio Candido define com essas palavras a importância d’Os sertões no panorama literário e cultural brasileiro. Obra publicada em 1902 e tida pela crítica como marco do pré-modernismo. A obra está dividida em três partes, "A terra", "O homem", e "A luta". Dado o conteúdo e a forma como que o romance se apresenta sua monumentalidade se constitui sob vários aspectos, e um dos, é fato de, ao ser assim composta, não ajustar-se a nenhuma categoria das criadas pela crítica; e, sequer ser possível ser acomodada facilmente ao que se tem convencionado como literatura. O livro de Euclides está entre a Geografia, a História, a Sociologia, compreendendo propositalmente uma pluralidade de áreas do saber. Se isso não serve aos vínculos pré-estabelecidos, serve para localizá-lo entre as grandes obras literárias. Pensem tal como Barthes em Aula - a literatura como convergência de todos os campos do saber. Por essa natureza, é leitura indispensável para se pensar as próprias bases que constituem o país.

2. É possível se dizer apenas que é um romance dotado, em parte, de uma clara visão determinista acerca do homem; este é apresentado como produto do meio onde vive. Retirado do meio, o homem é incapaz de competir com ele próprio. Em Euclides, porém, esse determinismo ganha fortes contornos regionalistas. A descrição sobre o homem do Nordeste inaugura um tipo desconhecido aos do Centro-Sul do país e essa obra antecipa, em cerca de três décadas, aquela que será a linha mestra da prosa de ficção da segunda fase do Modernismo, o romance regionalista. 

3. Os sertões, longe de querer classificar o texto euclidiano, é um documentário do que foi o reduto de Canudos. A versão oficial foi que aquele lugar agregou uma massa de revoltosos que ameaçavam a estabilidade do Estado é corrompida pela obra. Não este o caráter mais nobre da literatura? Romper com verdades estabelecidas? Enviado ao lugar para testemunhar a visão verdadeira, Euclides pode contemplar outra possibilidade da história e oferecer-nos outro retrato. Escreveu um livro sobre o nascimento de um povo, e de denúncia do sobrepujamento do poder sobre os da margem. Os sertões é, por baixo de seu tecido narrativo, a história do desinteresse e do descaso que foi sempre a alavanca dos governos e do País em relação aos pobres.



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